sábado, 23 de setembro de 2023

VILAS BOAS?



Você, que não mora nessa vila, não sabe que casa é essa. Eu também não saberia, caso alguém me mostrasse a foto da forma que eu a apresento aqui. E eu nem teria motivo para publicá-la, porque essa casa não teve grande destaque na minha vida, embora ela esteja presente nas minhas memórias afetivas desde a mais remota infância.

Mais de meio século atrás, a casa da foto era uma ‘vendinha’ do senhor Nésio – esse o apelido do homem que provavelmente se chamava Onésimo. Eu gostava de entrar naquela venda, que não tinha muita coisa além de lápis, borracha, balas, chicletes, cereais e outras mercadorias das quais não tenho sequer um fiapo de lembrança. Certa vez, entrei com minha irmã mais velha para comprar um único chiclete, que fora salomonicamente dividido ao meio por nós. Todavia, o assunto aqui não é a ‘casa de venda do Nésio’, embora ela faça parte da paisagem desta crônica, nem  ‘gomas de mascar’. Mas quero falar de minha terra natal.

Iniciando a partir da ponte sobre o riacho que dá nome ao vilarejo, e que antigamente tinha apenas duas ruas – uma seguindo para o cemitério e com acesso à estrada para o povoado de D. Silvério, e a outra com acesso à estrada para a serra da Mutuca –, o Córrego Preto é um povoado encravado ao sopé das montanhas de Guiricema, nas Minas Gerais. Foi nesse arraial que tive o primeiro contato com aquilo que para nós seria uma “cidade”. A capela de São José bem destacada no alto de uma pequena colina, as duas ou três casas de venda e a padaria davam “ares metropolitanos” ao vilarejo.  E foi ali também, nas Escolas Reunidas Galdino Leocádio que minhas mãos trêmulas, conduzidas pelas mãos hábeis e firmes da professora dona Aída de Almeida, desenharam pela primeira vez as vogais e consoantes do meu nome.  

O arraial, agora com estrutura mais moderna, conserva ainda o charme de antanho. As casinhas, todas muito bem cuidadas, térreas e sem muros, dão para a calçada, e de suas janelas ainda surgem olhos furtivos espiando, desconfiados, o “estrangeiro” que chega.

No entanto, uma coisa sobre essa comunidade tem me incomodado bastante. Não sei por quê, mas na primeira metade do século passado, mudaram o nome do arraial. Bem à maneira provinciana dos coronéis daquele tempo, e talvez num exercício de bajulação, trocou-se o nome da vila de ‘Córrego Preto’ para ‘Vilas Boas’ com o fito de “lamber”, em vida, um ministro do STF. Antônio Vilas Boas, o magistrado que nasceu naquelas cercanias, morreu nonagenário em fins dos anos oitenta e, desdenhoso da homenagem recebida, jamais prestigiou seu povo com ao menos uma visita.

O pior é que eu, na minha inocência, gostava dessa denominação e pensava que, por a ‘vila ser boa’, resolveram denominá-la “Vilas Boas”. Na escola, entoávamos um hino que era mais ou menos assim: “Vilas Boas é uma cidade pequenina / Boa assim eu nunca vi / Tem um rio e uma igrejinha na colina / E crianças bem gentis. // Vilas Boas! Vilas Boas! Quem me dera lá voltar para morar, para morar! / Vilas Boas! Vilas Boas! Quem me dera lá voltar para ficar, para ficar!”

O meu pedacinho de chão continua sendo ‘Córrego Preto’. Para facilitar a expressão, uso “Corgo Preto”. E como os pioneiros córrego-pretanos’, prefiro a forma poética e ainda mais apocopada, que é Corpreto. 

Desconheço Vilas Boas, mas amo Corpreto!

