sexta-feira, 11 de agosto de 2023

MEU AVÔ SEBASTIÃO

 


A pedido do ‘irmão mais velho’, tento escrever algumas linhas sobre esse homem que, se estivesse vivo, completaria 120 anos neste 10 de agosto.

‘Vovô Bastião Lopes’, conforme chamávamos o nosso avô paterno, era um homem severo, de muita ação e poucas palavras. Sua voz metálica era usada apenas para abençoar os netos, dar algumas instruções a quem fosse trabalhar para ele e, no mais, para aboiar o gado. Sua propriedade constava de um sítio, com cerca de 100 hectares, além de um bom plantel de vacas leiteiras, novilhos e bois carreiros. Na sua casa, a primeira na região a ter geração própria de energia elétrica, havia um moinho d’água que produzia fubá para seu sustento e o da vizinhança.

Esse meu avô, que morreu pouco depois de completar setenta anos, teve uma vida de intenso trabalho, mas foi muito bem-sucedido em seus empreendimentos. Partindo do ‘zero’, ele conquistou um notável patrimônio. Meu pai sempre dizia que o sol nunca o surpreendeu na cama, porque vovô sempre se levantava aos primeiros clarões do dia.

Quituteiro dos bons, em sua casa o fogão era quase sempre dele. A refeição farta e repleta de frituras, variava de ovos fritos, torresmos, queijo frito e outros acepipes. Muitas vezes pude vê-lo ao fogão a lenha, cozinhando para uma turma que poderia chegar a uma dezena de trabalhadores. Terminado o almoço, vovô enchia uma série de caldeirõezinhos da seguinte forma: primeiro ele punha o angu, que forrava o fundo do caldeirão a fim de tampar eventuais buracos para a comida não escapar (um segredo das cozinheiras do meu tempo de roça); sobre essa “argamassa”, ia o feijão-preto que banhava com seu caldo espesso uma torre de arroz ladeada por batata-doce, carne, torresmo, abóbora, couve etc. A sobremesa também se fazia acompanhar: pedaços robustos de rapadura com soberbos nacos de queijo curado, que o próprio vovô fazia, iam numa vasilha à parte. Tudo aquilo era ajeitado numa grande cesta, que ele cobria com um pano branco e punha sobre o ombro para levar até o pasto onde seus companheiros roçavam. Sob a sombra confortável de uma árvore, cada homem pegava seu caldeirão, sentava-se sobre o cabo de sua foice ou numa munha macia de capim, tirava o chapéu e fazia ali a refeição. Enquanto a turma comia e proseava, meu avô pegava uma foice e dava continuidade ao serviço, roçando também. Terminada a refeição, vovô recolhia as vasilhas e voltava para casa a fim de dar sequência nos afazeres domésticos, que incluía uma tábua de queijos que ele fazia toda as tardes.

Mas aconteceu algo numa manhã ensolarada de dezembro, era domingo, quando eu festejava meu aniversário com um tio muito querido. Nesse dia havia muita gente na casa de meus avós maternos: meus irmãos, primos, tios etc. Então eu estava feliz e particularmente eufórico, porque esse meu tio prometeu que à noite teria baile. Eu nunca tinha ido a um baile... Mas uma tia interrompeu tudo quando chegou assustada com a notícia: “Menino, sabe não?... Seu avô morreu!”

Aquela festa, que não chegou a acontecer, ficou marcada e foi a última.

FILIPE

sábado, 29 de julho de 2023

IMPACIÊNCIA

 


Dia desses, decidi sair mais cedo para a caminhada com os cães. Na verdade, são eles que saem comigo, arrastando-me pelo bairro numa latição de tirar a paz até dos anjos.

Assim que alcançamos a rua, ajustei o fone de ouvido para ouvir mais um episódio da Rádio Novelo naquele começo de tarde ensolarada. Tudo ia bem até que alguém perturbou meu sossego. Um homem de bermuda, boné, porrete e celular ligado em som alto, que vinha em sentido contrário, parou e quis conversar. Eu não conseguia ouvi-lo por causa dos meus fones; já ele não me ouvia por que o som dele estava muito alto. Como reza a boa educação, desliguei meu aparelho; ele, no entanto, continuava barulhento, embora insistisse em conversar. Eu conheço aquela figura há anos, mas nunca soube seu nome.  

