sexta-feira, 9 de junho de 2017

ASSOMBRAÇÕES

A minha infância foi recheada de histórias de assombração. Alguns desses casos pareciam verdadeiros, a fonte era confiável, mas nunca consegui acreditar nisso.  Estradas desertas, casas abandonadas e encruzilhadas eram lugares preferidos das “coisas do outro mundo”.  Algumas dessas “almas penadas” ficariam empoleiradas nas porteiras durante a madrugada. Quando alguém se aproximava, a “coisa” abria a porteira para que o andante passasse tranquilamente. Tranquilo?... Segundo contavam, o coitado partia desesperado, em desabalada carreira. Chegando em casa, pedia que não acendessem luz; tinha que ficar no escuro por algum tempo, não se sabe por quê.  

De um vizinho, homem respeitado por sua valentia, contava-se que a “coisa” montara na garupa de sua mula. O “indesejado” o acompanhou por todo o trajeto, gelando sua cacunda, até chegar em casa. O animal bufava e suava, trotando com dificuldade, pois o troço era pesado à beça.  Noutro episódio, um parente próximo teve de abandonar sua própria casa devido a fenômenos estranhos. Os casos que ele conta são de arrepiar até os mais céticos, como eu.

Recentemente, um colunista da Folha contou uma história dessas ocorrida em Ipanema, no Rio de Janeiro. Após o falecimento do ocupante, um apartamento entrou em reformas, mas alguns operários se recusaram a trabalhar lá. Descargas sanitárias eram acionadas misteriosamente, lâmpadas piscavam, martelos mudavam de lugar; respirações ofegantes, tosses, pigarros, passos também aconteciam sem que tivesse alguém no local além do operário. Até o porteiro evitava visitar o imóvel devido ao caso. Um senhor, alheio aos acontecimentos, alugou o apartamento e morou nele por um tempo, mas não resistiu. Bateu em retirada, porque a coisa estava cada vez mais fora de controle nas suas noites, que se tornavam longas e tenebrosas.

Não acredito em assombrações, porque elas só aparecem a alguém sozinho, à noite, mas nunca no meio do dia e para um grupo de pessoas. São elas tímidas, ou covardes? Mais: por que ao invés de remover um pequeno objeto, como um martelo ou um livro, a danada não desloca a geladeira da cozinha para a sala, ou um guarda-roupa do quarto para a cozinha? Aí, sim, seria mais emocionante, não?...

Ainda. Por que os “seres das sombras” não agem no sistema bancário, fazendo transferências de uma conta para outra? Não dominam a tecnologia?... Se são do mal, poderiam praticar a maldade de forma mais efetiva e charmosa; sendo do bem, a justiça social triunfaria!

Há pouco tempo uma dessas assombrações pareceu ser do bem, quando o “usurpador” foi enxotado do Palácio da Alvorada. Que interessante: um “vampiro” atormentado por “zumbis”, que o puseram para correr! Mas poderiam ter feito o serviço completo, expulsando-o também do Jaburu, de Brasília, do País... que se encontra cada vez mais mal-assombrado.


FILIPE

sexta-feira, 26 de maio de 2017

MAIOS DE ANTIGAMENTE

Como diria Machado de Assis, na minha infância já existia maio. Só que o maio da minha infância parecia ser mais doce do que os “maios” de hoje. Foi num mês de maio que minha mãe ganhou um bolo trazido da escola por meu irmão mais velho. Acostumados às broas de fubá com erva-doce, aquele presente causou alumbramento em casa, pois foi a primeira vez que, crianças, comíamos bolo. Lembro do gosto de baunilha, que eu nem sabia que era baunilha. O pratinho de papelão ficou por tempos em casa, exalando aquele aroma de “bolo das mães”. Foi naquele dia que fiquei sabendo que as mães têm um dia só seu, e que poderia ser comemorado com um bolo de baunilha.

