sexta-feira, 30 de maio de 2014

SEM INSPIRAÇÃO

         Sofro de uma síndrome que vez ou outra acomete cronistas de verdade. Monstros da nossa literatura contemporânea como Cony, Hatoum e Antônio Prata já comentaram sobre eventuais dificuldades em começar um texto. Faltando-lhes inspiração, a primeira frase não sai. Escreve-se algo ruim, que logo é substituído por coisa pior e o texto não flui. Adélia Prado confessou ter ficado “abstêmia” por cinco anos. Não conseguia ir além da primeira frase de um livro que escreveria e procurou tratamento. Então eu deveria ser internado, pois há mais de cinquenta anos que...

       Já que me falta assunto, falarei sobre qualquer coisa. Aproveito para despachar algum incauto, se por desventura aqui se aportou meio desprevenido, e aponto-lhe o caminho do Facebook. Lá as coisas são divertidas, embora eu não entenda nada daquela barafunda de imagens e palavras sob um cortinado azul. Não poucas vezes, uma solicitação de amizade é por mim preterida devido à inabilidade com o manuseio das ferramentas. E enquanto as massas se divertem naquela iluminada babel, adentro o gélido e sombrio porão de meus delírios a que frequentemente se torna este blog. Daqui, quero mirar o povo, não o do “feice”, mas o que está nas ruas a protestar.

O que querem esses desocupados berrando palavra de ordem como: “Não vai ter Copa”, se todos são fanáticos por futebol? Esse mesmo povinho já saiu às ruas para comemorar – quando se anunciou a indicação do Brasil como pais-sede – “com churrasco e cerveja”, conforme observou um cronista esportivo.

Penso que o povo deve ocupar ruas e praças celebrando ou protestando, mas é preciso que se tenha clareza do que se faz.  “Diretas Já” e “Fora, Collor” são episódios emblemáticos na história recente do país. Mas, “Não vai ter Copa”... Quanta burrice! Muitos daqueles boçais, que gritam por “mais escolas”, nem sequer gostam de estudar. A sua ignorância se acentua quando afirmam que o governo federal despejou bilhões na construção de estádios. Essa lorota vem de um maledicente grupo político que, por razões meramente eleiçoeiras, torce contra a Seleção, levando a reboque as incultas massas a torcer contra o Brasil.

Poucos sabem que a participação do governo federal nessa festança, embora alta, é inferior a quarto do total. Mais de 75 por cento, portanto, são de responsabilidade de governos estaduais e municipais, bancos, clubes e outros. A cota do governo federal – alvo da insana ira – é empregada em infraestrutura aeroportuária e de mobilidade urbana. Que mal há em fazer algo que melhore a vida do Zé, que passou a “andar de avião” e quer desfrutar de algum conforto?

 Sei que estou cansativo, mas encerro com mais provocação. Nesta terra, de Vera e Santa Cruz, temos o seguinte: quase 16 milhões de “desempregados”, que não querem trabalhar; em um milhão de vagas bancadas pelo Prouni em universidades, 30 por cento estão ociosas devido ao desinteresse de bolsistas; mais de 15 milhões de marmanjos, entre 15 e 29 anos, nem trabalham nem estudam, formando a tribo dos “Nem-Nem”. É pouco? Talvez. Mas por enfado ou preguiça, não quero continuar e fico por aqui. Hoje estou mal.


FILIPE

sexta-feira, 16 de maio de 2014

ZÉ BENTO


Morreu Zé Bento. Pobre, sem família e sem nada, habitava uma cadeira de rodas e morava num asilo. Partiu deixando a cadeira, mas de seu mesmo, apenas uma caixa de fósforos, um maço com alguns cigarros e o chapéu. Deixou também umas poucas e rotas roupas, que não despertarão o interesse de ninguém. A cama em que dormia já está à disposição de outro José, que não será Bento.

O anúncio na “pedra” foi curto: “Faleceu José Bento, filho de Maria de Jesus e de Cândido Bento. Era solteiro e deixa amigos”. Por desnecessidade, nada mais foi escrito. Começando pelo seu nome, o nome de seus pais e culminando com seu obituário, percebe-se que na vida de Zé Bento tudo foi diminuto.

Por muitos anos eu o vi em sua cadeira. Sempre em silêncio, parecia estar em permanente meditação. O chapéu de feltro, que às vezes lhe encobria os olhos, proporcionava-lhe certa elegância e algum conforto enquanto cochilava. Quando desperto, aqueles olhos tentavam, embalde, desvendar o horizonte para além da parede que o detinha.