FILIPE

quinta-feira, 7 de setembro de 2023

O IRMÃOZINHO SEXAGENÁRIO

 

Ele está completando sessenta anos neste sete de setembro! Não, não dá pra acreditar. Ainda o vejo menino, as bochechas gordinhas e rosadas, e as peraltices em casa e na escola onde ganhou o apelido de Cachorro Zangado após morder um colega briguento. Também arrastou pela infância a injusta fama de “rudo”, que para nós significava “aquele que não aprende”. Preocupado com isso, papai comprou para ele um remédio, de nome ‘memoriol’, para “torná-lo inteligente”. Eu me lembro do sabor daqueles comprimidões, que experimentei furtivamente.

Não bastasse a pecha de ‘rudo’, esse mano conviveu com a dolorida e ainda mais injusta fama de ‘preguiçoso’. Sobre essa suposta indisposição para o trabalho, aprontei uma da qual ele nunca esqueceu. Certa vez, estando nós dois na cozinha do avô Sebastião, decidi fazer uma provocação e disse: “Vovô, este seu neto diz que, quando crescer, vai ser fazendeiro!” A observação do meu avô veio na medida certa de meu maligno deleite: “Só se for um fazendeiro quebrado...” Isso deixou o meu irmãozinho tão desapontado, que não sei se seu aborrecimento estava mais fincado na minha pergunta ou na resposta do avô.

Meu Deus. Esse menino é extremamente trabalhador! Está sempre ocupado com alguma coisa, seja na casa dele, na casa dos pais, na sua comunidade... Onde quer que esteja, ele está laborando. Engenhoso, trabalha como pedreiro, pintor, eletricista, encanador, marceneiro e até serralheiro. Esse homem é um estouro! E quanto à sua inteligência... espere aí. São raras as pessoas dotadas de tamanha argúcia e sabedoria como ele. A pouca escolaridade não oblitera sua impressionante compreensão do mundo e da vida.

Conversar com este irmão é como passear pelos campos floridos da memória. A maneira singular com que reconstrói fatos já encardidos faz com que tudo fique novinho. É como se algo acontecido há décadas transmigrasse para ontem. E não apenas isso. Ele também tem sempre uma palavra salvadora para as mais difíceis situações que lhe são apresentadas. E o seu bom humor então?... Falar com esse mano é por demais prazeroso e não há como não dar risada de alguma coisa. Ele tem lá seus perrengues, que são muitos, e já teve grandes dissabores também, mas jamais choraminga as tristezas e toca a vida com uma leveza incomum.

Na infância, tive convivência difícil com este irmão e a culpa nunca foi dele, confesso envergonhado. Nossos conflitos começavam com uma implicância que sempre tive com as pessoas que me são próximas. Quem convive comigo sabe que sou um bicho esquisito. Uma espécie classificada por alguns como aquele de ‘gênio forte’, ‘temperamental’ ou ‘positivo’ – metáfora bamba para a palavra ‘malcriado’. Felizmente nem tudo se perdeu.

Aos meus irmãos mais velhos, deixo registrada aqui minha gratidão.  Isso por que esses, cada qual à sua maneira, apartaram minhas muitas brigas com o Irmãozinho. Para pôr fim às rinhas, da Mana Véia recebi sonoras e ardidas cabadas de vassoura; do Mano Véio, doídas bicudas – paga essa mais do que merecida. Além de estar feliz por externar aqui esse agradecimento aos irmãos mais velhos pelo justo corretivo, minha alegria se completa em poder homenagear o Irmãozinho pelo seu ‘sexagésimo’. 

Ah, esse irmão!... Bondade está ali, bem concentrada. Gente fina, educada, que sabe começar uma prosa, dar rumo nela e terminar com um quase aplauso do interlocutor. Mas estou aprendendo. Um dia, quem sabe quando eu crescer, talvez consiga um pouco daquela sabença.

