sábado, 4 de junho de 2022

FILHOS REVERENTES

 

Eu estava numa rodoviária quando uma conversa me chamou a atenção. Na fileira de bancos atrás da que eu me encontrava, uma senhora falava com o filho numa chamada de vídeo. Soube que é ‘chamada de vídeo’ por que, curioso, espichei os olhos para trás e vi, em tela cheia, um rapaz de cabelo raspado nas laterais e barba por fazer. A conversa era mais ou menos esta: “Filho, não fale assim comigo. Sou sua mãe!” “Tô falando besteira?... Não tô. Tô falando na moral e você vem com esse mi-mi-mi.” A conversa continuava cada vez mais áspera. A mulher falava baixo, tentando ser discreta, mas o rapaz gritava, e ela parecia não saber usar o botão do aparelho para controlar o volume. Por último, quando ela se levantou para pegar o ônibus, que acabava de chegar, ainda pude ouvir: “Vocês, meus filhos, me tratam como se eu fosse sua irmã. Acho que nem irmã, mas uma qualquer. Nunca me ouvem com atenção e sempre me dão bronca. Eu não sou criança e estou cansada de levar zanga de filhos. Nunca falei assim com minha falecida mãe, que Deus a tenha, e nem com meu pai, a quem trato com todo carinho.”

A cena com aquela sofrida senhora me fez pensar no momento que minha família vive. Lembrei de meus irmãos, que sempre trataram os pais com profundo respeito. É claro que o ‘respeito’ é um sentimento que se adquire na maturidade. Inicialmente, a criança obedece por hábito ou por medo. No nosso caso, tínhamos medo da cinta, do chinelo, do cabo de vassoura. Isso porque papai, quando necessário, usava o cinto; a mamãe usava o que tinha à mão. O respeito veio depois, na pós-infância. Finda a mocidade, e já beirando a velhice, aquele medo –  que se transmudara em respeito, depois admiração – tornou-se agora reverência.

Sobre nossa relação com o pai, ocorreu um episódio que se tornou um célebre ‘causo de família’. Antes, preciso dizer que lá em casa não fincávamos um prego na parede sem que meu pai permitisse. Digo ‘fincar prego’ porque na minha infância martelar prego na parede era um sonho de consumo de raro prazer. Com um prego e um martelo nas mãos, eu era um garoto feliz e poderoso, e as paredes tremiam à minha volta.  Contudo, o fato narrado abaixo não tem nada a ver com prego na parede. A ele.

Papai mantinha uma fruteira no canto da cozinha, que impedia abrir uma das portas do armário. Um irmão de ‘mente brilhante’ teve a luminosa ideia de mudar a fruteira de lugar e contou com o apoio de outro irmão. Os dois ‘gênios’ fizeram a arrumação sem que papai tomasse conhecimento. Quando o Velho viu aquilo, ficou uma fera. “Não quero que tire nada do lugar onde eu pus. Se quiser fazer mudança, faça na casa de vocês. Aqui não!” Dito isso, imediatamente a fruteira voltou para o lugar de origem e lá está sem que alguém ouse ‘incomodá-la’.

Bom, em casa nós somos onze irmãos, e embora possa haver alguns “fios desencapados” na relação, vivemos harmoniosamente – o que muito alegrou meu pai, que era o cimento que nos unia. Papai partiu e mamãe, com toda sua fragilidade, passou a ser o centro agregador da família. Mas um detalhe muito importante nessa nossa relação é a ‘devoção’ que temos pela irmã mais velha. Todos, do caçula ao primogênito, nunca fomos deselegantes para com essa irmã a quem consideramos uma segunda mãe.   Essa moça, que carinhosamente chamamos de Mana-Véia, conta com o nosso carinho e a ela todos somos reverentes.