Ele fumava, ou se esforçava para isso. Suas mãos, inchadas e tesas, mal conseguiam tirar do bolso o maço de cigarros. Vencida a primeira etapa, já com o maço na mão, a dificuldade só se fazia aumentar. Na tentativa de tirar um cigarro, dois ou três caíam. Posto na boca um, a etapa seguinte lhe seria sobre-humana: abrir a caixa de fósforos, pegar um palito, riscá-lo e acender o cigarro... Ah, Isso ele não conseguia fazer mesmo. Tanto não, que não era incomum vê-lo com o cigarro na boca à espera de alguém para que o acendesse.

Sempre que eu chegava, ainda que ele estivesse dormitando, ia lá e o cumprimentava. Despertado de seu cochilo, ele esboçava um sorriso e dizia sempre: “Sim, senhor!” Essa foi uma das poucas frases que dele ouvi.

O negro Zé Bento, que parecia ter emergido das páginas de Monteiro Lobato – um autêntico “Tio Barnabé” –, tinha os modos do velho camponês sem letras, sem palavras, sem ambição. Tal como seus ancestrais ainda do tempo do cativeiro, Zé Bento evocava a genuína figura, já quase extinta, do “preto velho”: terno, sereno, bonachão.

Morreu o homem com sua história e seu sorriso. Ao Zé Bento bastava-lhe a vida – que lhe foi dura, conquanto duradoura. Talvez quisesse ir além dos oitenta e cinco, mas havia uma parede a lhe ocultar o horizonte. E não há vida sem horizonte.

FILIPE


sexta-feira, 2 de maio de 2014

ODE À BANANEIRA



O título é banal, como banal é o cronista e seus escritos. Mas, após uma conversa com um amigo, não poderia deixar escapar a oportunidade de prestar um tributo à bananeira.

Não muito antigamente, qualquer casinha rural tinha um quintal onde se viam algumas árvores e uma pequena e providencial moita de bananeiras. Além de sombra e frutos, a bananeira oferecia confortável privacidade ao camponês em horas apertadas, ou seja, quando ele precisava “amarrar o gato” – espero fazer-me entender sem mais explicações. Não gostaria de entrar em detalhes da vida campesina, mas o citadino leitor não pode ficar desinformado e saberá o quão importante fora aquele matinho para a população rural do passado.

Por outra razão, de uns tempos para cá cismei de querer plantar bananeiras. Banheiro não me tem faltado – para as minhas necessidades, o que tenho dá com sobra. O que não me sobra é tempo de vida para ver crescer uma mangueira, abacateiro ou outra árvore frutífera de caule lenhoso. Algumas dessas costumam levar décadas para que se tornem adultas “de respeito”. Já uma bananeira cresce rápido. Planta-se hoje e com poucos meses já está parindo um lindo coração, que nasce roxo e se arregala mostrando suas infrutescências, culminando em cobiçado cacho de bananas. E que mais tarde se tornam amarelas que nem gema d’ovo, e tão doces feito melado de rapadura. Nem precisa envelhecer para ver crescer e frutificar um pé de banana, pois é tudo muito rápido. Que maravilha!

Nesses tempos de racionamento, de torneiras secas, seria oportuna uma campanha institucional em todas as mídias sobre plantação de bananeiras. Nos tempos antigos da roça, sem banheiro, nenhuma gota d’água era desperdiçada com a descarga do monturo. A coisa ficava ali, embaixo das bananeiras, até que uma galinha, em seu rotineiro passeio e sem muito que fazer, dava de encontro com o banquete. Por vezes, era o porquinho que chegava expulsando a penosa e papando tudo em duas ou três bocadas, dependendo, é claro, da fartura. E, numa piscadela, tudo ficava limpinho e pronto para o próximo da fila.

Quando falo da serventia de uma bananeira, não brinco. Falo sério, e D. Pedro I, aquele que nos deu a Independência, não me desautorizaria. Por ocasião do famoso “Grito”, contam os historiadores, o Imperador estava mal das tripas. De vez em quando parava a tropa, e seus auxiliares formavam uma parede humana no seu entorno para escondê-lo durante o serviço. Também Stalin, o todo-poderoso líder russo, passou por apertos e usou de expediente semelhante ao do português Pedrinho. Caso houvesse bananeiras por perto...

Um amigo, durante caminhada pela cidade, viu-se em apuros. Apressou o passo para chegar à sua casa, mas a coisa só piorava e o jeito foi entrar num boteco. Chegando, foi direto ao banheiro, mas aquilo era só mictório. Não havendo vaso sanitário, olhou para os lados, e nada. Já “em chamas”, viu num canto um balde com um pouco de água e um pano, que a faxineira teria deixado ali para depois terminar a limpeza. Beleza! Foi no balde mesmo. Ele não me contou, mas acho que o pano também lhe serviu. Embora aliviado, saiu de fininho e vazou ligeiro, pois a mulher o aguardava impaciente, querendo terminar o serviço.

