sábado, 1 de julho de 2023

NATUREZA SUBJUGADA


 

Não me canso de contemplar essa foto que traz as entranhas de uma árvore cujas raízes, humilhantemente expostas de ponta-cabeça, evocam um ‘cadáver insepulto’.

Fico imaginando quem foi a dona desse “corpo” e o que pressentiu quando dela se aproximou a motosserra. Claro que a desventurada árvore gostaria de sair em disparada “pelos vales e campinas” até que a tenham perdido de vista. Mas a natureza não lhe permite movimentos e ela teve de encarar a morte ali mesmo, heroicamente estática.

Que mal teria feito aquela árvore? Ela só faz o bem. Diariamente, quando adulta, uma única árvore pode transferir para a atmosfera mais de cem litros de água, que formam as nuvens. As matas são responsáveis pelo controle da temperatura e pelo ciclo das chuvas; sem elas, nosso planeta seria um deserto inóspito.

Tento fazer a minha parte. A nossa casa é literalmente abraçada por árvores, com mangueira, abacateiro e até amoreira acariciando o telhado. Se as calhas entopem ou se uma telha desliza, subo lá e tento consertar; se eu não conseguir, o Cido, que é mais corajoso (ou sem juízo...), resolve pra mim.

Um galho da mangueira já virou dormitório de um barulhento bem-te-vi, que sempre me dá bom-dia ao alvorecer. Tenho observado que esse “menino” traz para seus aposentos um pequeno lanche, que é uma frutinha verde e redonda. Ele a rói toda ou em parte, desprezando o caroço. No chão, bem embaixo da cama dele, fica sujeira. Por capricho ou preguiça de procurar um banheiro, o bem-te-vi suja pra eu limpar. Contudo, ainda fico orgulhoso desse amigo madrugador e porcalhão que me chama para contemplar o amanhecer.

Um pouco acima do bem-te-vi, numa parte mais alta do beiral, está uma grande caixa de marimbondos. Faz mais de ano que eles se mudaram para aquele lugar e de lá não sairão. Jamais vou incomodá-los, até porque são pacíficos e a prudência me aconselha a não provocá-los também, é claro.

No quintal as coisas estão um pouco complicadas. Pus no pé de manga-espada uma pequena caixa de madeira para os passarinhos. Mas o passarinho deu bobeira e quem a aproveitou foram as abelhas. A colmeia começou pequena, dentro da caixa, e depois cresceu e já tiveram de fazer um puxadinho para abrigar todo o clã. Mas preciso me entender melhor com essas aí, porque elas não são da paz. Anteontem, recebi uma bela fisgada na nuca, que não me foi nada agradável. Mas as abelhas podem ficar tranquilas, porque não as molestarei.  Todavia, um acordo teremos que fazer – talvez uma demarcação de território para que possamos viver em harmonia. Enquanto isso, vamos conversando.

Já com as pombinhas silvestres não teve acordo. Durante muito tempo, deixei que elas chocassem na minha varanda. Tudo ia muito bem, lindo e maravilhoso até que... uma multidão de piolhos invadiu minha casa! Foi uma coceira de tirar o sono, literalmente. Não destruí o ninho delas, mas terminada a última ninhada, não “renovei contrato” e fui além: obstruí o acesso às vigas sobre as quais nidificavam. Ainda ontem uma delas esteve me fazendo uma visitinha, como quem não quer nada, mas quer tudo. Fingi que a prosa não era comigo e ela se foi.

Não moro na floresta, mas bem que eu gostaria. Tenho minhas árvores e as prezo com prazer. No entanto, na redondeza há cada vez menos árvores. Se eu pudesse, deportaria para o deserto todos os predadores do meio ambiente, que seriam condenados a se abrigar sob rochas, caminhar sobre areia quente e conviver com animais peçonhentos, bem típicos daquelas regiões áridas. Isso porque o paraíso não é para todos, mas apenas para quem o preserva.

FILIPE

sexta-feira, 16 de junho de 2023

VELHICE E LIBERDADE


 

“Na natureza há três sexos: sexo feminino, sexo masculino e sexagenário”, disse certa vez o grande Millor Fernandes, que certamente tinha vivência e experiência pra fazer tal afirmação.