Em maio havia a colheita do arroz-de-abril – uma variação dos inúmeros arrozes que existem e que cultivávamos – cuja planta de cana longa produz exuberante cacho com grãos dourados e esguios. Parece que o arroz-de-abril não era muito apreciado pelo mercado. Mas não me importam as pretensões do mercado, que exporta; importa-me o arroz, que nunca exportei.

No maio da minha infância tinham festas em Vilas Boas, que a dona Angelina Tibúrcio frequentava conosco. Ela, como nós, ia descalça e com sua blusinha branca, de malha – a única que tinha. O Tatão Tibúrcio, irmão da dona Angelina, com quem morava, ficava em casa. Tinha cravos nos pés, reumatismo nas “juntas” e não podia fazer longas caminhadas nem deixar a “casa sozinha”. Àquelas festas acorria muita gente para participar da novena e assistir à coroação de N. Senhora. Minha irmã mais velha foi coroadeira por algum tempo, e diversas vezes orgulhei-me de vê-la vestida de anjo. Havia, a cada ano, a liturgia de despedida da coroadeira-mor, para que as menores pudessem ascender a esse posto.

Após as rezas, havia o leilão. O leiloeiro era o senhor Geraldo Lima, um homem claro, do tipo “galego”, que animava a festa de dentro de um coreto. Pegava uma das muitas prendas que estavam num canto e dizia: “Este aqui tá cheiroso... Deixa eu ver direito. Ih, é um frango assado, que tá uma delícia!... E tá sem preço!!! Quem dá o lance?...” “Vinte cruzeiros, que é pra começar!”, gritava alguém.  “Vinte e um cruzeiros, que é pra minha patroa!”, respondia outro. “Vinte e dois cruzeiros, que é pro compadre não levar!”, gritava um homem que acabava de chegar. E o pregão continuava com aquele “pingue-pongue”, até que: “Trinta e cinco cruzeiros, dou lhe uma. Trinta e cinco cruzeiros! Trinta e cinco cruzeiros! Vou bater o martelo... Trinta e cinco cruzeiros... Dou-lhe duas... dou-lhe três!” E o frango vai foi arrematado por alguém lá de D. Silvério.

No dia da Santa, o mais esperado, havia missa e muitos fogos, especialmente uns tais “foguetes de vara”, que o seu João Firmeano soltava. Somente aquele velhinho dominava o ofício, que lhe conferia certo prestígio. Solene, o “oficial da artilharia divina” segurava firme cada artefato, acendia o estopim e liberava a vara, que subia sibilante, iluminando o céu noturno de Vilas Boas, espocando nas alturas.

Mais um maio se vai. Não houve bolo de baunilha, foguetes de vara nem leilão. Daqueles maios antigos, ficam-me essas doces recordações.


FILIPE

sexta-feira, 12 de maio de 2017

CAÇA À JARARACA

O arredio leitor não se assuste. Não farei uma defesa apaixonada de Lula neste “ensaio”, mas também não lhe farei ataques, pois de safanões ele não carece e deve estar com o lombo ardendo de tanto apanhar. Ademais, o meu político favorito nem é brasileiro, mas uruguaio. Gosto do “Pepe Mujica”. Aquele, sim, quando no exercício do mandato, manteve a simplicidade, dirigindo seu fusca e continuou morando no mato, numa chácara da família. De seu ordenado como presidente do Uruguai, noventa por cento eram doados para instituições de caridade. Se atualmente meia de dúzia de nações estivessem sob o comando de “Mujicas”, a humanidade estaria curando suas chagas e se redimindo de seus males.

Volto ao Lula. Essa “jararaca” é o alvo da caçada que se empreende. As miras do Judiciário, no entanto, não estão no homem, mas sobre o que ele representa. Há contra Lula mais de uma centena de ações em diversos tribunais espalhados pelo País. Enquanto não o puserem sob ferros ou o impedirem de disputar eleições, não haverá trégua. Convocado pelo “justiceiro de Curitiba”, Lula teve de explicar a origem de um apartamento e de um sítio. Ora, alguém que governou o País por oito anos ser acusado de ganhar um apartamento e um sítio?... Isso parece caso de vereador de província e em primeiro mandato. Acredito que um presidente da República, no “ofício de seu vício”, compraria apartamentos em NY, Paris, Londres... ou poços de petróleo na Arábia Saudita. Jamais um sítio com pedalinhos pra lá de brega e apartamento em Guarujá.