Não disse que uma bananeira faz falta?! 

FILIPE                                                                                 

sexta-feira, 18 de abril de 2014

CORPO FECHADO



Estava disposto a postar um texto menos sóbrio, debochado até, mas não me pareceu conveniente num dia como este. A Sexta-Feira Santa já foi, na devoção popular, o mais santo dos dias santificados. As mulheres não varriam casa, crianças não podiam gritar, os homens faziam jejum e não se falavam palavrões. Bem diferente de hoje, pois até os botecos, que naquele tempo ficavam fechados, estão cheios de gente tomando cachaça e comendo torresmo. Também há, por estas bandas, um estranho evento denominado “Fecha-corpo”. Multidões se dirigem a um alambique para tomar a tradicional pinguinha com poderes de dar proteção ao “devoto” ao longo do ano, desde que tomada nesta sexta-feira da Paixão. Não se sabe se, além do corpo, a tal pinga protege a alma, mas a fila é longa. Quase tão longa quanto a famosa procissão que, na tarde deste dia, soleniza a Paixão.
Particularmente, não costumo acompanhar procissões. Incomoda-me tanto a multidão como a lentidão de seus passos. Prefiro ficar ensimesmado noutro lugar, mas não no boteco e muito menos no alambique do “Fecha-corpo”. Contudo, devo confessar ao raro leitor, já aprontei das minhas em tão sagrado dia, e meu crime permanece sem expiação.
Na idade de uns treze anos, adquiri uma espingarda com a qual eu costumava disparar contra uma tábua, praticando aquilo que se denomina “tiro ao alvo”. Mas o alvo estava sempre fora do lugar, e isso fazia com que pessoas maldosas dissessem que eu era fraco na pontaria. Certo dia, pedi a meu pai autorização para dar um susto num touro do vizinho que invadia nosso roçado. Seria apenas uma “brincadeirinha”, e eu municiaria a arma com grãos de arroz ou feijão, em vez de chumbo. O velho sorriu zombeteiro duvidando do poder de fogo de meu “AR-15”. “Essa espingardinha não presta!”, foi a senha que eu esperava. Papai não autorizara expressamente, mas eu me vi livre para exercer o cívico dever de defender nossa lavoura de tão nefasto inimigo, o touro. Para tanto, usaria munição real, chumbo.
 Antes de partir para a “cruzada”, testei a “cuspideira” mandando várias cargas naquela tábua. Aprovado seu desempenho, marchei reto e firme para o “campo de batalha” confiando, como nunca, no poder de fogo de minha bazuca. Chegando, vi o danado em franca atividade comendo sofregamente nossas espigas. Olhou-me frio, sacudiu desdenhosamente a cabeça e continuou sua refeição. Mirei seu peito e puxei o gatilho. Nada! Puxei mais uma, duas, três vezes e nada! Observei que o dispositivo onde se encaixa a espoleta quebrara, impedindo a detonação. Humilhado, recolhi a arma e me retirei. O touro, por alguma razão, deixou-se conduzir pacificamente para o sítio em que morava.
Tento, à minha maneira, nunca julgar os “hereges” do “Fecha-corpo”, nem os pinguços dos botecos. Nunca bebi cachaça na Paixão e nem gosto de pinga por achá-la insuportável, embora na minha incipiente juventude eu tenha tomado um ou dois porres dessa malvada. Caso me anime, descreverei esses arroubos noutra oportunidade.
Sei que errei e aqui me penitencio desta nefanda culpa. Vendi a espingarda tempos depois e nunca mais atentei contra a vida de animais, nem de ninguém. Mas aquele touro tinha o corpo fechado. Ah, se tinha...
FILIPE           

sexta-feira, 4 de abril de 2014

PETROBRÁS


Não me sinto autorizado a dar palpites na vida política de meu país, seja pela minha crônica ignorância ou pela ignorância de minhas crônicas. Mas, como na democracia o direito mais palpável é o de resmungar, continuo resmungão. O agastado leitor, se ainda o tenho por aqui, poderá se descansar de mim. Sua página do facebook o espera novidadeira e é pra lá que deve ir, pois aqui é só pedreira e não pretendo ser breve.

