sexta-feira, 30 de março de 2018

MISTÉRIOS


A imagem que ilustra esta crônica pareceu-me intrigante. Antes que o leitor escorregue distraidamente pela página, sugiro que volte os olhos para a foto e tente decifrá-la. O que está ali?... Após examiná-la, continue a leitura. Ao final deste “tobogã”, outra imagem o aguarda para fechamento do texto.

Confesso ao ‘ausente leitor’ minha dificuldade para acreditar em milagres, que acontecem, mas sem estardalhaços. A tecnologia, por exemplo, é um milagre do engenho humano – apesar da horrorosa ‘tomada de três pinos’! A tríade (vida, morte e ressurreição) é o mais sublime dos milagres – obra-prima do Criador. Mas há outros ‘sinais’ que nos inquietam cotidianamente.

A história é a seguinte. Uma amiga, freira por mais de trinta anos e a quem chamo carinhosamente de ‘Irmãzinha’, deixou o convento. Houve desentendimentos com a “chefia”, dos quais não tenho ciência, mas dou “carradas de razão” à amiga, que não se ocupa de outra coisa senão rezar e fazer o bem. Eis uma autêntica ‘irmã de caridade’, conforme nomeavam-se as freiras nos tempos antigos.

Essa amiga, ao sair do mosteiro e sob o risco de virar uma sem-teto, foi acolhida pela Diocese. Ajeitaram para ela uma casinha ao lado de uma capela abandonada, da qual tornou-se zeladora. Mas, quando da entronização do Santíssimo e não havendo aquela ‘vigilante’ lâmpada conforme manda a tradição, a religiosa acendeu uma ‘vela de sete dias’, que se tornou a ‘sentinela’ do Altíssimo por um tempo. A vela derreteu, transbordou e formou no mármore a imagem que encima este texto. Por ceticismo, insensibilidade, ignorância ou até mesmo sabedoria, alguém poderá descartar qualquer interpretação que transcenda a materialidade daquela cera. Com ou sem ‘delírios místicos’, o leitor tire suas conclusões ao final da leitura.

Comigo já aconteceu algo bastante curioso, que escrevi aqui há tempos. Quando criança, um boi invadia o nosso roçado para comer as espigas de milho. Eu o expulsava, mas ele voltava. Então peguei a espingarda, caprichei no carregamento e mirei o bicho. Era Sexta-feira Santa e, por sorte nossa, mais minha do que do boi, a espingarda quebrou e o tiro não saiu. Mas há outra história ainda mais interessante do que essa.

Era uma também uma Sexta-feira Santa – de jejum e abstinência. Embora meu pai sempre cumprisse e nos recomendasse a observância das normas doutrinais, sempre vacilei nesses preceitos. Mas naquele dia eu estava jejuando. Na hora do almoço, foi-me oferecida uma bacalhoada, que recusei sem muita convicção. Houve insistência. Resisti. “Não é pecado! Coma, vai...”  “Hoje não!”, repliquei quase cedendo. De repente, misteriosamente, o prato espatifou-se no chão, ficando na mão apenas a parte em que os dedos seguravam. Uma massa de cacos, molho, batatas e bacalhau confundiu-me mente e espírito, e eu nunca me esquecerei daquilo.

Mas os grandes sinais são sutis, e sua beleza não se vê com os olhos carnais. Para enxergá-los, é preciso ter a fé dos simples, a fé da Irmãzinha.

Abaixo está a foto do sacrário onde repousam as Espécies Sagradas. A vigilante vela se desfez e esculpiu a imagem que, sem esforço de imaginação, remete à asa de um dos guardiães que adornam o tabernáculo.

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FILIPE

sexta-feira, 16 de março de 2018

A IRMÃ MAIS VELHA


Escrever sobre a “Irmã mais velha” exige tempo, zelo, memória e o talento de um escritor que não sou. Ouso, contudo, pôr nesta página pequenos retalhos da vida dessa singular figura, que não teve uma infância ajardinada e multicolorida como toda criança deveria ter.