FILIPE


sexta-feira, 25 de agosto de 2023

O 'VENTANIA'


 

Finalmente o Mano Véio apareceu por aqui. Sua presença luminosa foi também um vento forte, ruidoso e breve.  Mas ele é assim mesmo. De vez em quando deixa seu cantinho nas Gerais para fazer um pequeno passeio que inclui dezenas de visitas rápidas. Ele desentoca parentes distantes dos quais ninguém se lembra e os traz para a roda da família como se fossem próximos, quase irmãos.  

Não estava prevista essa sua visita. Contudo, obstinado que é, estando no Paraná e de volta para Minas, pegou um avião de Curitiba a Campinas e em pouco tempo aportou na rodoviária. Fomos buscá-lo naquela tarde. Estava animado, falando de suas realizações e de seus planos. Mas no dia seguinte, antes de clarear, ele já pegaria a estrada rumo a outros compromissos, que são sempre muitos.

Quinze minutos depois do encontro na rodoviária, chegamos em casa. “E aí, filipão... Então é aqui que você se esconde, né?...” Estava eufórico enquanto era conduzido às entranhas da casa. Na minha humilde biblioteca, divertiu-se abrindo armários, folheando livros, fazendo perguntas e atropelando respostas.

De volta à cozinha, um café estava a postos acompanhado de doces, queijo e pães. Frugal na mesa, tomou café sem açúcar, mas experimentou um doce e se surpreendeu ao saber que foi feito por mim. Gostou. Terminado o café, foi para a varanda rezar as Vésperas. Enquanto ele estava por lá, com a porta fechada para não ser incomodado, eu tirei a mesa do café e comecei a preparar o jantar – uma sopa. Sua oração foi rápida, porque minutos depois já estava falando ao celular, dando gargalhadas. De volta à cozinha e me vendo preparar a janta, bateu na barriga e disse que não jantaria, porque estava satisfeito, e já desceria para o quarto a fim de dormir. Tinha sono, precisava descansar para se levantar cedo. Continuei cortando legumes e preparando a panela para cozer aquela miscelânea, que ficaria boa se não fosse...

Terminado o preparo, pluguei a panela e fui cuidar de outras coisas. Ao voltar, vi que o tempo de cozimento terminou, mas eu não abriria a panela porque a pressão residual faz com que a cocção continue sem necessidade de gastar mais energia. O mano, que disse não ter fome, já estava com prato e colher na mão e de olho comprido no fogão. Perguntei se ele poderia esperar um pouco. Não podia. Tinha sono e queria comer logo; caso contrário, dispensaria. Tive então que apressar a abertura da panela e liberar o vapor, fazendo com que a sopa ficasse meio crocante – talvez crua mesmo. Não gostei, mas ele disse que estava boa e até repetiu.

Enquanto meu irmão tomava a sopa, devagar porque estava muito quente, ele teorizava sobre nosso pai. Segundo disse, papai teve três fases na vida, que deveriam ser registradas. A primeira deu-se quando ele era um jovem professor; a segunda foi quando papai estava com os filhos pequenos; finalmente, a terceira contempla nosso pai já velho e aposentado. Enquanto eu pensava nas ‘três fases’ paternas, ele retificou dizendo que não seriam três, mas quatro fases, e que eu deveria descrever isso em crônica. Eu disse que ele escreve bem e deveria pôr isso no papel. Mas não, ele não queria escrever. Eu é que teria de fazê-lo. Enquanto eu matutava sobre cada uma das fases da vida do papai, que foram três, depois quatro, o mano, que deixava a mesa de jantar, asseverou que a vida do papai deveria ser dividida não em três ou quatro, mas em cinco fases. Contudo, antes que ele me explicasse, não consegui segurar o riso, que saiu farto, e o Bom Mano desistiu desse roteiro biográfico do nosso Velho.

FILIPE

sexta-feira, 11 de agosto de 2023

MEU AVÔ SEBASTIÃO

 


A pedido do ‘irmão mais velho’, tento escrever algumas linhas sobre esse homem que, se estivesse vivo, completaria 120 anos neste 10 de agosto.