Nos últimos dias a nação foi assaltada pela notícia de que Dilma Rousseff autorizara a compra de uma refinaria americana por preço aviltante, fato acontecido há seis longos anos. A aquisição foi homologada pelo Conselho de Administração da Petrobrás por ela presidido. Para este estulto que vos fala, se é verdadeira a história, falta-lhe um pedaço. Por exemplo:

1) Por que não divulgaram esse escândalo em 2008? Não, eu sei que não tem nada a ver com o favoritismo de Dilma nas eleições de outubro deste ano, mas por que somente agora?

2) Como em qualquer conselho as decisões são colegiadas, isto é, todos devem votar, por que imputar a culpa apenas na presidência?

3) Aquele conselho era composto por nove doutores, todos gabaritados e regiamente pagos para exercer dignamente a função. Como poderiam cometer erro tão primário?

4) Além daquele conselho, a Petrobrás conta com outras instâncias pelas quais passam as decisões a serem tomadas. Qual o papel desempenhado por essas comissões?

5) A Petrobrás é empresa de capital aberto, com operações na bolsa. Quem eram os representantes dos acionistas e o que fizeram para protegê-los?

6) Por que a imprensa parece esconder que, além de Dilma, o dono da Gerdau (megaempresa siderúrgica) e o presidente da editora Abril (da revista Veja) eram membros do conselho?

7) Por que a imprensa não propõe quebra de sigilo de todos os envolvidos em escândalos como este da Petrobrás, mas também do Metrô (Alckmin), privatizações (FHC) etc.?

8) Por que não se propõe  uma comissão de notáveis para investigar, julgar e condenar toda essa camarilha? Recrutar-se-iam pessoas de bem na sociedade civil, ou... em Marte.

9) Por que, desde sempre, o PSDB barra CPIs onde governa, mas insiste em futricar governos adversários?

10) Por que o PT, pródigo em assanhar com CPIs o galinheiro alheio, arruma agora todo esse alvoroço em defesa de suas  galinhas?

                Nas atuais circunstâncias, Dilma nem precisa da oposição, pois seu partido lhe presta um ótimo serviço. Pois é, o PT está se tornando um partido como os outros. Uma pena!

OBS.: Pela nossa ortografia, Petrobrás sempre teve acento, mas FHC mandou excluí-lo. Para isso, só uns poucos milhões de reais foram gastos na burocracia.  Que feio, hein Fernandinho!

FILIPE

sexta-feira, 21 de março de 2014

ÁGUA



O Sudeste vai virar deserto? Decerto que não, mas os nordestinos estão em melhor sorte do que os “sudestinos”, pelo menos em números pluviométricos.  No Nordeste tem chovido mais que no Sudeste, e isso tem afetado humores e planos de políticos paulistas. O governador do estado, que gosta de se apresentar como médico, mas do ofício deve ter aprendido apenas a aplicar injeção – vira e mexe está ele na TV com uma agulha espetada em alguém –, anda em apuros. Sem a colaboração de São Pedro, seu melhor “cabo eleitoral”, sua “re-re-re-eleição” poderá ir para o ralo. Sem água em casa, o eleitor dificilmente votará num grupo – há duas décadas encastelado no poder estadual – que não investiu um vintém em infraestrutura hídrica para seu povo. É esperar para ver, mas nem sei se quero mesmo que chova este ano, sabe?... Xô, Geraldo Agulha!

Nunca desperdicei água e nem outra coisa nesta vida que Deus me emprestou. “Econômico” poderia até ser um de meus sobrenomes, pois costumo ser bastante ponderado nos gastos. Não frequento shoppings, leio jornal alheio e evito ir ao cabeleireiro. Talvez isso tenha me proporcionado algumas frustrações amorosas pela vida, que já se alonga. A julgar pelo que ouvi recentemente de um irmão... Com inesperado exagero, ele disse que meu cabelo está tão mal cortado, que parece ter sido aparado a facão. Assim não vale, mano!

Mas, voltando à economia de água, quero registrar um fato pitoresco. Certa vez, decidi reaproveitar toda a água utilizada em casa. Naquela ocasião, um amigo, que costuma me acompanhar nestas mal traçadas, viera me visitar. Expliquei a ele que eu estava usando toda a água da lavação de verduras na rega de plantas etc. Ele aprovou maravilhado. Disse-lhe também que a sobra dessa água era armazenada nuns baldes para lavar a área e outras partes cimentadas do quintal. Gostou, tornando-se ainda mais encantado. Eu ia me animando com o que lhe dizia, pois ele me parecia cada vez mais entusiasmado. Mas... “Pra que aquela bacia embaixo do chuveiro?” – perguntou-me entre curioso e irritado. “Ah, eu me esqueci de avisar. É que o banho deverá ser tomado assim: você pisa dentro da bacia, abre o chuveiro e toma seu banho normalmente. Após terminar, despeja a água da bacia naquele balde que está lá dentro. Assim, quando você fizer “aquelas coisas”, aproveita a água do banho para a descarga na privada!”.