FILIPE

sábado, 21 de maio de 2022

RELEMBRANÇAS

 

Retornei à casa de meus pais, mas dessa vez não encontrei o Velho à porta da sala, na varanda de casa – a recorrente imagem num canto de minha memória, em registro da última vez que estive aqui. Todavia, encontrei mamãe, que, desde a despedida de papai, está falante e interativa, e não se sabe por quê.

Dias depois de minha chegada, numa manhã fria e ensolarada, repeti o último trajeto que fiz com papai numa ida à cidade. Caminhei até a estrada e esperei a van, que chegou dez minutos depois. Entrei e dei uma nota de dez ao motorista. Ele me devolveu três reais de troco, certamente lembrando da última vez quando papai pagou as duas passagens com uma nota de vinte e recebeu, como troco, três notas de dois. Caminhei até o fundo e me sentei sob olhares curiosos e alguns cochichos [esse aí é filho do Zelope...].

Abri o livro que levava comigo, mas não consegui me concentrar na leitura. Passados poucos minutos e depois de muitos solavancos, já estava eu desembarcando na praça da cidade.

Como da outra vez com meu pai, entrei na igreja para uma breve visita aos santos e rumei para o bairro da Taboa. Percorri a longa rua, um pouco íngreme e sinuosa, que faz ligação do centro com o bairro – a rua que papai, num passado distante, tantas vezes palmilhou descalço para visitar sua mãe. Observei aquelas casas – muitas só antigas, enquanto outras antigas e velhas – cujas muitas histórias meu pai, caminhando comigo, ia contando. Terminado o percurso da rua principal, entrei à direita e peguei a denominada ‘rua de baixo’. Findo mais esse percurso, cheguei a uma antiga edificação, agora em ruínas. Paro e me perco nuns devaneios. É uma antiga casa de venda com pé-direito alto, uns quatro metros talvez. Contei nove portas para a rua, todas de duas bandeiras. Quis contar as janelas – uma dezena talvez – mas desisti de conferir, pois me perdi nas portas e não quis recontar as janelas. Uma janela estava destruída e por ela pude contemplar o interior da casa. As paredes intactas de um azul profundo, estonteante. Mas o telhado já quase não havia, e uma trepadeira revezava suas folhas com algumas telhas. Fiquei por um momento ali, parado, imaginando o quanto de vida já pulsou sob aquele teto. Quantas crianças correram e tropeçaram nos corredores, talvez brincando de esconde-esconde. Daquela casa, apenas sei que pertenceu a um primo distante de meu pai e que era fabricante de carros de boi.

Dou mais uns poucos passos e entro na casa de minha tia, uma ‘’senhorita’’ de poucas palavras e muitos gatos, que encontro na varanda da cozinha, tomando sol após o café da manhã. Insisto um pouco e ela aceita fazer uma breve caminhada. Com alguma dificuldade, a tia ainda anda. Subimos a rua e cruzamos com uma senhorinha de bengala. ‘’Ô diacho... Aquela ali tá bem perrengue!...’’, a tia disse e eu concordei. Papai teria dado boas risadas.

FILIPE

sexta-feira, 6 de maio de 2022

CONVERSA COM A PITUKA

 

Estou aqui, sofrendo para atualizar o blog. Na minha companhia está a Pituka, que parece curiosa para saber o que escrevo. Viro para ela e falo que a “coisa tá preta”. Ela me olha desconfiada de que a coisa não esteja tão preta assim. Afinal não lhe falta água, ração nem carinho – e tudo isso ela tem de montão.

Não, Pituka. Você não sabe de nada. As coisas estão muito ruins, sim. Temos um sicário na Presidência, que quer dar o golpe e interromper nossa frágil democracia; muitos de nossos parlamentares são venais; alguns procuradores, não poucos, são tíbios; e os magistrados, uma boa parte deles, são ineptos.

A Pituka levantou-se, deu uma volta em torno de si, deitou novamente e bocejou.