Sexagenário que sou, ainda não estou preocupado com isso, mas percebo que a velhice não é aquele fantasma que me assombrava a infância, a adolescência e parte da maturidade. A idade nos limita fisicamente, mas nos liberta de muita coisa. De uns tempos para cá, por exemplo, sou mais seletivo em meus contatos e meu círculo de amizade tem sido mais restrito – e muito mais sólido também. Mas a velhice não pede licença e chega empurrando a porta. Explico.

Dia desses fui ao dentista e após avaliação minuciosa de meus dentes, ele disse: “Seus caninos e incisivos estão todos muito bem preservados, mas com pequena retração da gengiva; já os molares sofreram algum desgaste, mas de natureza fisiológica. Tudo isso está dentro da normalidade”. Em outras palavras, o dentista me disse: “Você está velho, mas seus dentes estão bem conservados e deve demorar um pouco pra gente pensar em trocá-los por uma dentadura!”

No mês passado, quando fui ao médico, este já foi mais direto, cruel até. Depois de analisar meu prontuário e os resultados de um exame que pediu, ele me restringiu certos alimentos, recomendou outros e disse: “Daqui pra frente, meu caro, as coisas só vão piorar pra você!” Ri sem graça da situação e respondi que quero experimentar essa piora, sim, mas que ela vem pra todos, inclusive pra ele.

Fora esses perrengues da saúde, toco a vida com a simplicidade de um matuto. Em casa cuido de minha companheira, de meus cães e, mais ou menos, do meu quintal. Não vejo televisão (que nem tenho) e evito ler notícias ruins. Tenho um fogão a lenha fumacento, que acendo de vez em quando para cozinhar feijão e mandioca. Ah, gosto de fazer doce também, mas tenho evitado a sacarose. Neste momento, o fogão já está sem as labaredas que se veem na foto lá em cima, mas a cozinha está quentinha e meus cãezinhos dormem tranquilamente.

Concluindo, quero envelhecer com a liberdade de quem não tem a preocupação de agradar, é espontâneo em todas as relações e não tem o ímpeto de aborrecer quem quer que seja.

Quero que a minha felicidade seja como uma brisa, que passe por mim e vá por aí, sem que força alguma possa detê-la.

FILIPE

sexta-feira, 2 de junho de 2023

A MAGIA DO PÃO FRANCÊS



Eu vinha de uma longa viagem, que me tomou uma noite inteira e um pedaço do dia.  Quando cheguei na minha cidade, entrei num supermercado a fim de procurar algo que me aplacasse a fome e fui direto à padaria. Dentre as inúmeras tentações, decidi comprar pães franceses (ou pão de sal, conforme se dizia antigamente na minha terra). Aquela não seria a minha refeição, mas tomado de fúria famélica, devorei apressadamente dois pãezinhos como se fossem a melhor das iguarias.

O ‘pão de sal’ é iguaria, sim, pelo menos para mim. E sei que ele foi também o petisco preferido de meu pai. Muitas vezes, eu me lembro, papai, ao passar por uma padaria, consultava o bolso e, confirmado o ‘saldo’, entrava e comprava uma sacola de ‘pães de sal’. De imediato, pegava deles e repartia com quem o acompanhasse. Depois pegava outro e o comia sofregamente enquanto caminhava pela estrada poeirenta, no caminho de casa.

Enquanto eu comia o pão naquele começo de tarde, eu lembrava de meu pai, mas não só. Eu lembrei também de um sujeito que encontrei numa das rodoviárias pelas quais passei. Maltrapilho, um homem chegou até mim, dizendo: “Aqui, eu não estou pedindo dinheiro. Dinheiro, não quero de jeito nenhum. Eu só quero um pedacinho de pão, porque não almocei nem jantei e estou com muita fome!”

Olhei bem para aquele senhor e o reconheci de outra passagem. Então eu lhe disse: “Já virou freguês, né? Outro dia você me procurou...” Ele sorriu desconcertado e quase me pediu desculpas, mas foi bastante eficiente no serviço: “Pois é... Eu peço porque estou muito precisado.” Então eu disse que lhe daria uma coxinha e pedi que me acompanhasse até a lanchonete, o que ele recusou veementemente. Disse que a dona da lanchonete não gosta dele, não se sabe por quê, e que nunca ia pôr os pés lá. Insisti, dizendo que ele fosse comigo e nada lhe aconteceria, porque neste país ainda há leis. Mas o homem ‘bateu o pé’ e não quis me acompanhar.