Quem leu alguns livros de história conhece a trajetória de Getúlio Vargas e pode compreender o momento que vivemos. Aquele gaúcho, um político multifacetado e polêmico, destorceu o centro do poder, mudando para o Sul o centro de gravidade da política nacional. Mas os oligarcas paulistas e mineiros não lhe deram sossego. Aconteceu a tal Revolução Constitucionalista, logo depois a ditadura do Estado Novo, a queda do “caudilho”, o retorno do “velhinho” e, finalmente, o suicídio do “pai dos pobres”. Agora os tempos são outros, mas a hipocrisia e a desfaçatez permanecem inalteradas, pois vivemos sob o jugo de um governo ilegítimo e despótico, um parlamento venal e um judiciário corporativista e vingativo.

Afirmo nestas linhas, já encerrando, que Lula não é ladrão; sendo, é um bobalhão que nem se presta a “roubar decentemente”. Jânio quadros, que entrou na política pobre, morreu deixando sessenta e seis imóveis. Quantos são os imóveis de Lula? Já Paulo Maluf é um cara esperto. Mantém, segundo a Agência Estado, suspeitosos 340 milhões de dólares no exterior, embora fosse obrigado a devolver à prefeitura paulistana um pouco mais de oitenta milhões de reais. Maluf não é investigado pela Lava Jato, não é fustigado pela mídia e nem corre risco de ser preso.

Lula não é Getúlio. Como uma “jararaca mal matada”, ele ainda dá seus botes, mas, para gozo de seus desafetos, não disputará eleições. Com sorte, passará seus tempos finais no ostracismo; com menos sorte, na carceragem; sem sorte alguma, terá o destino de Getúlio ou de Juscelino.

Em 2018, aprofunda-se o caos. Ah, não vai dar e eu terei que me mudar para o Uruguai. Quero morar naquela Pasargada, que já foi a nossa “Província Cisplatina”.


FILIPE

sexta-feira, 28 de abril de 2017

O REBANHO EM PERIGO

Artigo publicado no jornal "A Tribuna", edição de hoje.

“Escreva algo positivo no jornal. Tem dia que atendo confissões por até quinze horas, celebro missa no cemitério, faço tantas outras coisas... e você vai ao jornal só para criticar?! Vá lá, escreva alguma coisa boa, que os católicos agradecem!” Assim, o pároco da catedral de Amparo interrompeu a sessão de abraços, fartamente distribuídos aos fiéis numa extensa fila após a missa matinal no Domingo de Páscoa, para me dar esse pito.

Penso ser desnecessário dizer publicamente, mas admiro o trabalho do padre Anderson à frente da Catedral. Amável, discreto, exigente e comprometido, esse jovem sacerdote exerce com louvor seu ministério. Suas celebrações são concorridas, sobretudo pelos jovens, que não suportam delongas – aquelas missas intermináveis. Além de pastor zeloso, é um destacado administrador do rico patrimônio histórico sob sua responsabilidade, cuja manutenção é feita com singular desvelo.

Justiça seja feita também a inúmeros religiosos, além do padre Anderson, que doam a vida em favor dos deserdados. Num trabalho silencioso, muitos pastores declinam do conforto da “civilização” e se embrenham nos sertões inóspitos, enfrentando os rigores da natureza, a pobreza e muitas vezes os violentos da sociedade. Levam a palavra aos sem voz, a liberdade aos cativos e a alegria aos entristecidos.

