sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

A AULA INTERROMPIDA


Eu gostaria de escrever sobre algo pitoresco que acontece no meu jardim. No pé de mamona, que plantei recentemente e que já tem a altura da casa, um pombinho silvestre começou a fazer ninho, mas sua “esposa” não se animou com a gambiarra e ambos desistiram do projeto. Deixo para o final esse caso e vou cuidar de uma coisa chata, mas necessária.

Corria o mês de outubro. O Chile ardia conflagrado com multidões nas ruas. A polícia reprimia, atirava, matava. O povo não se intimidava e resistia. No Brasil sob chamas, ardiam as matas e seus guardiões. Em Brasília, as reformas avançavam sobre escassos direitos do povo, ficando este cada vez mais sem horizonte e sem lideranças – que foram presas, amordaçadas ou assassinadas.

Desacorçoado com o momento político que vivemos, entro na sala para mais uma aula. Nas mãos tenho um jornal, que deixo sobre a mesa. Pego um giz e vou à lousa. Paro, olho para os alunos, todos na faixa de 15 anos, e penso: “O que será desses jovens?...” E volto para mais uma lição de logaritmos, ou trigonometria, ou funções exponenciais, ou nada disso. Tudo ali perdia importância diante dos fatos recentes no país e no mundo, onde o fascismo avança tresloucadamente. Dirijo-me aos alunos.

“Olha, gente, o que acontece no Chile! Fiquem atentos, porque aqui no Brasil não será diferente. O Chile foi um grande laboratório para a equipe econômica desse governo. Por que os chilenos protestam, se a economia está indo bem e a inflação está sob controle? É porque isso não é suficiente se não há justa distribuição de renda. É como numa família, em que os pais trabalham muito, ganham dinheiro, enriquecem, mas deixam os filhos à míngua. Para que serve a riqueza de um país, se o povo é excluído? No Chile é assim. Os números socioeconômicos, se vistos de forma desatenta, são invejáveis. Mas 70% dos aposentados ganham menos de um salário mínimo, enquanto 1% da população detém 33% de toda a renda nacional. Se avançarmos mais para o topo da pirâmide social, encontramos 0,5% da população abocanhando 19,5% de toda a renda nacional.”

Empolgado com essa explanação, decidi avançar no campo ideológico, e disparei: ”Aprendam uma coisa: rico não gosta de pobre. Portanto, pobre que somos, não devemos votar em candidatos dos ricos. Nas eleições, deem uma olhada nas movimentações dos ricaços da cidade. Observem quem são seus candidatos e votem contra!” Nisso, uma aluna levantou a mão e disse: “(...)”. Não entendendo, tive a infelicidade de pedir que repetisse. “Fala... Qual a sua pergunta?” “A aula. O senhor se esqueceu da aula!”  “Ah, sim. Mas isso também é aula”, repliquei bastante desconcertado. “Aula de matemática, professor”, reafirmou. “Mas aqui tem matemática também”, tentei consertar e continuei: “Desculpe-me. Vamos retomar a aula. Onde é que paramos mesmo?...”

Encerrado o assunto acima, prefiro falar da natureza: das árvores e de seus pássaros –  enquanto existirem. Quanto ao ninho abandonado na minha mamoneira, seu projeto foi retomado e em breve estará pronto. Agora, por um sabiá.

FILIPE

sexta-feira, 22 de novembro de 2019

O SONO INTERROMPIDO


A viagem foi tranquila apesar do cansaço que se intensifica com o avançar da idade. Chegando, no meio de um dia nublado e quente, encontrei papai feliz pela visita deste filho. Mamãe, como sempre, fica alegre com a presença de seus inúmeros filhos, mas parece um pouco atrapalhada com a movimentação de tantas chegadas e despedidas.

Desde que mamãe se acidentou e ficou internada por uma semana, muita coisa mudou em sua vida. Seu pequeno “latifúndio” – antes composto de algumas cômodas além da cama e de uma varandinha onde tomava sol todas as manhãs – foi reduzido a um leito hospitalar. Nele mamãe espera pelas refeições, recebe visitas e os cuidados de sua filha mais velha, a quem ouso nominar carinhosamente de “Mana Véia”.