‘Vovô Bastião Lopes’, conforme chamávamos o nosso avô paterno, era um homem severo, de muita ação e poucas palavras. Sua voz metálica era usada apenas para abençoar os netos, dar algumas instruções a quem fosse trabalhar para ele e, no mais, para aboiar o gado. Sua propriedade constava de um sítio, com cerca de 100 hectares, além de um bom plantel de vacas leiteiras, novilhos e bois carreiros. Na sua casa, a primeira na região a ter geração própria de energia elétrica, havia um moinho d’água que produzia fubá para seu sustento e o da vizinhança.

Esse meu avô, que morreu pouco depois de completar setenta anos, teve uma vida de intenso trabalho, mas foi muito bem-sucedido em seus empreendimentos. Partindo do ‘zero’, ele conquistou um notável patrimônio. Meu pai sempre dizia que o sol nunca o surpreendeu na cama, porque vovô sempre se levantava aos primeiros clarões do dia.

Quituteiro dos bons, em sua casa o fogão era quase sempre dele. A refeição farta e repleta de frituras, variava de ovos fritos, torresmos, queijo frito e outros acepipes. Muitas vezes pude vê-lo ao fogão a lenha, cozinhando para uma turma que poderia chegar a uma dezena de trabalhadores. Terminado o almoço, vovô enchia uma série de caldeirõezinhos da seguinte forma: primeiro ele punha o angu, que forrava o fundo do caldeirão a fim de tampar eventuais buracos para a comida não escapar (um segredo das cozinheiras do meu tempo de roça); sobre essa “argamassa”, ia o feijão-preto que banhava com seu caldo espesso uma torre de arroz ladeada por batata-doce, carne, torresmo, abóbora, couve etc. A sobremesa também se fazia acompanhar: pedaços robustos de rapadura com soberbos nacos de queijo curado, que o próprio vovô fazia, iam numa vasilha à parte. Tudo aquilo era ajeitado numa grande cesta, que ele cobria com um pano branco e punha sobre o ombro para levar até o pasto onde seus companheiros roçavam. Sob a sombra confortável de uma árvore, cada homem pegava seu caldeirão, sentava-se sobre o cabo de sua foice ou numa munha macia de capim, tirava o chapéu e fazia ali a refeição. Enquanto a turma comia e proseava, meu avô pegava uma foice e dava continuidade ao serviço, roçando também. Terminada a refeição, vovô recolhia as vasilhas e voltava para casa a fim de dar sequência nos afazeres domésticos, que incluía uma tábua de queijos que ele fazia toda as tardes.

Mas aconteceu algo numa manhã ensolarada de dezembro, era domingo, quando eu festejava meu aniversário com um tio muito querido. Nesse dia havia muita gente na casa de meus avós maternos: meus irmãos, primos, tios etc. Então eu estava feliz e particularmente eufórico, porque esse meu tio prometeu que à noite teria baile. Eu nunca tinha ido a um baile... Mas uma tia interrompeu tudo quando chegou assustada com a notícia: “Menino, sabe não?... Seu avô morreu!”

Aquela festa, que não chegou a acontecer, ficou marcada e foi a última.

FILIPE

sábado, 29 de julho de 2023

IMPACIÊNCIA

 


Dia desses, decidi sair mais cedo para a caminhada com os cães. Na verdade, são eles que saem comigo, arrastando-me pelo bairro numa latição de tirar a paz até dos anjos.

Assim que alcançamos a rua, ajustei o fone de ouvido para ouvir mais um episódio da Rádio Novelo naquele começo de tarde ensolarada. Tudo ia bem até que alguém perturbou meu sossego. Um homem de bermuda, boné, porrete e celular ligado em som alto, que vinha em sentido contrário, parou e quis conversar. Eu não conseguia ouvi-lo por causa dos meus fones; já ele não me ouvia por que o som dele estava muito alto. Como reza a boa educação, desliguei meu aparelho; ele, no entanto, continuava barulhento, embora insistisse em conversar. Eu conheço aquela figura há anos, mas nunca soube seu nome.  