Eu tinha pressa. Queria continuar ouvindo meu podcast, precisava voltar pra terminar o almoço e tentei me despedir. Em vão foram meus planos, porque ele desligou o som, deu meia-volta e me acompanhou. Sem ter afinidade comigo e por uma brutal falta de assunto, começou a me fazer perguntas. Primeiro sobre a ex-namorada, que conheço de longa data, e depois entrou numa seara que sempre evito.

Quem me conhece, sabe: falo sobre política com raríssimas pessoas. Evito porque tenho opiniões bastante consolidas e esse assunto costuma foguear-me os ânimos. Mas como aquele homem queria conversar, ele falaria sobre qualquer coisa e arriscou a política. Desanimado com o país, resmungou suas frustrações e quis saber minha opinião. Já adiantei que, pelo jeito, ele é de direita e eu sou de esquerda. Dessa forma, seria melhor a gente mudar de assunto. Mas ele não queria mudar a pauta. Falando mal do atual governo, acrescentou que Haddad não sabe economia e não deveria ser ministro da Fazenda. Respondi que Haddad é jurista, tem doutorado em filosofia e é bom gestor. Ele se apressou a dizer que fez economia na PUC, tendo sido aluno de Fernando Henrique, Aloízio Mercadante e Paul Singer. Perguntei o que FHC foi fazer no curso de economia da PUC, sendo ele sociólogo da USP. Fernando Henrique, quando chegou do exílio, deu aulas de sociologia política na PUC – explicou.

Chegando a uma esquina, eu desceria à direita, como sempre faço, mas segui adiante. Pensei: ele vai desanimar e vai voltar. Que nada. Continuou me seguindo, me obrigando a percorrer o bairro inteiro. Os cães, alheios à minha aflição, bem que gostaram do prolongamento, embora um palmo de língua sinalizasse outra coisa. Nesse momento, ele me perguntou se eu não temia que o Brasil virasse uma Venezuela. De saco cheio, perdi as estribeiras e descarreguei:  “Você, um economista, acredita nessas coisas? Ah, tenha paciência!...Tem gente ignorante que acredita em terra plana... Mas você tem informação!” Ele se assustou com minha reação: “Calma! Estamos apenas conversando...” Quase pedi desculpas pelo meu destempero, mas fiquei quieto.

Passou o assunto Venezuela, ele trouxe a guerra da Ucrânia e disse que gosta mesmo é do Putin. Aquele, sim, é um homem de respeito, que defende os valores da família etc. Rebati, dizendo que Putin é horroroso e Zelensky irresponsável. Ele concordou com a segunda parte e mudou mais uma vez de assunto, agora elogiando os militares. Não deu certo de novo. Falei que alguns deles não conseguem sequer defender a própria honra, muito menos a pátria – e citei alguns nomes. Então ele tentou acertar as palavras, dizendo que ultimamente não temos militares como Castello Branco, Costa e Silva, Médici... Aí, tive de interrompê-lo antes que uma síncope cardíaca me apagasse. “Escuta aqui: você não conhece a história do Brasil?! Não sabe que essa ditadura militar foi das mais horríveis e covardes do continente?” Eu ia continuar, mas ele interveio: “Bom... Você é professor e eu não.” “Nada a ver. Sou formado em matemática, mas procuro conhecer a história do meu país. É preciso ler pra poder falar dessas coisas, senão fica sem referências. E você já disse lá atrás que parou de ler.”

O assunto não acabava nunca, mas a caminhada, sim. Apontei minha casa e ele me acompanhou até o portão. Eu já me despedia, sem convidá-lo pra entrar (coisa feia... acho que é a primeira vez que faço isso) quando ele quis saber a minha idade, não sei por quê. Então ele disse que pareço ser bem mais novo – embora não me convencesse disso. E sem que eu perguntasse, ele me falou que tem ‘sessenta e seis’. Retribuí a gentileza, dizendo que aparenta bem menos. “Está um garotão ainda!”, eu disse sem convicção.