Durante dois dias pude presenciar o labor dessa irmã, que, de vez em quando, é auxiliada por uma filha ou por nossa irmã caçula. Mas é a ‘Mana Véia’ quem fica “vinte e quatro horas” à disposição de nossos pais. Observando a maneira tão singular com que essa irmã lida com nossa mãe, veio-me à memória uns fragmentos muito antigos. Num passado distante, devido à enfermidade de nossa mãe, ela cuidou dos irmãozinhos; depois, com a mesma dedicação e competência, criou seus filhos; agora, esmera-se nos cuidados de nossos velhinhos: papai fez 89, e mamãe, enferma, tem 80.

Na primeira noite de minha visita, fomos dormir cedo: eu, por cansaço da viagem; meu pai, por costume e sabedoria. Tanto que um de seus lemas é: “A noite foi feita para a gente dormir!” E por isso, quero abrir um parêntese.

Certa vez, estando eu na companhia de dois irmãos, engatamos um bate-papo que se estendeu noite adentro. Lá pelas tantas, meu pai acendeu a luz e veio ao nosso quarto, dizendo: “Vocês não dormem?... Quem não dorme morre cedo. Meu tio (...) morreu com 56 anos porque vivia nos bailes. Eu já tenho quase noventa e estou aqui!” Desabafou e voltou para cama, talvez com o propósito de esticar ainda mais os seus dias. Meu irmão, zombeteiramente, me disse: “Cinquenta e seis?! O tio de meu pai morreu com a sua idade... toma cuidado!”

Voltando. Então, nessa primeira noite em que dormi cedo, acordei antes das quatro da manhã e já sem sono. Papai, que também estava acordado mandando e recebendo mensagens pelo celular, resolveu telefonar para a Mana, chamando-a com urgência. A Mana mora no terreiro de casa, mas a modernidade exige que tudo seja resolvido por telefone. E meu pai ficou moderno. Perguntei ao pai o que aconteceu. “A sua mãe está atravessada na cama e é preciso ajeitá-la”. “Não precisa chamar a Mana, pai. Eu mesmo arrumo”. Ele decidiu que deveria ser a Mana e foi enfático. Eu quis insistir, mas recuei e esperei pela irmã, que chegou um minuto depois.  A Mana, toda sonolenta, viu minha mãe tentando sair do “berço”, mas não se assustou com isso. O que a assustou de verdade, e que me fez correr ao quarto, foi outra coisa. Um escorpião embaixo da cama de meu pai. Eu, que tenho pavor de aracnídeos, tive que agir e não poderia errar. Se o bicho escapasse, como encontrá-lo depois?... Vi meu pai assustado e a irmã terrificada. A minha mãe, sem saber dos riscos, queria apenas descer do “berço” e dar uma voltinha. Dei uma chinelada... e papai deu um pulo. Pensei: “Errei”. Mas não.

Por fim, entendi por que minha irmã teria que estar ali àquelas horas. Papai tinha razão.

FILIPE

sexta-feira, 8 de novembro de 2019

O AMIGO SILENCIOSO


Hoje o Cido me pareceu tristonho. Quando chego à sua casa, sempre ao anoitecer das sextas-feiras, bato à porta e um pequeno sino fazendo as vezes de campainha anuncia minha presença. Então dona Maria, sua esposa, deixa os afazeres na cozinha e vem apressadamente abrir a porta. Do sofá, o amigo esboça um tímido sorriso enquanto uma mão trêmula procura o controle-remoto para desligar a TV. Mas hoje a TV continuou ligada enquanto ele permanecia cabisbaixo, quase indiferente a mim. Dona Maria pediu que ele desligasse a televisão, mas eu pedi que a deixasse ligada.

Uma matéria num canal que desconheço me chamou a atenção. Na tela, um repórter vai a um bairro da periferia do Rio de Janeiro, numa encosta sob risco de desmoronamento, e entra no barraco de um senhor idoso e doente. As paredes de lata, o vaso sanitário dividindo espaço com o fogão, roupas penduradas. Um colchão sob o chão úmido de terra batida, um armário com a porta despencando e uma televisão antiga, daquelas “bundudas”, eram seus únicos bens. E nada mais havia ali além de umas caixas de papelão entulhadas de roupas – talvez por lavar. Dona Maria fixou os olhos na TV durante a reportagem e, ao final, exclamou: “É... A gente às vezes reclama da vida, mas, se olhar bem, vê que tem gente vivendo muito pior, não e mesmo?...”  