Eu tinha pressa. Queria continuar ouvindo meu podcast, precisava voltar pra terminar o almoço e tentei me despedir. Em vão foram meus planos, porque ele desligou o som, deu meia-volta e me acompanhou. Sem ter afinidade comigo e por uma brutal falta de assunto, começou a me fazer perguntas. Primeiro sobre a ex-namorada, que conheço de longa data, e depois entrou numa seara que sempre evito.

Quem me conhece, sabe: falo sobre política com raríssimas pessoas. Evito porque tenho opiniões bastante consolidas e esse assunto costuma foguear-me os ânimos. Mas como aquele homem queria conversar, ele falaria sobre qualquer coisa e arriscou a política. Desanimado com o país, resmungou suas frustrações e quis saber minha opinião. Já adiantei que, pelo jeito, ele é de direita e eu sou de esquerda. Dessa forma, seria melhor a gente mudar de assunto. Mas ele não queria mudar a pauta. Falando mal do atual governo, acrescentou que Haddad não sabe economia e não deveria ser ministro da Fazenda. Respondi que Haddad é jurista, tem doutorado em filosofia e é bom gestor. Ele se apressou a dizer que fez economia na PUC, tendo sido aluno de Fernando Henrique, Aloízio Mercadante e Paul Singer. Perguntei o que FHC foi fazer no curso de economia da PUC, sendo ele sociólogo da USP. Fernando Henrique, quando chegou do exílio, deu aulas de sociologia política na PUC – explicou.

Chegando a uma esquina, eu desceria à direita, como sempre faço, mas segui adiante. Pensei: ele vai desanimar e vai voltar. Que nada. Continuou me seguindo, me obrigando a percorrer o bairro inteiro. Os cães, alheios à minha aflição, bem que gostaram do prolongamento, embora um palmo de língua sinalizasse outra coisa. Nesse momento, ele me perguntou se eu não temia que o Brasil virasse uma Venezuela. De saco cheio, perdi as estribeiras e descarreguei:  “Você, um economista, acredita nessas coisas? Ah, tenha paciência!...Tem gente ignorante que acredita em terra plana... Mas você tem informação!” Ele se assustou com minha reação: “Calma! Estamos apenas conversando...” Quase pedi desculpas pelo meu destempero, mas fiquei quieto.

Passou o assunto Venezuela, ele trouxe a guerra da Ucrânia e disse que gosta mesmo é do Putin. Aquele, sim, é um homem de respeito, que defende os valores da família etc. Rebati, dizendo que Putin é horroroso e Zelensky irresponsável. Ele concordou com a segunda parte e mudou mais uma vez de assunto, agora elogiando os militares. Não deu certo de novo. Falei que alguns deles não conseguem sequer defender a própria honra, muito menos a pátria – e citei alguns nomes. Então ele tentou acertar as palavras, dizendo que ultimamente não temos militares como Castello Branco, Costa e Silva, Médici... Aí, tive de interrompê-lo antes que uma síncope cardíaca me apagasse. “Escuta aqui: você não conhece a história do Brasil?! Não sabe que essa ditadura militar foi das mais horríveis e covardes do continente?” Eu ia continuar, mas ele interveio: “Bom... Você é professor e eu não.” “Nada a ver. Sou formado em matemática, mas procuro conhecer a história do meu país. É preciso ler pra poder falar dessas coisas, senão fica sem referências. E você já disse lá atrás que parou de ler.”

O assunto não acabava nunca, mas a caminhada, sim. Apontei minha casa e ele me acompanhou até o portão. Eu já me despedia, sem convidá-lo pra entrar (coisa feia... acho que é a primeira vez que faço isso) quando ele quis saber a minha idade, não sei por quê. Então ele disse que pareço ser bem mais novo – embora não me convencesse disso. E sem que eu perguntasse, ele me falou que tem ‘sessenta e seis’. Retribuí a gentileza, dizendo que aparenta bem menos. “Está um garotão ainda!”, eu disse sem convicção.