Ah, entendi. Você até concorda que as coisas não estão bem, né Pituka?... Você sabe quem é o presidente, mas não sabe o que é ‘sicário’. Eu explico. O dicionário dá como sinônimo de sicário: assassino contratado, pistoleiro, malfeitor. Agora que a Pituka já sabe o que é sicário, acho que ela quer saber mais.

Você, Pituka, sabe que temos parlamentares, mas por que são ‘venais’? Bom, o dicionário dá como significado de ‘indivíduo venal’ aquele que se deixa subornar, quem é corrupto ou que se vende.

A Pituka, pelo jeito, continua sem entender. Eu disse que nossos procuradores são tíbios. Mas o que é ‘tíbio’? De volta ao dicionário. Ser tíbio é a mesma coisa do que ser fraco, morno, sem entusiasmo ou indolente. Mas a Pituka quer saber ainda mais. Eu disse que há juízes ineptos. Por que inepto? Bom, um indivíduo ‘inepto’ é aquele de quem se diz ser pouco inteligente, ingênuo ou estúpido.

A cadelinha achou o assunto muito chato e saiu antes de eu terminar a explicação.

Continuo, agora sem a Pituka e com um monte de dúvidas. O que será de nosso país?... Neste ano teremos ou não teremos eleições?... Havendo eleições, quem ganhar assume ou não assume?... As forças armadas (com minúsculas aqui) garantirão o funcionamento das instituições democráticas ou elas já foram cooptadas?...

Ultimamente, tenho estudado bastante História do Brasil, mais particularmente a Primeira República, que começa com Deodoro da Fonseca, em 1889, e termina com a chegada de Getúlio Vargas, em 1930. Naquele período, os ataques à democracia começavam sempre com decretação de “Estado de Sítio”, quando as garantias constitucionais são suspensas e a polícia age de forma desenfreada. E é exatamente isso que prevejo para nós em outubro. O “Inominado”, percebendo que o segundo turno lhe será desfavorável, decretará, não ‘Estado de Sítio’, mas ‘Estado de Exceção’, que é ainda mais traumático. Para tanto, ele contará com uma horda de fanáticos além de militares, parlamentares e milicianos.

É, eu estou bastante incomodado com tudo isso, mas a Pituka não está nem um pouquinho preocupada.

FILIPE


sexta-feira, 22 de abril de 2022

A DESPEDIDA DE PAPAI

 


“Meu pai estava muito doente, deitado numa cama, e me chamou para pedir água. Eu trouxe o copo e ele se ajeitou, sentando-se apoiado à cabeceira, e bebeu todo aquele copo d’água.”

A imaginária cena acima, que me era recorrente desde há muitos anos, foi quase uma antevisão da derradeira vez em que estive com meu pai. Nesse nosso último encontro, aquela cena veio real, e com tintas surrealmente fortes. Papai estava no leito de uma UTI com cateter de oxigênio, monitores cardíacos e outros apetrechos. Naquele momento doloroso eu estava amparado pela companhia de um irmão, o Freizinho. Estávamos para viajar naquela noite e passamos no hospital para despedir de nosso bom velho – uma cortesia da equipe gestora da UTI, que nos permitiu entrar fora do horário de visitas.

Entramos e percebemos que o quadro de nosso pai se agravara consideravelmente. Fizemos uma oração acompanhada por ele em silêncio e de mãos postas. Falamos sobre a mamãe, dizendo que ela, já de alta daquele mesmo hospital, encontrava-se muito bem. Papai, emocionado e num gesto de agradecimento a Deus, fechou os olhos e ergueu as mãos em prece.

No pouco tempo que permanecemos ali, uma imensidão de sentimentos me aconteceu. Foram dez minutos apenas, mas de tão ternos que me são eternos. Falávamos sobre assuntos prosaicos numa vã tentativa de amenizar o drama quando, num certo momento, sem conseguir dizer o que desejava, papai apontou para uma mesinha móvel um pouco afastada. Trouxemos a mesinha para perto e ele apontou para o copo sobre ela. Peguei o copo, que tinha um fundo de água e um canudinho, e tentei dar a ele. Permanecendo deitado, papai afastou brevemente a máscara de oxigênio e tentou beber. O canudinho não colaborava, mas, ainda assim, consegui fazer com que ele tomasse uns dois ou três goles. Depois, com um aceno e tentando sussurrar umas palavras de agradecimento, meu pai dispensou a água e reposicionou a máscara. Naquele momento, cumpria-se aquela minha antiga “profecia”. Gelei.