A vida daquele casal sempre foi dura. Ele nasceu lá pelos lados de Minas Gerais, mas em solo paulista. Ela me parece que é mineira de Ubá, mas foi criada no norte do Paraná. Eles se conheceram nesta cidade, aqui se casaram e trabalharam por muito tempo em fazendas da região até que, vinte e cinco anos atrás, o Cido sofreu um grave acidente. Com afundamento do crânio, teve que fazer várias cirurgias e ficou meses em coma. Recuperou-se parcialmente, mas ficou “tetra”, precisando de cuidados muito especiais. Com os filhos morando distante e sem poder pagar uma cuidadora, dona Maria é quem lhe faz de tudo. Ultimamente, porém, ela também apresenta problemas de saúde e já tem dificuldade de cuidar do marido sozinha.

Foi então que eu soube por que o meu amigo estava aflito. Enquanto eu conversava com a dona Maria sobre isso e outros assuntos mais prosaicos como: “Está chovendo, graças a Deus. Que bom. Agora deve dar uma esfriada, né?...”, o Cido acenava para nós, como sempre faz: a mão esquerda levemente espalmada (a outra não tem movimento) apontava na minha direção e, ao mesmo tempo, olhava para esposa, pedindo-lhe que o traduzisse. Olhei para ela e nem foi preciso perguntar. “Ele está falando que vamos mudar daqui.” “Vocês vão mudar?! Quando?...” “Amanhã!” “Para onde?” “Vamos lá pro São Dimas! Vou morar perto da minha filha pra ela poder visitar o pai mais vezes. Aqui é muito longe e ela quase não vem.” “Que pena... Não vou poder visitar mais vocês.” Ao ouvir isso, o meu amigo começou a chorar. Mas remendei a tempo o estrago e disse: “Não vou poder visitar todas as semanas! Mas pode deixar, seu Cido, que vou continuar vendo você, tá bom?”. Ele sorriu.

FILIPE

sexta-feira, 25 de outubro de 2019

CADÊ A ENXADA?


Bom, não sei se isso é um título que se preze, mas a crônica que se segue também não deverá ser prezada por alguém. E nem por isso o título deixa de ter razão para estar lá em cima.

Visito com relativa frequência uma casa de idosos. Ao me aproximar de cada um, começava sempre com platitudes do tipo: “tá frio”, “tá calor”, “será que vai chover?” “cadê a chuva?” etc. Então decidi inovar, sobretudo com os homens, cuja maioria tem aspecto de gente da roça. Mudei a forma de abordagem para “Cadê a enxada?...”

Até que estava dando certo. O seu Antônio respondeu: “Ih, rapaz, eu não trabalhei na roça, mas meu serviço era ainda mais pesado. Trabalhei numa olaria por mais de trinta anos”.

Trabalhar em olaria, fazer tijolos... Isso não é pra qualquer um. Quando jovem, trabalhei por um ou dois dias na olaria de um tio, e até hoje estou cansado. Aquele tio consumiu a vida nesse árduo trabalho, e se cozinhou juntos às inúmeras caieiras de tijolos por ele queimadas. O fogo era aceso à noite e ele varava madrugadas pondo lenha e calafetando com barro as paredes para que o calor ficasse retido. De muito longe, na mais espessa escuridão, podia-se ver aquele brasido, que era um colosso de tijolos incandescentes. E o hálito ardente daquela fornalha impedia que curiosos se aproximassem impunemente.

Mas, naquele asilo, há quem de fato tenha trabalhado na roça. Um diz: “Vixe, quero saber mais de enxada não, moço!” Outro: “Até que se eles deixassem, eu queria uma enxada para capinar um pouco. Sabe, eu gosto e aqui tem bastante espaço. Eu queria plantar milho, mas acho que não pode, né?...” Ainda outro: “Ih, moço, já trabalhei muito nessa vida. Capinei, sim, mas não só. Até caminhão já dirigi. Mas essa danada da enxada judia da gente!” Um deles não disse que capinou, mas vem com esta: “Não quero, não. A enxada matou meu pai!” Peço a ele que explique, mas não explica nada e repete como um mantra: “A enxada matou meu pai.”

Em outros tempos, o seu Zé, que já partiu, era assim provocado por um funcionário: “Seu Zé, eu comprei uma enxada novinha. Então amanhã você já pode começar a capinar”. Mas o seu Zé ficava uma fera. Dentre impublicáveis impropérios, resmungava: “Eu não vou capinar. Nunca capinei, não sei capinar e ninguém vai me obrigar a capinar.”