Antes de ir embora, ele me pediu um ‘favor’. Perguntou se poderia dar um beijo nos cachorros. “Claro!”, respondi incrédulo.  Ele beijou a cabeça de cada cão, perguntou o nome deles e se foi.

Ao escrever estas linhas, já passados muitos dias daquele episódio, senti necessidade de reencontrar aquele senhor e lhe dar um abraço. E também pedir perdão pela minha impaciência.

FILIPE

sábado, 15 de julho de 2023

VEXAME VERDE-OLIVA

 


No começo desta semana, um militar teve de comparecer à CPI que investiga atos antidemocráticos. Até aí, normal, porque outros militares já deram depoimentos a diversas CPIs sem que algo de assombroso acontecesse.

Mas este depoimento chamou a atenção por um motivo inusitado, quase pitoresco. Um tenente-coronel do Exército compareceu à comissão inquiridora imponentemente fardado, com o peito estufado repleto de medalhas, insígnias e outras quinquilharias – não se sabe, mas talvez com intenções intimidativas. Chegando, tomou assento à mesa, impostou a voz e começou a ler numa folha de papel os seus “grandes feitos” pela pátria e por todos nós.  Depois, alegando direito ao silêncio conseguido via habeas corpus junto ao STF, permaneceu calado. Durantes aquelas muitas horas em que ficou sentado no “banquinho da disciplina”, ninguém conseguiu arrancar do sujeito, antes tão falastrão, ao menos uma interjeição. Uma situação no mínimo vexatória para ele e seus pares, gente que esbanja altivez e valentia perante os subordinados.

Não trago na alma ressentimentos aos fardados. Servi na ‘força terrestre’ durante dois anos e, embora ainda vivêssemos sob a tirania da malfadada ditadura militar, tenho boas lembranças da caserna. Recordo-me de que muitos de meus superiores nos tratavam com respeito e, não querendo forçar muito, eu diria que recebíamos um tratamento até carinhoso de alguns sargentos e oficiais. Prova disso é que o major, comandante da unidade, quando visitava os departamentos, cumprimentava cada soldado, chamando-o pelo nome. Esse tratamento eu já não tive em certas empresas cujos chefes eram, obviamente, civis. Alguns destes eram arrogantes, prepotentes e, na falta de melhor qualificativo, canalhas. Um gerente de uma grande loja onde trabalhei jamais falava com funcionários rasos e sequer lhes dava um bom-dia. Ele dizia às suas auxiliares, que eram as chefes de departamento, não suportar repositores. Eu era repositor.

Sobre os militares, há uma discussão quanto à necessidade ou não de uma força armada para garantir o ‘estado de direito’. Não tenho dúvidas sobre a necessidade de ao menos uma ‘guarda nacional’ armada e bem treinada para cuidar de nossas fronteiras e garantir a paz social. Todavia, essa instituição jamais poderia extrapolar suas funções, avançando sobre assuntos estranhos às suas atribuições constitucionais. Da mesma forma que um civil não pode entrar num quartel para comandar soldados, um militar não tem por que se meter em repartições públicas civis.  A famigerada escola cívico-militar é uma dessas gangrenas autoritárias que faz lembrar o histriônico Plínio Salgado com suas “galinhas verdes” (caso o raro leitor desconheça o assunto, sugiro pesquisar ‘integralismo’ no Google).

Voltando ao o episódio da semana, este foi para mim uma celebração. Ver um alto oficial das forças armadas que, suspeito de atentar contra a democracia, é repreendido por civis e obrigado a engolir calado sua bílis – tão verde quanto sua farda – torna-se um marco civilizatório para nós e um brinde às futuras gerações.

FILIPE

sábado, 1 de julho de 2023

NATUREZA SUBJUGADA


 

Não me canso de contemplar essa foto que traz as entranhas de uma árvore cujas raízes, humilhantemente expostas de ponta-cabeça, evocam um ‘cadáver insepulto’.

Fico imaginando quem foi a dona desse “corpo” e o que pressentiu quando dela se aproximou a motosserra. Claro que a desventurada árvore gostaria de sair em disparada “pelos vales e campinas” até que a tenham perdido de vista. Mas a natureza não lhe permite movimentos e ela teve de encarar a morte ali mesmo, heroicamente estática.