Despedimo-nos e pedimos a bênção, que nos foi dada com um longo aperto de mão. Dissemos que estávamos indo para a rodoviária e que viajaríamos logo em seguida. Com muito esforço, papai conseguiu dizer uma frase – a última que dele pude ouvir: “Ninguém está longe, porque estamos todos nas mãos de Deus!”

O resto é história conhecida. As crises respiratórias atribuídas à suposta ansiedade; a incessante busca por socorro médico; os chás; as muitas preces; o diagnóstico de enfisema. Depois a internação: papai passando por uma capela do hospital e fazendo ali sua última prece diante do Santíssimo; a caminhada por longos corredores; a subida por intermináveis rampas; o último encontro com a esposa (ela também internada ali); as últimas palavras à amada [“Juracy, agora vou ficar aqui também, pertinho de você, viu?...”]; as paradas para descansar e acertar a respiração cada vez mais difícil; a chegada ao seu quarto no terceiro pavimento; o repouso no leito da enfermaria; uma dispneia respiratória; a descida para a UTI; o fim na UTI.

No dia 13 de abril, três dias depois daquele nosso último encontro, papai estava sendo velado. Aquele homem, que eu supunha imortal e com quem sempre pude contar nas horas mais atribuladas, estava agora inerte, com as mãos sobre o peito, entrelaçadas e frias, e os olhos para sempre cerrados. No entanto, a indefinível expressão de serenidade de meu pai atestava seu dever heroicamente cumprido ao término de uma longa jornada.

FILIPE


JAMAIS ESQUECEREI

É manhã de sexta-feira e acabo de falar ao telefone com meu pai. “Estou muito agradecido a você por ter me internado, ele disse”, e continuou: “Desde a hora em que cheguei aqui, não tive nenhuma crise, nem tosse... nada! Estou muito bem.” 

Essa passagem me evoca uma memória bem antiga. Volto-me à longínqua década de 1960, quando, há 54 anos, era papai quem me internava nesse hospital. Eu era um garoto que tinha seis anos, febre alta e um montão de bichos-de-pé. Tinha também mão inchada, pés putrefatos e um corpo vergado de dor. 

Lembro perfeitamente do dia em que meu avô Sebastião veio a minha casa e me viu doente. Vovô decidiu pela minha internação, pegando-me e me levando ‘na cacunda’ até a estrada, onde esperamos a ambulância que me levaria a Visconde do Rio Branco. Papai me acompanhou até o São João Batista, onde fui internado – o mesmo hospital em que se encontra meu pai. Meu pai, não. Meus pais. Porque mamãe também está “hospedada” lá. Ele no 301 e ela no 202. 

Surpreso com a recuperação de minha mãe, o médico disse poeticamente: “Ela chegou uma ‘folha de papel’ e já está uma ‘flor de lótus’!” 

Nunca me esquecerei dos momentos dolorosamente vividos na internação de minha mãe. Aquele corpo gordinho (e frágil) balançando sobre a maca que deslocava ruidosa e trepidamente pelos corredores e rampas, indo de um pavimento a outro; o procedimento com cateter; os muitos ‘ais’ até que uma veia fosse encontrada; as mãos atadas. 