Da última vez em que estive no asilo, vi um novato. Era um caboclo já meio roído, mas não tão velho e estava bem vestido. Pensei: “Com este nunca falei, mas vou provocá-lo”. Aproximei-me devagar e disparei: “Olá, tudo bem?” Ele me olhou meio desconfiado e não disse palavra. Mas eu precisava completar o serviço e emendei: “Cadê a enxada?” Dessa vez a coisa não funcionou. “Tá achando que eu sou algum filha da puta?!” “Mas por quê?...”, repliquei. “Eu sou escrivão, sei escrever e nunca tive que usar enxada!” Eu, muito sem graça, respondi: “Ah, então eu sou esse ‘filha da puta’? Porque sempre usei enxada, sou um capinador.”

FILIPE

sexta-feira, 11 de outubro de 2019

FINITUDE


Ultimamente, tenho pensado bastante na tal da “indesejada das gentes”. Manuel Bandeira tem um belo poema sob o título de “Consoada”, no qual ele assim se refere à morte, que também recebe o epíteto de “iniludível”.  Tenho lembrado de pessoas que partiram há muitos anos, especialmente do meu avô Sebastião.

Vovô era um homem trabalhador. Embora analfabeto, tinha orgulho de saber escrever as iniciais de seu nome: ‘SLL’ (Sebastião Lopes de Lima), que costumava gravar com formão no cocho das porteiras que ajudava meu pai a fazer. Certa vez, ele levantou a barra da calça e me mostrou umas varizes – as veias formavam a letra ‘S’ – e me disse orgulhoso: “Aqui está a letra do meu nome!”

Vovô Sebastião cuidava de uma boa porção de terras, uma verdadeira fazendinha. Levantava bem cedo, pegava uma guiada e começava a chamar suas vaquinhas para a ordenha. Com sua inconfundível voz metalizada, ele nomeava uma a uma. Tinha várias, mas lembro do nome de apenas duas:  Açucena e Cocada. Lembro também de alguns bois carreiros: Roxinho e Ouro Fino eram “bois de coice”, aqueles que sustentam o cabeçalho do carro;  as juntas Senado e Escovado, e Tesouro e Sete Ouro eram de “bois de guia”, aqueles que ficam à frente, obedecendo o candeeiro ou tentando passar-lhe os chifres. Da “junta torneira”, que fica no meio, entre os “coiceiros” e a “guia”, eu não lembro os nomes, porque eram os ‘novatos’, que estavam em treinamento. Mais tarde, dando certo, seriam “promovidos” para o “coice” ou para a “guia”. Na sua última aquisição, vovô comprou uma junta bastante desigual: o bonachão Mascote, um boi holandês que curtia a solidão dos brejos, e o endiabrado Coração, um boi preto com um coração branco tatuado na testa, que quase matou meu pai com um coice, quebrando-lhe umas três costelas. Esse danado tentou me acertar diversas vezes. Atravessando um rio, quase passou por cima de mim com o carro e tudo. Consegui me safar a nado, jogando-me na correnteza.

A fazendinha de meu avô era muito bem organizada. Tinha um terreiro cheio de galinhas, vários porcos de engorda, canavial e cafezal. Tinha também um simpático pomarzinho que me oferecia furtivamente deliciosas laranjas e bananas-maçãs. Ah, tinha o Queimado, um cavalo de sela e charrete, que era meu objeto de aventura. Quando ia ao pasto pegá-lo para meu avô, eu aproveitava para dar uns bons galopes. Mas o bicho era manhoso...  Às vezes, estava lá paradinho, pensando na vida, mas quando me via chegando, já dava uma abanada de cabeça e começava a sair de fininho. E não adiantava eu apressar o passo, porque ele sabia que eu não o alcançaria. Eu teria que negociar com ele, conversar mesmo, até que cedesse e resolvesse aceitar o cabresto. Depois disso, era só bamboleio! Encostava o   ‘corcel’ num barranco e, nem bem me ajeitava no seu lombo, ele já saia em disparada.

O sonho de meu avô era instalar confortavelmente a minha avó em sua casa na “rua”, conforme se diz na nossa terra sobre aqueles que moram na cidade. Ele tinha uma casa velha onde passavam fins de semana, mas comprou outra casa. Esta, uma das mais antigas da cidade, foi reformada mantendo-se quase intacta sua arrojada arquitetura. Certo dia, já na casa nova, vovô disse à minha avó: “Luzia, se eu morrer amanhã, não deixarei nenhuma dívida para você. Hoje paguei o resto que estava devendo.” Na manhã seguinte, dia em que eu completava doze anos, vovô partiu. Aos setenta.