Antes de ir embora, ele me pediu um ‘favor’. Perguntou se poderia dar um beijo nos cachorros. “Claro!”, respondi incrédulo.  Ele beijou a cabeça de cada cão, perguntou o nome deles e se foi.

Ao escrever estas linhas, já passados muitos dias daquele episódio, senti necessidade de reencontrar aquele senhor e lhe dar um abraço. E também pedir perdão pela minha impaciência.

FILIPE

sábado, 15 de julho de 2023

VEXAME VERDE-OLIVA

 


No começo desta semana, um militar teve de comparecer à CPI que investiga atos antidemocráticos. Até aí, normal, porque outros militares já deram depoimentos a diversas CPIs sem que algo de assombroso acontecesse.

Mas este depoimento chamou a atenção por um motivo inusitado, quase pitoresco. Um tenente-coronel do Exército compareceu à comissão inquiridora imponentemente fardado, com o peito estufado repleto de medalhas, insígnias e outras quinquilharias – não se sabe, mas talvez com intenções intimidativas. Chegando, tomou assento à mesa, impostou a voz e começou a ler numa folha de papel os seus “grandes feitos” pela pátria e por todos nós.  Depois, alegando direito ao silêncio conseguido via habeas corpus junto ao STF, permaneceu calado. Durantes aquelas muitas horas em que ficou sentado no “banquinho da disciplina”, ninguém conseguiu arrancar do sujeito, antes tão falastrão, ao menos uma interjeição. Uma situação no mínimo vexatória para ele e seus pares, gente que esbanja altivez e valentia perante os subordinados.

Não trago na alma ressentimentos aos fardados. Servi na ‘força terrestre’ durante dois anos e, embora ainda vivêssemos sob a tirania da malfadada ditadura militar, tenho boas lembranças da caserna. Recordo-me de que muitos de meus superiores nos tratavam com respeito e, não querendo forçar muito, eu diria que recebíamos um tratamento até carinhoso de alguns sargentos e oficiais. Prova disso é que o major, comandante da unidade, quando visitava os departamentos, cumprimentava cada soldado, chamando-o pelo nome. Esse tratamento eu já não tive em certas empresas cujos chefes eram, obviamente, civis. Alguns destes eram arrogantes, prepotentes e, na falta de melhor qualificativo, canalhas. Um gerente de uma grande loja onde trabalhei jamais falava com funcionários rasos e sequer lhes dava um bom-dia. Ele dizia às suas auxiliares, que eram as chefes de departamento, não suportar repositores. Eu era repositor.

Sobre os militares, há uma discussão quanto à necessidade ou não de uma força armada para garantir o ‘estado de direito’. Não tenho dúvidas sobre a necessidade de ao menos uma ‘guarda nacional’ armada e bem treinada para cuidar de nossas fronteiras e garantir a paz social. Todavia, essa instituição jamais poderia extrapolar suas funções, avançando sobre assuntos estranhos às suas atribuições constitucionais. Da mesma forma que um civil não pode entrar num quartel para comandar soldados, um militar não tem por que se meter em repartições públicas civis.  A famigerada escola cívico-militar é uma dessas gangrenas autoritárias que faz lembrar o histriônico Plínio Salgado com suas “galinhas verdes” (caso o raro leitor desconheça o assunto, sugiro pesquisar ‘integralismo’ no Google).

Voltando ao o episódio da semana, este foi para mim uma celebração. Ver um alto oficial das forças armadas que, suspeito de atentar contra a democracia, é repreendido por civis e obrigado a engolir calado sua bílis – tão verde quanto sua farda – torna-se um marco civilizatório para nós e um brinde às futuras gerações.