Padre Anderson tem razão. Eu tenho sido áspero nas minhas observações e talvez injusto nas avaliações. Mas a nota publicada por mim, aqui na Tribuna, pareceu-me justa e não lhe era direcionada. Lamentei o fato de “Biomas”, o tema da Campanha da Fraternidade deste ano, tão rico e oportuno, ter sido ignorado e substituído por “dados estatísticos” de nossa diocese. Também fiz menção a uma “névoa”, intrigante e misteriosa, que encobre a reluzente figura do Papa Francisco cujas exortações não fazem eco por aqui.

Reafirmo, com pesar, minha crítica. A CNBB – graças a Deus, nós a temos – vem denunciando veementemente os desmandos da classe política perpetrados contra os trabalhadores.  Estes, os verdadeiros construtores da nação e que vivem exclusivamente de seu labor, assistem pasmados à supressão de seus direitos via reformas: trabalhista e previdenciária. Mas o brado da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil ainda não ressoou nos templos durante as celebrações a que assisto.

Nossos pastores deveriam ficar mais atentos ao balido de suas ovelhas, porque uma alcateia está à espreita... e já se aproxima!


FILIPE

sexta-feira, 14 de abril de 2017

DESÂNIMO



Desacorçoado. Assim me sinto perante a juventude, de quem Luiz Melodia disse ser ‘transviada’. Não sei se o poeta tinha razão, mas um desalento ameaça nosso futuro. Para onde descaminham essas massas?

Lido com jovens de classe média baixa desde “tempos imemoriais” e cada vez mais me surpreendo. Afora as exceções, das quais me nutro, muitos são tíbios nos estudos, lassos nos costumes, uns desapiedados.

Dia desses na sala de aula, ouvi algo apologético à pedofilia. O rapaz – que atraía para si a curiosidade e admiração de muitos colegas – ao ser repreendido, retrucou com júbilo: “Sou de menor, o que vão fazer comigo?...” “Mas você já responde por isso, pois tem quase dezoito anos!...” Tentou continuar, mas, na possibilidade de o caso ser levado adiante, aquietou-se.

Para muitos, as aulas são maçantes, desinteressantes, enfadonhas. Alguns pedagogos (demagogos) costumam responsabilizar os professores pela má gestão das aulas, resultando no insucesso da aprendizagem. Essa, porém, é outra questão que não quero abordar agora. Já estou suficientemente agastado e este texto não precisa de mais tempero.

No País, todos os anos gasta-se ao menos um bilhão de reais com merenda escolar e material didático. Mas carteiras são quebradas, livros amarfanhados, cadernos desfolhados; lápis, borrachas, réguas e canetas encontram-se aos borbotões, abandonados ou destruídos.  Na merenda, pratos de comida – com carne, que muitos nem têm em casa – são jogados no lixo. Ah, tem também as maçãs. Conheci maçã na infância, mas nas páginas de “Branca de Neve”; e na Bíblia, onde se conta a história de Eva, aquela glutona, que irritou o Criador, comendo maçã proibida e corrompendo Adão. Por culpa daqueles dois, fomos expulsos de uma “paradisíaca chácara”, e hoje somos obrigados a ralar para sobreviver. Que casalzinho trouxa! Mesmo embora associada à maldição, costumo comer maçã. De vez em quando, pego uma do chão, já mordida por um daqueles “pestinhas”, lavo, recorto a parte ferida e aproveito o restante.

As provas. Estas são elaboradas, impressas e aplicadas. O mano pega, não lê e devolve em branco. “Não vai fazer?”  “Ah, eu num sei, fi. Vô fazê uma coisa que num sei... Sai fora!” “Mas como não? Foi ensinado...” “ num ensina direito, fi... Suave!” “...” Numa dessas avaliações, propus algo assim: “Dona Maria foi à feira e comprou 5 peras (não escrevi maçãs, porque jogam fora!), a um real e sessenta centavos cada uma, trezentos gramas de alho, a 17 reais o quilo e pagou a compra com uma cédula de vinte reais. Determine o troco.” É conta que o ‘seu Zé da feira’, que não completou o primário, faz mentalmente e a todo instante. Mas o meu aluno do Ensino Médio, na escola há mais de dez anos, não conseguiu fazer!