FILIPE

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

NOTÍCIAS ESCOLARES


Ao som de “Música Antiga”, um belíssimo programa produzido pela Rádio MEC que o ‘coiso’ pretende fechar, deixo o jornal e começo a dedilhar o teclado do notebook em busca de algo para a postagem de hoje. Na Folha de S. Paulo, uma matéria sob um bem-sucedido programa de alfabetização de adultos me chamou a atenção. Há 45 anos o Colégio Santa Cruz, um dos mais tradicionais do país, oferece gratuitamente aulas, transporte e lanches a um público carente e cada vez mais crescente. Por outro lado, nas escolas oficiais, que são mantidas pelo Estado, o antigo supletivo está deixando de existir por falta de alunos.

Noutro recorte de jornal, este do início da semana, uma notícia trágica: “Professor é esfaqueado por aluno dentro de escola na Grande São Paulo”. Lendo a matéria, soube que o professor dá aulas de geografia, tem 55 anos e estaria em estado grave num hospital da região. O algoz é um rapaz de 14 anos, seu aluno. Segundo a reportagem, o professor é querido, apesar de rígido; o agressor, por sua vez, é tido por estudioso, bem-comportado, um “bom moço”! Fiquei sem entender como um jovem “tão bom” pudesse ser assim tão covarde, tão atroz. Ah, o agressor feriu-se também, talvez querendo ‘empatar o jogo’, mas sem gravidade. Parece que a fúria maior seria contra o professor, porque ele apenas se arranhou com a lâmina.

Eu me vi “na pele” daquele professor. Um homem já esfolado pela vida e pelos anos, tentando realizar um trabalho cada vez mais penoso. A maioria de nossos jovens não se interessa por leitura nem pela escrita, nem por nada que não seja troca de mensagens nas redes sociais ou joguinhos eletrônicos. Mas há coisas muito tenebrosas nessas mídias que ocupam mente e espírito juvenis, e muito mais nocivas do que os inocentes jogos. Melhor não saber.

No Brasil, onde 11 milhões de pessoas com idade de 15 anos ou mais não conseguem ler sequer um bilhete simples, segundo reportagem da Folha, professores são ameaçados, agredidos e até esfaqueados pelos seus próprios alunos. Muito triste!

Acabou o programa da Rádio MEC e acho que a Rádio MEC também acabou. Sem “Música Antiga”, perdi a inspiração e encerro o texto por aqui. Sorte do eventual leitor, porque eu estaria disposto a destilar um balde fel nas linhas seguintes. Eu seria lamurioso, chato, muito além do habitual. Então vou nos poupando dessa neura.

FILIPE

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

OS FRANCISCANOS ESTÃO DE PARTIDA


Publicado na “Tribuna de Amparo”, edição de hoje.

Dia desses, enquanto aguardava na fila de um supermercado, fui despertado da leitura do jornal pelo seguinte diálogo: “Sabia que vão trocar os santos da igreja São Benedito?”, dizia uma senhora à sua amiga, tentando impressioná-la. “Vão, mas não só, porque a igreja nem vai continuar sendo São Benedito. Vão mudar até o nome da paróquia também”, exagerou a outra. “O quê?! Não são apenas os freis?... Se até os santos vão embora, eu também saio de lá”, interveio uma terceira.

Exageros à parte, há dias ouço rumores de que os frades franciscanos estariam deixando a Diocese de Amparo, mas nunca dei crédito a tais notícias, que mais me pareciam boatos. Mas agora parece sério.

Os franciscanos instalaram-se aqui em 1911, há mais de um século, e nestas terras fundaram convento, formaram comunidades, edificaram capelas, evangelizaram e encantaram o povo com sua abnegação e despojamento. Não me parecia crível, porém, que eles nos deixassem justamente neste momento tão difícil, quando os ânimos andam tão acirrados fora e até mesmo dentro da Igreja.

Frei Vanilton e seus dois companheiros, que ora conduzem a Paróquia são Benedito, são formidáveis. Suas homilias são encantatórias porque sucintas e contextualizadas, e as celebrações não cansam a assembleia. Também não se vê nessa tríade nenhum traço de vaidade clerical, algo bastante encontradiço noutras paragens, infelizmente. A sintonia com o bispo diocesano e com o Papa Francisco é outro atributo desses bravos religiosos.

Mas já há certeza. Os nossos freis vão mesmo nos deixar e será em breve. Porque eles hão de singrar outros mares e suas redes deverão ser lançadas em águas ainda mais profundas.

Ah, quão alvissareira seria uma réplica a este artigo sob o título: “Os franciscanos não estão de partida!”  Não custa sonhar.

FILIPE