FILIPE

sábado, 1 de julho de 2023

NATUREZA SUBJUGADA


 

Não me canso de contemplar essa foto que traz as entranhas de uma árvore cujas raízes, humilhantemente expostas de ponta-cabeça, evocam um ‘cadáver insepulto’.

Fico imaginando quem foi a dona desse “corpo” e o que pressentiu quando dela se aproximou a motosserra. Claro que a desventurada árvore gostaria de sair em disparada “pelos vales e campinas” até que a tenham perdido de vista. Mas a natureza não lhe permite movimentos e ela teve de encarar a morte ali mesmo, heroicamente estática.

Que mal teria feito aquela árvore? Ela só faz o bem. Diariamente, quando adulta, uma única árvore pode transferir para a atmosfera mais de cem litros de água, que formam as nuvens. As matas são responsáveis pelo controle da temperatura e pelo ciclo das chuvas; sem elas, nosso planeta seria um deserto inóspito.

Tento fazer a minha parte. A nossa casa é literalmente abraçada por árvores, com mangueira, abacateiro e até amoreira acariciando o telhado. Se as calhas entopem ou se uma telha desliza, subo lá e tento consertar; se eu não conseguir, o Cido, que é mais corajoso (ou sem juízo...), resolve pra mim.

Um galho da mangueira já virou dormitório de um barulhento bem-te-vi, que sempre me dá bom-dia ao alvorecer. Tenho observado que esse “menino” traz para seus aposentos um pequeno lanche, que é uma frutinha verde e redonda. Ele a rói toda ou em parte, desprezando o caroço. No chão, bem embaixo da cama dele, fica sujeira. Por capricho ou preguiça de procurar um banheiro, o bem-te-vi suja pra eu limpar. Contudo, ainda fico orgulhoso desse amigo madrugador e porcalhão que me chama para contemplar o amanhecer.

Um pouco acima do bem-te-vi, numa parte mais alta do beiral, está uma grande caixa de marimbondos. Faz mais de ano que eles se mudaram para aquele lugar e de lá não sairão. Jamais vou incomodá-los, até porque são pacíficos e a prudência me aconselha a não provocá-los também, é claro.

No quintal as coisas estão um pouco complicadas. Pus no pé de manga-espada uma pequena caixa de madeira para os passarinhos. Mas o passarinho deu bobeira e quem a aproveitou foram as abelhas. A colmeia começou pequena, dentro da caixa, e depois cresceu e já tiveram de fazer um puxadinho para abrigar todo o clã. Mas preciso me entender melhor com essas aí, porque elas não são da paz. Anteontem, recebi uma bela fisgada na nuca, que não me foi nada agradável. Mas as abelhas podem ficar tranquilas, porque não as molestarei.  Todavia, um acordo teremos que fazer – talvez uma demarcação de território para que possamos viver em harmonia. Enquanto isso, vamos conversando.

Já com as pombinhas silvestres não teve acordo. Durante muito tempo, deixei que elas chocassem na minha varanda. Tudo ia muito bem, lindo e maravilhoso até que... uma multidão de piolhos invadiu minha casa! Foi uma coceira de tirar o sono, literalmente. Não destruí o ninho delas, mas terminada a última ninhada, não “renovei contrato” e fui além: obstruí o acesso às vigas sobre as quais nidificavam. Ainda ontem uma delas esteve me fazendo uma visitinha, como quem não quer nada, mas quer tudo. Fingi que a prosa não era comigo e ela se foi.

Não moro na floresta, mas bem que eu gostaria. Tenho minhas árvores e as prezo com prazer. No entanto, na redondeza há cada vez menos árvores. Se eu pudesse, deportaria para o deserto todos os predadores do meio ambiente, que seriam condenados a se abrigar sob rochas, caminhar sobre areia quente e conviver com animais peçonhentos, bem típicos daquelas regiões áridas. Isso porque o paraíso não é para todos, mas apenas para quem o preserva.

FILIPE