Quando eu já estava a certa distância, rumo à lanchonete, ele me alcançou apressado para dizer: “Aqui, traz a coxinha, mas uma coca também. Uma coquinha só...” Eu comecei a me irritar. “Você quer Coca-Cola?! Se tem fome, come o lanche. Eu não compro refrigerante pra mim...” “Ah, compra, sim”, ele insistiu e continuou: “É que hoje é meu aniversário e eu queria beber uma coquinha!...” “Seu aniversário? Que legal! Então me diga uma coisa: que dia é hoje?” Ele olhou pra baixo, pro lado e pra cima e quase abriu a boca pra falar algum número, mas desistiu. Então eu percebi a malandragem e o deixei parado ali. Trouxe a coxinha pra ele, mas sem refri. Ele pegou o salgado, me agradeceu e se foi.

A dona da lanchonete me advertiu na outra vez e nesta também: “Não dê nada pra esse homem, porque ele vai vender e comprar porcaria. Então dê a coxinha e mande ele morder na sua frente pra ninguém comprar dele.” “Mas quem vai comprar um lanche de um mendigo?”, perguntei. Ela disse que muita gente compra. Respondi que se alguém compra a comida de um pedinte, essa pessoa está em pior situação. Então a mulher pegou os sete reais e não disse mais palavra.

Foi preciso escrever tudo isso só pra dizer que, quando se tem fome, um pão francês é o 'menu dos deuses'.

FILIPE


sexta-feira, 19 de maio de 2023

RITA LEE

 


Começo escrever este texto numa manhã fria e nublada deste mês de maio. Lá fora, um bem-te-vi, que mora na mangueira ao lado de casa, ainda há pouco estava chamando insistentemente a sua “esposa”. O bem-te-vi mandou-se para os ares e me deixou aqui no rancho com a Pituka e o Tiziu, que continuam enroscados em seus trapos, não sei se de lã ou feltro. E enquanto digito este texto, a Rita Lee canta “Saúde”, dizendo: “(...) enquanto estou viva e cheia de graça, talvez ainda faça um monte de gente feliz”.

Minha história com esta cantora começou na década de setenta e foi assim. Numa de suas férias do seminário em Juiz de Fora, meu irmão mais velho trouxe uma dezena de pôsteres de artistas que estavam em voga naquela época, e essas fotos foram coladas numa parede da sala. Eram atrizes de novela e cantoras, que eu desconhecia por completo. Naquele tempo, pouca gente na minha terra tinha televisão, e na roça, onde morávamos, não tínhamos sequer rádio de pilha. Para nós, esse irmão era uma minicelebridade, porque era ele quem nos trazia as “novidades da civilização”.

De todas aquelas artistas cujas fotografias enfeitavam nossa humilde sala, eu me recordo de apenas duas: Dina Sfat e Rita Lee. Da Dina eu me lembro só do nome; da Rita, já lembro da imagem mesmo. No alto da parede, tal qual num olimpo, estava a Rita Lee: linda, de olhos claros e expressivos, cabelos longos e a franja que a acompanharia até seus estertores.

A nossa casa era de tijolos aparentes – não por charme, mas pobreza mesmo –, mas a sala ficou particularmente charmosa com aquela pequena galeria de celebridades. Todos gostamos e ficamos encantados – menos papai, que chegou e mandou retirar ‘tudo aquilo dali’.

Foi um anticlímax. Meu irmão começou a tirar cuidadosamente uma por uma para que não rasgasse, mas em vão foi seu esforço. As “meninas” não queriam “descer da parede” e o negócio foi retirá-las à força.

Ficamos tristes, mas a obediência aos pais era um imperativo na nossa família. Embora houvesse um choque geracional entre pais e filhos, papai era sempre compreendido e respeitado por todos nós.

Pois então, semana passada Rita Lee encantou-se. Dela fica o magnífico repertório e um legado de rebeldia e liberdade, concordemos ou não com ela.

Para seu epitáfio, Rita escreveu: “Ela nunca foi bom exemplo, mas era gente boa”.  Sim, Rita Lee era gente boníssima. Em vida, muito discretamente, sempre doou suas roupas para moradores de rua. E tinha espiritualidade também. Embora não fosse declaradamente adepta de credo algum, todas as noites, antes de dormir, ela e seu marido faziam suas preces.

Rita Lee partiu na certeza de que deixou um ‘monte de gente feliz’. Mas a sua ausência deixa a vida um pouco mais triste.