Muito cedo, ela teve de assumir compromissos domésticos – ao suceder à mãe impossibilitada pela enfermidade –, começando a fazer nossa comida, lavar as roupas, cuidar da casa e dos irmãozinhos. Por ser ainda tão pequenina, não conseguia alcançar as panelas sobre o fogão, também pequeno. Então, meu pai teve de improvisar, pondo um caixote de madeira para que nele subisse e pudesse manusear conchas e escumadeiras.

A nova cozinheira trouxe-nos conforto, oferecendo-nos refeições nas horas devidas, mas a menina custou a se organizar, atrapalhada que ficava com o serviço se avolumando cada vez mais. De manhã, quando papai se levantava para fazer o café, ainda havia vasilhas no fogão para serem lavadas. O pai ficava confuso, pois era “louça” para todo lado. Eu disse louça, mas eram panelas de ferro e pratos esmaltados. Naquele tempo, porcelana se achava apenas nas cristaleiras dos vizinhos abastados.

Mas papai foi orientando a filha, ensinando-a aos poucos. Na cozinha, havia uma mesa onde ficavam pratos, panelas e outros utensílios prontos para serem usados. Então papai sugeriu: “Filha, vou lhe passar um programa. Assim que uma panela for usada e você não puder lavá-la naquele momento, ponha-a debaixo da mesa, para que não atrapalhe o serviço. Quando puder, lave-a e a coloque junto às demais. Este deve ser seu ‘programa’ a partir de hoje”. O irmão mais velho, rapazinho muito trabalhador, mas sapeca à beça, provocava a irmã: “Olha o ‘programa’ debaixo da mesa!”, dizia às gargalhadas, apontado o dedo para as panelas sujas, deixando a coitadinha por demais furiosa.

Embora frágil na aparência e de saúde delicada, essa irmã nos surpreendeu. Em pouco tempo, aprendeu o ofício, tornando-se uma cozinheira de mão-cheia, mas não só. Foi arrumadeira, costureira, educadora, e uma segunda mãe para todos os irmãos, especialmente para os mais novos. Lembro-me de que, ao anoitecer, ela punha água morna numa bacia e banhava cada pequerrucho, enfileirando-os sentadinhos sobre um banco de madeira. Assim, após enxugar cada um, ela os vestia e os punha na cama para dormir.

É, a nossa vida naquele tempo não foi fácil. Certa vez, quando eu tinha oito anos, papai me pediu para que, na volta da escola, trouxesse dois pãezinhos para minha irmã, que estava adoentada. Um parêntese: pão lá em casa era artigo de luxo, que raramente podíamos comprar. Então, após as aulas, fui à padaria comprar os dois pãezinhos. Era bem de tardinha, quase anoitecendo e eu estava com uma fome danada. O cheiro do pão fresco aguçava ainda mais meu apetite e não resisti. Comecei a roer o pãozinho da mana ao percorrer a longa estrada até a casa. Fui pegando de mansinho e furtivamente um pedacinho do miolo, depois mais um pedacinho e mais um pedacinho. Ao chegar em casa, sem que eu percebesse, os pães tornaram-se dois canudos, sobrando deles apenas a casca. A irmã, naturalmente, não gostou e foi reclamar com o pai. Fiquei preocupado com a bronca, que certamente receberia. Mas não. O velho calou-se numa sofrida impotência por não conseguir comprar um simples pão para cada um dos filhos.

Essa irmã, guardiã dos pais e acervo da memória da família, reverencio genuflexo.

FILIPE

sexta-feira, 2 de março de 2018

COISAS DA JUVENTUDE


Ele não estava na sala quando cheguei, onde sempre o encontro nas tardes de sexta-feira. O neto me disse com voz ‘aguada’: “O vô tá no quarto, professor! Voô! Vooooô!”. Chamava o avô, caminhando a passos bambos e seguido por mim até ele.