Tem mais. Recentemente, num protesto contra o ‘temeroso’ e suas reformas, não havia meia dúzia de jovens. Além deste “ranzinza” que vos aporrinha e outros poucos, estava o Tokinho, o meu velho cãozinho, que não entendeu direito, mas gostou da passeata. Logo o Tokinho, que já nasceu aposentado, saiu de sua bacia e foi lutar pelos que desistiram da luta.

Jovens, acordai!


FILIPE

sexta-feira, 31 de março de 2017

CARNE FRACA

Não fui consultado sobre o que penso da ‘Operação Carne Fraca’ que abalou o País, mas estou dando meus palpites. De início, estranhei o nome “carne fraca”, que me fez lembrar o apóstolo Pedro num franco desabafo ao Mestre. Pedro tinha o ‘espírito forte’, mas admitiu ter a ‘carne fraca’. De minha parte, não sei se minha carne é forte o bastante para trabalhar até os sessenta e cinco anos como quer o “ogro do Planalto”, mas o meu espírito é bem fraquinho e tem passado por muitos perrengues ao longo desses anos.

Deixando de lado a “franqueza petrina” e voltando às mazelas verde-amarelas, parece que os policiais federais acharam carnes estragadas, e carne estragada não é carne fraca, mas podre. Se a operação não pôde ser batizada com o sugestivo nome de “Carne Podre” é porque algo ainda mais putrefato ocorrera com as autoridades.  

A mídia não destaca, mas está também em curso a ‘Operação Carne Fria’. Nesse trabalho, a PF investiga negócios entre pecuaristas de áreas ilegalmente desmatadas do Norte e os famosos frigoríficos. Naqueles descampados, o gado é criado clandestinamente e adquire ‘certificação fria’ para ser comercializado regularmente. Como os grandes proprietários de terra da região amazônica são também os donos do Congresso, a coisa não vai andar.

Não tenho muito a dizer sobre assuntos tão sisudos, como o comércio de carnes vencidas, mas imagino que na net podem ser encontradas informações bem detalhadas na forma de textos, tabelas, planilhas e que tais. Este espaço, porém, reserva-se à opinião deste blogueiro e de uns poucos leitores que aqui aportam. Quero, então, fazer um pequeno questionamento: o que o bicho, o verdadeiro dono da carne, acha de tudo isso? Ninguém foi entrevistá-lo, até porque o boi, o porco, o frango e seus semelhantes, sempre desconfiados dos humanos, não costumam dar entrevistas. Mas fico pensando: o que eles teriam a dizer?...

O ser humano, esse glutão, só quer saber de comer carne. E a carne tem de ser saborosa, barata e abundante, não importando os meios para se chegar a isso. Faz-se churrasco porque é fim de semana, o Flamengo ganhou, o Flamengo perdeu... Enfim, sempre há um bom motivo para um bom churrasco! O pior nem é a churrascada, mas o desperdício. Observe, devotado leitor, numa festinha, como se desperdiça carne!...

Neste breve ensaio, recuso-me a discorrer sobre o abate, algo ainda paleolítico, horripilante; também não quero falar sobre as “fábricas de carne”, onde o bicho vive seu inferno particular; o transporte então... E não vou comentar as condições subumanas dos operários nos frigoríficos. Apenas quero provocar uma reflexão: todo alimento é sagrado, porque vem de nosso trabalho; a carne, contudo, tem mais sacralidade, pois não é apenas resultado de um labor, mas fruto da dor do animal que foi abatido. Desperdiçar um pedaço de carne é dessacralizá-lo!

O Criador deve estar muito aborrecido com as atrocidades cometidas pelos humanos contra inocentes criaturas. Por isso, gostaria de viver o suficiente para ler uma bula, uma encíclica, uma pequena carta papal em defesa da vida animal. Para que se cumpra a exortação bíblica: “Feras e rebanhos, bendizei o Senhor!”