FILIPE

sexta-feira, 5 de maio de 2023

A RÁDIO CULTURA DE AMPARO

 Publicado no jornal 'A Tribuna de Amparo' -- edição de hoje.

 

O que está acontecendo com a nossa Rádio Cultura?

 

É manhã de domingo. Ligo o rádio, que sempre esteve sintonizado na rádio Cultura de Amparo, mas preciso desligar porque a programação não é mais aquela que me fez ficar enamorado dessa emissora desde há muitos anos. Antes, aos domingos, havia música erudita bem no comecinho da manhã. Em seguida, uma sequência musical genuinamente brasileira fazia meu domingo pulsar até o meio-dia. Agora, não mais.

 

As manhãs de sábado também perderam o brilho musical na Rádio Cultura.  Às sete da manhã, havia um programa especial contando a vida de determinado ícone do nosso cancioneiro. Em seguida, a programação continuava em linha com o espírito da emissora, tocando sempre MPB no gênero raiz. O programa biográfico acabou e a sequência musical ficou desidratada.

 

Há tempos, por falta de sintonia com o programa e simpatia com o apresentador, deixei de ouvir a Rádio Cultura nas manhãs de segunda a sexta-feira. Mas as tardes me eram propícias, particularmente o programa das 17 horas, cujo apresentador, Marcelo Lari, é uma ‘reserva moral’ do rádio brasileiro. No entanto, e isso não é culpa do locutor, a seleção musical ficou bastante prejudicada desde a aposentadoria de Cecília Beltramelli, produtora musical que trabalhou na emissora por muitos anos. Com a saída daquela profissional, nomes como Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Milton Nascimento, João Bosco e outros titãs da cena musical brasileira foram postos no ostracismo, numa espécie de ‘macarthismo tupiniquim’ agora presente em Amparo.

 

Numa tarde dessas, tentei insistir no dial da Rádio Cultura, mas tive que desligar. Não pude conter a indignação ao ouvir (na minha rádio!) um pagodeiro... E desses aí, bem midiático!

 

Ah, raríssimo leitor, não me tenha por preconceituoso. Musicalmente talvez eu seja, mas aqui a minha intenção é defender um espaço que sempre privilegiou a autêntica MPB. Para quem gosta e quer ouvir pagodes, sertanejos universitários e que tais, há uma miríade de emissoras por aí – e eu não gostaria de que a nossa Rádio Cultura entrasse naquela seara.

 

Infelizmente — por ideologia, descaso, ignorância ou compadrio —, decisões erradas estão sendo tomadas e a nossa Rádio Cultura perde muito do elã com que tanto me seduzia para se tornar uma emissora como outra qualquer.

 

FILIPE

terça-feira, 25 de abril de 2023

NÓS, OS MOURA LIMA



A foto acima foi tirada enquanto nós, os Moura Lima, estávamos reunidos na varanda de nosso saudoso pai. Foi neste espaço que papai viveu o melhor de suas horas desde que a velhice lhe tocou o ombro. Aqui o patriarca usava suas redes sociais, fazia palavras cruzadas, ouvia rádio, jogava baralho com as netas, recebia os amigos para tomar café, proseava e tirava um cochilo num velho sofá. É nesta varanda que a família sempre se reúne para refeições, preces e até uma espécie de sarau musical, que vez ou outra acontece. Por tudo isso, este modesto anexo da casa tornou-se para nós um espaço sagrado, quase um templo. 

A iniciativa do nosso encontro começou assim. No dia seguinte à despedida do papai, nós nos reunimos para acertar coisas pendentes e decidir quais caminhos trilharíamos a partir de então.  Naquela ocasião, eu propus que se fizesse uma reunião anual com todo o ‘clã Moura Lima’. Todos aceitaram a minha sugestão, mas, como sempre, não faltaram alguns tropicões. E, entre convergências e divergências, uma data foi provisoriamente acertada. Tempos depois a data foi alterada a fim de que todos pudessem comparecer. E assim aconteceu, apesar de grande sacrifício de alguns que tiveram de viajar a noite toda para ficar umas poucas horas com a família, e ainda retornar no mesmo dia, viajando por outra noite inteirinha. Todavia, o esforço valeu a pena e nosso encontro passará a ser uma ‘efeméride’ – segundo a definição de um irmão mais intelectualizado. 