No quarto abafado, sobre uma cama-box sem lençol, estava o velho. Sem camisa, o suor escorria sobre seu dorso, que brilhava. O quarto pequeno, sem móveis, parecia amplo, enorme até. Na parede, uma foto de seu casamento, e na soleira do vitrô, um anjo. Não havia guarda-roupa porque as roupas, sendo-lhe escassas, cabem todas na gaveta da cama. Pedi um pano para lhe enxugar o rosto, mas o rapaz não sabia onde tinha pano. “Mãe, onde tem pano?”, gritou. “Pegue um papel mesmo”, pedi. “Aqui, o papel e o pano... Toma! Se precisar de mais coisa é só falar!” Saiu. Segundos depois, voltou: “Se precisar, é só chamar... Taaá, professor?”

Deitado no colchão, o homem estava inquieto, abrindo e fechando os olhos, num sono perturbado. Tinha diarreia e sua bermuda estava molhada. “Não é xixi, professor... É suor mesmo”, disse o moço numa de suas entradas súbitas e frequentes. E com a voz cada vez mais rala, emendou: “Não é negligência, professor. Eu cuido bem dele, taaaaá?!”, e saiu de cambaleio.

Havia moscas, muitas, que não me davam sossego, mas o velho parecia não se importar com elas. Penetravam-lhe as narinas, a boca, sugando-lhe a saliva, o suor, o ânimo. Vez ou outra, num espasmo trêmulo, reagia. Mas a mão, lenta demais, não as ameaçava.

O ar quente, espesso, tornava-se mais denso e irrespirável com um forte e estranho cheiro. Lá fora, uns jovens folgavam, bebendo, fumando, jogando cartas e “queimando um matinho”. Entre eles, uma moça e o filho de quatro anos, que brincava com uma pequena matilha de cinco cães.

Defronte à rua, sentada na soleira da porta da sala, a dona da casa era uma mulher triste. Obesa e doente, tem que cuidar do pai, do filho, dos cães, de tudo.

O velho, agora desperto, chama o neto com vigor. Pensei que fosse repreender o ‘borracho’, mas não. “O que quer, vô?...” “Compra um guaraná!” “Cadê o dinheiro?” “Tá aí, na carteira.” “Mãe, mãaaae, onde tá o dinheiro do vooô?” “Eu sei lá, menino!” “Professor, não liga não. O vô é só meu... Só eu cuido dele e muito bem! Não é negligência, não. Ele tá molhado, mas não é de xixi. Ele tá com diarreia, mas não é culpa minha, taaá?” Saiu do quarto e voltou. “Vou fechar a porta porque os cães vão entrar e atrapalhar, tá?  Dá liceeeença!” Foi-se e voltou para a mesa de jogo. “Cês tão me roubando, né?! Eu não permito, não gosto de ser roubado. Nem no jogo, nem em nada. Não goooosto!” “Para de gritar!”, interveio a mãe. “Mãe, eu não tô gritando, sou fino. Não é, amigos?... Sou finoooo!” “Não vejo ninguém fino aí”, retrucou a matriarca.

Suado, terminei de fazer a barba do amigo e sai. Passei pela mulher, que continuava na porta da casa, tomando a fresca. “Desculpa, professor. Meu menino tomou uma cerveja e meio alterado” “Coisa da juventude”, eu disse já saindo e passando a mão na testa para afastar o suor. Nisto, uma moto chega e para. Um homem tatuado, “tipo mano”, passa sem dizer palavra e afunda casa adentro. A mulher apenas observa. “Coisa de jovens”, ela deve ter pensado.

Saí e lá deixei aquela sofrida figura. Continuou sentada, olhando a rua, sobrepesada com o lento e amargo arrastar das horas.

FILIPE

sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

O CENTENÁRIO DE AURÉLIO


Aurélio de Moura, meu saudoso avô materno, teria feito cem anos no último dia 12 de fevereiro. De vida frugal, sofrida e solitária, vovô foi um homem doente, e por diversas vezes levado ao Colônia – um hospital psiquiátrico em Barbacena tristemente retratado no livro “Holocausto Brasileiro”, de Daniela Arbex . Quando internado, trabalhou duro cortando lenha, dando banho em pacientes e ajudando a pôr cadáveres em caminhões – que chegavam a dezenas por dia. Naquele tempo, havia por lá as abomináveis sessões de eletrochoque e, segundo diziam, um temível “chá da meia-noite”. Sobrevivendo aos choques e sem tomar o “chá”, vovô sempre voltava do Colônia mais gordo, de cabeça raspada e queimado de sol. Lacônico, guardava para si as muitas histórias daquele ‘manicômio’.