Também nunca me esquecerei do dia de ontem, quando levei meu pai para sua primeira internação – aos 91. De quando o conduzi pelo braço, do carro até o prédio; a entrada para a sala de espera da consulta; depois a consulta; em seguida, a ‘longa caminhada’ até a secretaria para assinar a ficha de internação; a ‘longa subida’ ao segundo pavimento; o emocionante encontro com mamãe ali internada; outra caminhada ao terceiro pavimento; mais uma pausa para descansar; e, finalmente, a chegada ao 301. Meu pai entrou e sentou ofegante numa poltrona. Inclinado e com as mãos entrelaçadas, parecia refletir sobre a situação. Por fim, ergueu-se e se acomodou em seu leito. 

Vendo meu velho ali, lembrei-me de quando ele me trouxe para esse mesmo hospital.  Eu não queria ficar, mas papai me abençoou, despediu e foi embora triste. Eu fiquei em lágrimas. Dessa vez, papai me abençoou, mas foi ele quem ficou. Eu vim embora triste, mas sem lagrimas.

(PS.: Publicada no "feldades" em 02/04/2022)


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sábado, 19 de março de 2022

LEVANDO BRONCA

 

Pensava eu que os avançados anos me livrariam das recorrentes broncas recebidas ao longo da infância, juventude e até da maturidade, mas não. Semana passada fui repreendido por um sujeito, que parecia não ter razão. Ao serviço. 

De vez em quando preciso dar uma tesourada na ‘’espessa cabeleira’’ de um pé de acerola que sombreia todo o quintal e costuma invadir o telhado vizinho. O arbusto já se tornou uma respeitável árvore e nele abriga um sem-número de pássaros dentre os quais, pardais, bem-te-vis, rolinhas etc. Subo numa escada apoiada em sua ramagem e vou aparando as pontas com um alicate de poda. Preciso ser cauteloso porque a escada pode falsear, provocando minha queda, e há entre as folhagens algumas rolinhas aninhadas, às quais não posso causar danos.  

Cortada toda a galhada, com uma corda de varal amarro um grande feixe e levo para um local distante, à beira do rio. Sempre fiz esse serviço aos domingos, quando o trânsito é calmo, quase inexistente. Dessa vez, porém, decidi trabalhar no meio da semana. Amarrei um feixe, pus às costas e me dirigi à margem do rio, caminhando ao longo de uma rua e tendo que cruzar uma avenida. 

Levei o primeiro feixe de forma muito sofrida, mas com êxito. O segundo feixe também. Por fim, quando fazia a terceira e última viagem, já arqueado, tive dificuldade para atravessar a avenida porque o trânsito estava intenso demais. Por sorte, um caminhão parou para que eu passasse e assim consegui alcançar o outro lado. Virei para agradecer ao motorista, mas ele já havia partido. Pensei: deve ser um ex-aluno. Sempre que recebo gestos solidários de estranhos, penso nos meus ex-alunos, que são inúmeros e já não os reconheço. 

Após descer o último feixe, eu voltava feliz por ter conseguido realizar tão árdua tarefa, quando um homem se aproximou, com cara brava e sequer me dando boa-tarde, e me interpelou:  “Você acha certo o que fez?” “Sim”, respondi. Ele se irritou e quase gritou: “Jogar isso aqui é certo?” Eu também me irritei e disse: “Esse terreno é da prefeitura!” O homem, que tem um comércio naquela beira de rio “há 49 ou 51 anos” –  conforme diz e sem saber qual é o número certo –, quis me dar lições. Percebendo o chão movediço sobre o qual pisava, contemporizou: “Sim, é da prefeitura, mas eu fui incumbido de zelar, não permitindo que joguem lixo aqui”. “Mas isso não é lixo, senhor!”, atalhei e emendei: “Lixo eu vejo sempre por aqui. Ontem mesmo eu recolhi garrafa de vidro”. Agora, de bola baixa, ele se explicou: “Toda semana eu mando meu funcionário fazer uma limpa aqui, mas não tem jeito. Sempre jogam. Ali jogaram um caminhão de sucata, tá vendo?” 