Que mal teria feito aquela árvore? Ela só faz o bem. Diariamente, quando adulta, uma única árvore pode transferir para a atmosfera mais de cem litros de água, que formam as nuvens. As matas são responsáveis pelo controle da temperatura e pelo ciclo das chuvas; sem elas, nosso planeta seria um deserto inóspito.

Tento fazer a minha parte. A nossa casa é literalmente abraçada por árvores, com mangueira, abacateiro e até amoreira acariciando o telhado. Se as calhas entopem ou se uma telha desliza, subo lá e tento consertar; se eu não conseguir, o Cido, que é mais corajoso (ou sem juízo...), resolve pra mim.

Um galho da mangueira já virou dormitório de um barulhento bem-te-vi, que sempre me dá bom-dia ao alvorecer. Tenho observado que esse “menino” traz para seus aposentos um pequeno lanche, que é uma frutinha verde e redonda. Ele a rói toda ou em parte, desprezando o caroço. No chão, bem embaixo da cama dele, fica sujeira. Por capricho ou preguiça de procurar um banheiro, o bem-te-vi suja pra eu limpar. Contudo, ainda fico orgulhoso desse amigo madrugador e porcalhão que me chama para contemplar o amanhecer.

Um pouco acima do bem-te-vi, numa parte mais alta do beiral, está uma grande caixa de marimbondos. Faz mais de ano que eles se mudaram para aquele lugar e de lá não sairão. Jamais vou incomodá-los, até porque são pacíficos e a prudência me aconselha a não provocá-los também, é claro.

No quintal as coisas estão um pouco complicadas. Pus no pé de manga-espada uma pequena caixa de madeira para os passarinhos. Mas o passarinho deu bobeira e quem a aproveitou foram as abelhas. A colmeia começou pequena, dentro da caixa, e depois cresceu e já tiveram de fazer um puxadinho para abrigar todo o clã. Mas preciso me entender melhor com essas aí, porque elas não são da paz. Anteontem, recebi uma bela fisgada na nuca, que não me foi nada agradável. Mas as abelhas podem ficar tranquilas, porque não as molestarei.  Todavia, um acordo teremos que fazer – talvez uma demarcação de território para que possamos viver em harmonia. Enquanto isso, vamos conversando.

Já com as pombinhas silvestres não teve acordo. Durante muito tempo, deixei que elas chocassem na minha varanda. Tudo ia muito bem, lindo e maravilhoso até que... uma multidão de piolhos invadiu minha casa! Foi uma coceira de tirar o sono, literalmente. Não destruí o ninho delas, mas terminada a última ninhada, não “renovei contrato” e fui além: obstruí o acesso às vigas sobre as quais nidificavam. Ainda ontem uma delas esteve me fazendo uma visitinha, como quem não quer nada, mas quer tudo. Fingi que a prosa não era comigo e ela se foi.

Não moro na floresta, mas bem que eu gostaria. Tenho minhas árvores e as prezo com prazer. No entanto, na redondeza há cada vez menos árvores. Se eu pudesse, deportaria para o deserto todos os predadores do meio ambiente, que seriam condenados a se abrigar sob rochas, caminhar sobre areia quente e conviver com animais peçonhentos, bem típicos daquelas regiões áridas. Isso porque o paraíso não é para todos, mas apenas para quem o preserva.

FILIPE

sexta-feira, 16 de junho de 2023

VELHICE E LIBERDADE


 

“Na natureza há três sexos: sexo feminino, sexo masculino e sexagenário”, disse certa vez o grande Millor Fernandes, que certamente tinha vivência e experiência pra fazer tal afirmação.

Sexagenário que sou, ainda não estou preocupado com isso, mas percebo que a velhice não é aquele fantasma que me assombrava a infância, a adolescência e parte da maturidade. A idade nos limita fisicamente, mas nos liberta de muita coisa. De uns tempos para cá, por exemplo, sou mais seletivo em meus contatos e meu círculo de amizade tem sido mais restrito – e muito mais sólido também. Mas a velhice não pede licença e chega empurrando a porta. Explico.