Uma sutil mudança de comportamento indicava a fragilização psíquica de meu avô. Começava insone, perambulando pela casa ao lume de uma lamparina; depois, punha uns óculos de sol e saía pelas redondezas, fazendo rápidas visitas, distribuindo terços. O homem, antes caseiro e taciturno, tornava-se ‘andarilho e falante’. Era chegado, então, o momento da internação. Criança ainda, acompanhei de perto algumas de suas dores como essas, mas também o drama sentimental vivido com o fim do casamento.

Certa vez, minha avó decidiu voltar ao antigo lar para uma visita. Vovô morava na companhia de um filho e, sabendo da novidade, ficou animado. Foi à vendinha, comprou “quitandas” e fez um café bem caprichado para a ‘amada’. Na sala, uma bem-comportada vovó permaneceu solene, como convém a uma visita distinta. Levei o bule com o café para ela enquanto ele ficou por ali ‘meio escondido’, pensando na vida, mas satisfeito. Eles não se encontraram, infelizmente.

Vovô era um homem sem vaidade. Andava descalço, as calças um pouco arregaçadas e, nos rigores do inverno, usava um paletó escuro.  Gostava de ficar em casa, saindo apenas para buscar água na fonte ou para fazer pequenas compras. Homem piedoso, rezava o terço frequentemente. Ao se aposentar, teve certa dignidade, podendo fazer suas caridades. Mas sempre que pegava o ordenado, passava primeiramente na igreja e deixava lá o seu dízimo.

Arredio, nunca me lembro de meu avô sentado à mesa, participando conosco de uma refeição ou de um bate-papo. Estava sempre de passagem, chegando ou saindo. No almoço ou no jantar, pegava seu pratinho de comida e se escondia num canto. Terminada a refeição, sumia. Ia dar água aos porquinhos, milho às galinhas, recolher ovos etc.

Crianças, certa vez, fomos dormir na casa dos avós. Era tarde e tagarelávamos, incomodando o vovô. Irritado, ele contou esta história: “Havia uns meninos desobedientes, que não respeitavam ninguém. E numa dessas ‘desobediências’, eles saíram para um passeio no mato. Nisto, apareceu um homem com uma capa preta, que foi se aproximando. Quanto mais se aproximava, maior ficava aquela ‘criatura’. Quando chegou bem perto, ele se agachou sobre as crianças, cobrindo-as com a capa. Embaixo da capa ficou tão escuro, que elas não conseguiam sair dali. Então começaram a rezar até que os pais chegaram e as libertaram. Somente depois souberam que aquele ‘ser’ era o diabo”. Depois disso eu não dormi, mas o avô ficou em paz.

Já adulto, novamente pernoitando em sua casa, havia por lá uma irmã dele bem idosa e meio ‘gagá’, falando sem parar. Então vovô disse: “É, comadre, estamos numa fila. Você vai na minha frente, mas logo eu vou também. Todo mundo está nesta fila e ninguém escapa”. Tempos depois, a ‘comadre’ partiu; mais um tempo, partiu meu avô. Eu continuo na fila...

FILIPE

sexta-feira, 2 de fevereiro de 2018

A VELHA ESCOLA



Voltei lá. Desci pelo corredor lateral junto às ruínas do que fora um muro de pedras e por onde entrei pela primeira vez há exatos cinquenta anos. Do outro lado do agora inexistente muro, está o que sobrou da farmácia do Sr. José dos Santos – uma das construções mais antigas do arraial. Logo abaixo, antes de chegar ao pátio da antiga escola, havia um enorme abacateiro que ‘se divertia’, espatifando displicentemente seus frutos no chão, exibindo vigorosa semente marrom-clara. Alguns moleques faziam graça, subindo na árvore, mas o abacateiro, certa vez, resolveu livrar-se de um daqueles intrusos. O galho que sustentava o garoto despegou-se, estatelando no chão duro o desafortunado pivete.