FILIPE

sexta-feira, 17 de março de 2017

UMA CORRESPONDÊNCIA

Meu querido irmão Filipe, paz e bem! 

Que bicho estranho eu sou, né? Você até se antecipou ao meu aniversário e eu, nada! 

Mano, muito lhe agradeço as palavras de sincero afeto por ocasião de meu natalício! A gente é humano e se alegra pela amizade e pelas expressões de carinho, sobretudo quando são expressões da alma! Estou muito feliz de chegar aos 44! (um pouco preocupado também, é verdade... Tô ficando velho e às vezes isso assusta! Coisas para integrar!) 

Mano, como de outras vezes, consegui passar uns dias, durante o meu níver, no Morro [um eremitério], lá em Guarapuava. Dessa vez foi bem diferente, pois fiquei sozinho. Na primeira noite, fiquei meio receoso (ansioso). Me chuchei cedo debaixo das cobertas – na verdade, o meu mantéu de frade. Não levei cobertor, pois achei que lá já teria, ou quem sabe..., é verão ainda e estaria mais quente. Passei um frio danado. Aos poucos, fui me acalmando e só não dormi melhor mesmo, devido ao frio. No segundo dia não pousei lá, mas no Convento, por causa de compromissos. Então voltei, levando um cobertor na guaiaca e aí pude dormir bem. Encontrei cobra escondida na latrina (jararaca), que ficou lá até o final, e duas baitas aranhas em noites diferentes. Mas isso não me assustou. Pude acender o fogãozinho, bem mais precário que esse aqui [do eremitério] de Ponta Grossa. Mas é algo tão singelo ver aquele fogo crepitando, a fumaça corcoveando, aquele arzinho de se estar em casa, mas ao mesmo tempo tão só. A natureza exuberante, muita chuva, muitos pássaros... E, sobretudo, estar a sós com Deus. Não ter pressa de rezar, não consultar muito o relógio, deixar o dia fluir entre pequenas leituras espirituais e atos de entrega, confiança, pedidos e louvor ao Criador, que nos envolve por dentro e por fora.
  
Tudo isso não é lá tão romântico assim. Às vezes vem o vazio, o tempo não passa. Então, é hora de alguma atividade física: buscar lenha, pedras para a construção, água na mina... Esquentar a água e tomar banho de cavalo (é isso?), usando-se uma pet. Deita-se cedo para combater o medo e também por estar sempre chuvoso. E acordar para o louvor, iniciando o dia com o rito de acender o irmão fogo. Depois, mais tarde, da capelinha próxima, de pedra, escutar a água já chiando na panela... Deus seja louvado! 

A tal da cobrinha deu trabalho. No penúltimo dia, à noite, um grupo apareceu por lá. Um deles era militar e eu pedi para dar um jeito de retirar a peçonhenta, pois poderia machucar alguém desprevenido. Ele se prontificou, arrumando um barbante e uma forquilha para imobilizá-la. Tudo pronto para a ação louca de arriscada, quando aparece um companheiro, descontado da ideia (muito gente boa, em geral) com um trago de pinga na cabeça e se atirou sobre a cobra, pegando-a à unha. Foi imediatamente picado e levado às pressas para o hospital (descer todo o morro a pé, pegar o carro lá embaixo, e por estrada de chão de uns 3 km, a procurar recurso). Salvou-se, mas amargou uns quatro dias de hospital... Quem sabe tenha aprendido, pois estragou a nossa noite! 

Mano, tô comprido hoje, né?! Fico por aqui. Estou bem, graças ao bom Deus. Sábado passado tivemos a ‘sopa na rua’: mais de trinta jovens juntos. Lembrei-me de você. Ah, a Indiasara, de Guarapuava, também mandou abraços, e o povo do Fernando!
  
Deixo-lhe um abraço muito carinhoso. Desculpe o “sumiço do tio Gerson” no paiol. Não sei se é o “espírito do Vô Aurélio”, que me faz cair na capoeira!... Mas estamos bem!
Saudações para a Rosana.
  

Seu Frei Gabriel