Custei pra perceber, mas o silêncio do amigo, desta vez me olhando fundo, não era mais de admiração. “Não, assim já é demais! Economia tem limite. O que você faz com a água da pia da cozinha, tá certo. Mas... Tira aquela bacia de lá, pois assim eu nem tomo banho! Pra mim, você tá doido!”. Tentei disfarçar minha vergonha diante do amigo e retirei balde e bacia do banheiro, para nunca mais voltar com eles pra lá.

Mas, pensando bem, e se começar faltar água?... Será que custa caro um balde? Ainda há bacias nos armazéns? Preciso ver essas coisas...

FILIPE

sexta-feira, 7 de março de 2014

PLIM PLIM


Eles desde sempre estiveram na lista da Forbes. Mas o que significa “estar na lista da Forbes”? O que é a lista da Forbes? Ninguém se interessava por tal ranking até que um indivíduo falastrão, de nome “Aique” (assim se pronuncia por exigência do próprio), apareceu ranqueado como o homem mais rico do Brasil. Esse cidadão, pra lá de brega, chegou a expor um carro de luxo em sua sala de visitas como se fosse uma árvore de natal. Era “apenas” o oitavo no mundo, mas, de repente, ficou pobre. Pobre assim como nós. Com a diferença de que, embora ostente lá seus milhões, ele deve. Deve..., que dá tristeza na gente. Morro de dó, e tenho até vontade de promover uma vaquinha pro seu lanche da tarde. Uma pena, pois dizia sempre que seu sonho era tornar-se o homem mais rico do planeta.

Mas a família mais poderosa do país não é a do cervejeiro que está no topo. Nem a de banqueiros, que têm “banco cativo” naquela revista.  Essa família começou a fazer fortuna no regime militar, beneficiando-se dele para construir um império com centenas de emissoras de rádio e televisão. Quando a “nau golpista” apresentou furos no casco, embarcou nas “diretas já”. A partir daí, continuou agindo subterraneamente para proteger seus apaniguados em todas as esferas da República. Quando o patriarca bateu as botas, seus órfãos não ficaram na miséria. Agora a tríade herdeira é dona de uma bagatela estimada em 27,3 bilhões de dólares. Entre seus inúmeros negócios, está a participação em telefonia móvel como sócios da Vivo. Para se ter uma ideia de quão rendoso é tal empreendimento, o segundo homem mais rico do mundo é dono da Claro.

Mas o que significam 27,3 bilhões de dólares? – Quase nada. Mas daria para comprar, com folga, todos os imóveis residenciais de Juiz de Fora (meio milhão de habitantes) e tornar os juiz-foranos – absolutamente todos, sem exceção do meu amigo – inquilinos “globais”. É pouco? Ainda mais: com essa quantia, usando cédulas de cem reais, poderia ser construído um cinturão capaz de dar duas voltas e meia em torno da Terra na Linha do Equador. 

Um dos textos litúrgicos desta semana não deixa dúvidas: “É mais fácil um camelo passar pelo fundo de uma agulha do que um rico entrar no Reino dos Céus”. Longe, mas muito longe de eu desejar o inferno para esses aí em cima, ou para outros que me fogem à lembrança no momento, desejo o céu para todos. E como desejo!  Sei que Deus não manda ninguém para as “labaredas eternas”, e seus inquilinos são todos uns “esforçados”. Deus respeita nossas escolhas, embora as lamente sempre. Mas, com inferno ou sem inferno, fico pensando: seria possível alguém acumular tanta riqueza honestamente? Claro que não. Já escrevi sobre isso e não quero me alongar, mas repito: são todos ladrões.

Então, antes de ligar seu televisor para assistir ao J.N., pense nas “verdades” que ouvirá proferidas pelo âncora. Talvez ele não diga, mas seus patrões estão em débito com o Fisco. Aquela tríade contesta na Justiça e não quer pagar uma diferença de “apenas” um bilhão de reais. Ou dois bilhões, conforme afirmam pessoas maldosas e fofoqueiras. Isso é nada perante um patrimônio de 70 bilhões de reais.

Reflita comigo: se você não pagar o IPTU, vai morar embaixo do viaduto, certo? Se não pagar o IPVA, andará a pé, de acordo? Mas... E a família Plim Plim?...
FILIPE