Dia desses fui ao dentista e após avaliação minuciosa de meus dentes, ele disse: “Seus caninos e incisivos estão todos muito bem preservados, mas com pequena retração da gengiva; já os molares sofreram algum desgaste, mas de natureza fisiológica. Tudo isso está dentro da normalidade”. Em outras palavras, o dentista me disse: “Você está velho, mas seus dentes estão bem conservados e deve demorar um pouco pra gente pensar em trocá-los por uma dentadura!”

No mês passado, quando fui ao médico, este já foi mais direto, cruel até. Depois de analisar meu prontuário e os resultados de um exame que pediu, ele me restringiu certos alimentos, recomendou outros e disse: “Daqui pra frente, meu caro, as coisas só vão piorar pra você!” Ri sem graça da situação e respondi que quero experimentar essa piora, sim, mas que ela vem pra todos, inclusive pra ele.

Fora esses perrengues da saúde, toco a vida com a simplicidade de um matuto. Em casa cuido de minha companheira, de meus cães e, mais ou menos, do meu quintal. Não vejo televisão (que nem tenho) e evito ler notícias ruins. Tenho um fogão a lenha fumacento, que acendo de vez em quando para cozinhar feijão e mandioca. Ah, gosto de fazer doce também, mas tenho evitado a sacarose. Neste momento, o fogão já está sem as labaredas que se veem na foto lá em cima, mas a cozinha está quentinha e meus cãezinhos dormem tranquilamente.

Concluindo, quero envelhecer com a liberdade de quem não tem a preocupação de agradar, é espontâneo em todas as relações e não tem o ímpeto de aborrecer quem quer que seja.

Quero que a minha felicidade seja como uma brisa, que passe por mim e vá por aí, sem que força alguma possa detê-la.

FILIPE

sexta-feira, 2 de junho de 2023

A MAGIA DO PÃO FRANCÊS



Eu vinha de uma longa viagem, que me tomou uma noite inteira e um pedaço do dia.  Quando cheguei na minha cidade, entrei num supermercado a fim de procurar algo que me aplacasse a fome e fui direto à padaria. Dentre as inúmeras tentações, decidi comprar pães franceses (ou pão de sal, conforme se dizia antigamente na minha terra). Aquela não seria a minha refeição, mas tomado de fúria famélica, devorei apressadamente dois pãezinhos como se fossem a melhor das iguarias.

O ‘pão de sal’ é iguaria, sim, pelo menos para mim. E sei que ele foi também o petisco preferido de meu pai. Muitas vezes, eu me lembro, papai, ao passar por uma padaria, consultava o bolso e, confirmado o ‘saldo’, entrava e comprava uma sacola de ‘pães de sal’. De imediato, pegava deles e repartia com quem o acompanhasse. Depois pegava outro e o comia sofregamente enquanto caminhava pela estrada poeirenta, no caminho de casa.

Enquanto eu comia o pão naquele começo de tarde, eu lembrava de meu pai, mas não só. Eu lembrei também de um sujeito que encontrei numa das rodoviárias pelas quais passei. Maltrapilho, um homem chegou até mim, dizendo: “Aqui, eu não estou pedindo dinheiro. Dinheiro, não quero de jeito nenhum. Eu só quero um pedacinho de pão, porque não almocei nem jantei e estou com muita fome!”

Olhei bem para aquele senhor e o reconheci de outra passagem. Então eu lhe disse: “Já virou freguês, né? Outro dia você me procurou...” Ele sorriu desconcertado e quase me pediu desculpas, mas foi bastante eficiente no serviço: “Pois é... Eu peço porque estou muito precisado.” Então eu disse que lhe daria uma coxinha e pedi que me acompanhasse até a lanchonete, o que ele recusou veementemente. Disse que a dona da lanchonete não gosta dele, não se sabe por quê, e que nunca ia pôr os pés lá. Insisti, dizendo que ele fosse comigo e nada lhe aconteceria, porque neste país ainda há leis. Mas o homem ‘bateu o pé’ e não quis me acompanhar.