Então, sob o sisudo cajado do irmão mais velho – cuja primogenitura é exercida por ele com indisfarçável gozo – pudemos experimentar momentos de profunda emoção nesse encontro, havendo lágrimas torrenciais, particularmente quando se rememorou o legado de nosso pai. No entanto, sonoras risadas também puderam ser ouvidas de longe quando um Moura Lima mais engraçadinho desanuviava o ambiente. Já ao fim de nossa “tertúlia”, houve missa concelebrada pelos três irmãos padres e depois o almoço patrocinado pela nossa querida mãezinha, que se encontra enferma. 

O nosso compromisso é de nos mantermos unidos, conforme exortava nosso velho e bom pai. Contudo, de vez em quando um fio desencapado costuma produzir alguma faísca, provocando um breve curto-circuito no grupo de WhatsApp – problema logo resolvido por um irmão mais habilidoso. Mas é importante ressaltar que temos a fortuna de não encontrar na irmandade ninguém de “gênio forte” – usando aqui uma metáfora um tanto açucarada para “alma cabeluda”. Dessa forma, a nossa convivência se torna mais tranquila sem que isso seja uma virtude dos Moura Lima. 

FILIPE 

sábado, 8 de abril de 2023

A VARANDA VAZIA

 


A casa está vazia: mamãe no hospital e papai nas “Alturas”. Aqui tudo está virando um passado, que chega muito apressado.

Esta noite passei no quarto de minha mãe e dormi na cama que foi de meu pai. Tive uma noite tranquila, de sono sereno. Eu estava bastante cansado depois de quatro noites de insônia ou de sono precário e precisava dormir. Foi então nos aposentos paternos que tive o ‘sono bom dos bons filhos’.

No momento em que me ponho a “rabiscar estas mal traçadas” – aqui usando esse termo bastante puído, e brega –, uma tímida aurora afasta as últimas trevas, restando ainda uma ave noturna em tristes gorjeios. Uma corruíra já canta alegremente numa árvore ao lado da casa e lá no pasto, bem ao longe, vozes de joões-tenenéns, quero-queros, joões-de-barro e outros cantares que não consigo identificar ensaiam um promissor recital. Até um galo garboso, orgulhoso de seu harém, rasga a garganta lá pelas bandas da lagoa. O dia avança e domina.

Sentado à mesa de granito, sobre a qual papai carteava com as netas, enxergo um pequeno memorial do Velho. À meia-luz, posso ver fixados numa parede a bengala, um cinto, a tesoura com que ele cortava cabelo dos filhos e compadres, o aparelho de barbear e um carregador de celular. Já a mesinha onde ele punha o notebook não está mais ali, e o seu guarda-roupa migrou do quarto para cá. Dentro dele há ainda muitos de seus pertences. Na parede, à minha frente, há uma foto antiga em que papai e mamãe, ainda bem moços, celebram suas Bodas de Prata. Ela, com o caçula no colo, e ele, de mãos cruzadas – ambos olhando fixamente para a câmera.   

Como se vê, neste Sábado de Aleluia tudo parece ser alegria. A natureza festeja após uma noite de chuva fina e intensa. Para este escriba, no entanto, o dia está cinzento. A varanda vazia da presença de meu pai e o quarto vazio da presença de minha mãe são motivos de tristeza profunda.

Aquele hospital, com quartos abafados e paredes frias, não me afligem. Mamãe está lá mais uma vez depois de tantas idas; um ano atrás, papai lá se hospedara por uma única vez e de lá não voltou mais. Gosto de estar naquelas enfermarias, porque ali sinto a presença de meu pai. Eu o vejo caminhando pelos intermináveis corredores e posso vê-lo subindo ou descendo as emborrachadas rampas, com suas longas mãos deslizando nos corrimões. Meu Velho está lá, e não aqui nesta varanda, que foi tanto dele.

Esta varanda, esta casa, este sítio e os montes que o rodeiam, e até as nuvens e o céu noturno estrelado – tudo isso, antes tão meus – estão virando uma folha de jornal que foi lida e relida. E agora, já amarelado, este “jornal” será para sempre guardado. Repouse em paz, ó passado, e não me desassossegue!

Os tais “escaninhos da memória”, conforme querem os pretensos poetas, serão os guardiães dessas reminiscências. Sim, porque papai já se foi, mamãe não tarda e eu já preparo minha trouxa. E, sem delongas, preciso me despedir desse outrora doce recanto, porque, como bem disse Belchior, “o passado é uma roupa que não nos serve mais”.

FILIPE