Sentindo que aquele homem, pelo menos no discurso, está preocupado com a limpeza dos espaços públicos, pedi desculpas e lhe perguntei se queria que eu tirasse os galhos de lá.  Ele foi enfático, dizendo que não é necessário, que as folhagens e os galhos apodrecem e viram adubo, que aquilo não é lixo.  Apenas perguntou se eu ainda traria mais. Respondi que não. “Não por hoje?”, quis saber.  “Nunca mais! Bronca eu levo uma vez só”, arrematei.  “Não, não estou dando bronca... Eu te conheço e jamais faria isso contigo”, finalizou. 

E assim, sem mais aperreios, ficou resolvida a questão. 

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sábado, 5 de março de 2022

A GUERRA

Ninguém me pediu opinião sobre a guerra que acontece lá pelas bandas da Europa. Se nada me foi perguntado é por que todos já dominam o assunto, ou por que minha opinião não tem valor algum. Ainda assim, ouso expressar meu ponto de vista sobre a insanidade que ocorre naquelas paragens.

O que mais impressiona é que os atores políticos querem tirar proveito da desgraceira que cai sobre os ucranianos. Muitos fazem projeções eleitorais em cima dos cadáveres produzidos por essa guerra bestial. Também no Brasil a esquerda disputa com a direita o butim da guerra. Por aqui há aqueles que se digladiam pela Rússia, e os que se matam pela Otan – todos uns boçais.

Vejo essa questão mais ou menos assim. Não conheço o Rio de Janeiro, mas sei que lá há bairros disputados por milicianos e traficantes. Um parêntese: é preciso dizer que milicianos e traficantes são feitos do mesmo “pó”.

Deixando “aquele pó” de lado e supondo que o solitário leitor more num bairro onde há disputa entre bandos, o razoável é que o amigo não tome partido de gangue alguma, porque qualquer vacilada porá sua vida e a da família em risco.

Nessa analogia, a Ucrânia seria um bairro disputado por dois bandos, de um lado a Rússia e do outro a Otan — esta capitaneada pelos Estados Unidos. O presidente ucraniano, que deveria ter ficado quieto no canto dele, plantando suas roças e vendendo cereais, resolveu abanar o rabo para a Otan e deu no que está dando. A Rússia jamais permitirá que seu quintal, que é a Ucrânia, torne-se uma fortificação dos americanos. E os americanos, que já estão acostumados a cantar de galo em terreiros ultramarinos, querem empoleirar na Ucrânia.

O resultado não foi uma guerra da Rússia, mas agressão covarde à Ucrânia, e isso pode ser explicado. Para entender é preciso fazer umas continhas, e eu as fiz. Do ponto de vista militar dos dois países, comparando efetivo, orçamento e arsenal, seria como uma suposta briga num time de futebol quando o goleiro, no caso a Ucrânia, estaria enfrentado os seus dez companheiros, a Rússia. Agora, se levar em conta o arsenal nuclear da Rússia, a briguinha ficaria um pouco mais desigual. Nesse caso, o goleiro, desarmado, enfrentaria seus dez adversários, cada um deles armado com uma garrucha! Acho que fui didático, não?  Então... não dá para apoiar essa invasão, a menos que eu seja mau ou burro, ou um burro mau.

O argumento que se usa para apoiar os russos seria o de que os americanos querem cercar a Rússia, estabelecendo-se a poucas centenas de quilômetros de Moscou. Isso é verdade, mas não toda a verdade. Tome como exemplo a miserável Coréia do Norte que é inimiga visceral da opulenta Coréia do Sul. Os capitalistas do sul, com toda a sua riqueza e apoio dos americanos, não conseguem se impor sobre seus irmãos comunistas do norte simplesmente porque estes têm arma nuclear.

Em resumo, os interesses da Rússia na Ucrânia são outros e essa invasão não se justifica por motivos de segurança como afirmam alguns. Aos russos não importa onde fica o inimigo, porque seu arsenal nuclear desencoraja qualquer ataque ao Kremlin.

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