Quando eu já estava a certa distância, rumo à lanchonete, ele me alcançou apressado para dizer: “Aqui, traz a coxinha, mas uma coca também. Uma coquinha só...” Eu comecei a me irritar. “Você quer Coca-Cola?! Se tem fome, come o lanche. Eu não compro refrigerante pra mim...” “Ah, compra, sim”, ele insistiu e continuou: “É que hoje é meu aniversário e eu queria beber uma coquinha!...” “Seu aniversário? Que legal! Então me diga uma coisa: que dia é hoje?” Ele olhou pra baixo, pro lado e pra cima e quase abriu a boca pra falar algum número, mas desistiu. Então eu percebi a malandragem e o deixei parado ali. Trouxe a coxinha pra ele, mas sem refri. Ele pegou o salgado, me agradeceu e se foi.

A dona da lanchonete me advertiu na outra vez e nesta também: “Não dê nada pra esse homem, porque ele vai vender e comprar porcaria. Então dê a coxinha e mande ele morder na sua frente pra ninguém comprar dele.” “Mas quem vai comprar um lanche de um mendigo?”, perguntei. Ela disse que muita gente compra. Respondi que se alguém compra a comida de um pedinte, essa pessoa está em pior situação. Então a mulher pegou os sete reais e não disse mais palavra.

Foi preciso escrever tudo isso só pra dizer que, quando se tem fome, um pão francês é o 'menu dos deuses'.

FILIPE


sexta-feira, 19 de maio de 2023

RITA LEE

 


Começo escrever este texto numa manhã fria e nublada deste mês de maio. Lá fora, um bem-te-vi, que mora na mangueira ao lado de casa, ainda há pouco estava chamando insistentemente a sua “esposa”. O bem-te-vi mandou-se para os ares e me deixou aqui no rancho com a Pituka e o Tiziu, que continuam enroscados em seus trapos, não sei se de lã ou feltro. E enquanto digito este texto, a Rita Lee canta “Saúde”, dizendo: “(...) enquanto estou viva e cheia de graça, talvez ainda faça um monte de gente feliz”.

Minha história com esta cantora começou na década de setenta e foi assim. Numa de suas férias do seminário em Juiz de Fora, meu irmão mais velho trouxe uma dezena de pôsteres de artistas que estavam em voga naquela época, e essas fotos foram coladas numa parede da sala. Eram atrizes de novela e cantoras, que eu desconhecia por completo. Naquele tempo, pouca gente na minha terra tinha televisão, e na roça, onde morávamos, não tínhamos sequer rádio de pilha. Para nós, esse irmão era uma minicelebridade, porque era ele quem nos trazia as “novidades da civilização”.

De todas aquelas artistas cujas fotografias enfeitavam nossa humilde sala, eu me recordo de apenas duas: Dina Sfat e Rita Lee. Da Dina eu me lembro só do nome; da Rita, já lembro da imagem mesmo. No alto da parede, tal qual num olimpo, estava a Rita Lee: linda, de olhos claros e expressivos, cabelos longos e a franja que a acompanharia até seus estertores.

A nossa casa era de tijolos aparentes – não por charme, mas pobreza mesmo –, mas a sala ficou particularmente charmosa com aquela pequena galeria de celebridades. Todos gostamos e ficamos encantados – menos papai, que chegou e mandou retirar ‘tudo aquilo dali’.

Foi um anticlímax. Meu irmão começou a tirar cuidadosamente uma por uma para que não rasgasse, mas em vão foi seu esforço. As “meninas” não queriam “descer da parede” e o negócio foi retirá-las à força.

Ficamos tristes, mas a obediência aos pais era um imperativo na nossa família. Embora houvesse um choque geracional entre pais e filhos, papai era sempre compreendido e respeitado por todos nós.

Pois então, semana passada Rita Lee encantou-se. Dela fica o magnífico repertório e um legado de rebeldia e liberdade, concordemos ou não com ela.

Para seu epitáfio, Rita escreveu: “Ela nunca foi bom exemplo, mas era gente boa”.  Sim, Rita Lee era gente boníssima. Em vida, muito discretamente, sempre doou suas roupas para moradores de rua. E tinha espiritualidade também. Embora não fosse declaradamente adepta de credo algum, todas as noites, antes de dormir, ela e seu marido faziam suas preces.

Rita Lee partiu na certeza de que deixou um ‘monte de gente feliz’. Mas a sua ausência deixa a vida um pouco mais triste.

FILIPE