Também estive no antigo pátio, onde as meninas brincavam de queimada e os meninos, de ‘garrafão’ – uma espécie de pega-pega meio violento. Nessa brincadeira, quem era pego levava uns cascudos ‘para deixar de ser molenga’ – o meu caso, por exemplo. Mas isso é coisa do passado. Garrafão hoje, só de pinga. Nos fundos também havia, além de outras árvores, um pé de coração-da-índia, que fornecia ‘refeição’ às bocas mais espertas.

Andei por ali, olhei para aqueles espaços vazios e bem varridos. A ‘vassoura de Cronos’ varreu tudo: folhas, árvores e muitas histórias. Mas as minhas lembranças ficaram amontoadas num canto qualquer daquele passado. Caminhei mais um pouco. Entrei na que foi minha primeira sala de aula, hoje um quarto de dormir. Segui para onde fiz o segundo ano, hoje lavanderia. Subi ao segundo pavimento e “vi” dona Bilia preparando nossa merenda. O cômodo continua sendo cozinha, mas sem a dona Bilia e suas grandes panelas com sopa de aveia. Espiei, de soslaio, aquela que foi minha sala do terceiro ano, onde dona Maria Eunice reinava sobre nós, sobre as expressões numéricas, sobre os verbos da primeira, segunda e terceira conjugação, e sobre ‘pontos’ de história e geografia. Era brava, exigente, mas competente. O gabinete da diretora, dona Marisinha, ainda está lá e pude “vê-la” sentada à mesa, fazendo anotações. Ali, ela me ensinou a escrever de forma mais legível, melhorando minha torta caligrafia. Uma professora do segundo ano rebaixara-me de série, por não conseguir decifrar meus garranchos. Mas papai procurou dona Marisinha, que me reconduziu à segunda série. Para tanto, tive que preencher um caderno com o abecedário. “Letras redondas!”, cobrava-me. Deu certo e retornei à minha classe, sem a necessidade de ser ‘rebaixado’ ou reprovado em tempo algum mais.
 
Estando ainda lá embaixo, olhei para cima e pude “ouvir” uma bronca da inconfundível dona Maria Costa: “Onde não há ordem não há progresso!” Assim, com vigor patriótico, ela repreendia os alunos bagunceiros e pouco afeitos aos estudos. Professorinha porreta! Com ela a ‘macambira’ comia solta. Era varada nas pernas, na cabeça... Certa vez, flagrei-a no melhor de seu ofício: juntou orelhas e cabelos de meu irmão mais novo, e sua ‘fúria pedagógica’ só amainou quando o serviço estava pronto e acabado.
   
Aquela casa tem grande significado para mim. Papai, quando menino, ajudou a construí-la, participando do aterro de suas fundações. E foi nela que aprendi a desenhar o ‘João Bolinha”, rabiscar meu nome, fazer ‘garranchos ilegíveis’ e até gostar das poesias de Álvares de Azevedo. Hoje é residência de um casal cujos filhos foram meus colegas naqueles tempos já embolorados. Nessa visita, nostálgico, pude reencontrá-los como antigamente, não me parecendo real.

Eu mudei, a escola mudou, mas o prédio continua lá com suas estórias e lendas... e sua memória secreta. Lá encontrei restos de minha infância, uns caquinhos, coisa pouca, mas o que eu precisava para fazer um retorno de meio século que ora se completa.


FILIPE

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

NO PRONTO-SOCORRO

Recentemente, acompanhei meu pai a um pronto-socorro. Era sábado e ele estava aflito naquele dia devido a um inchaço nas pernas. Chegamos à noite no hospital e uma grande fila nos aguardava. Enfim, após longa espera, fomos “despachados”.

O médico que nos atenderia não goza de boa fama. Enriquecera às custas dos estropiados e desvalidos que buscam socorro em altas horas. O hospital, fundado por religiosos franciscanos, tornou-se feudo desse senhor, que nele se instalou malandramente. Tal como uma aranha no centro da teia, aquele médico fica diuturnamente à espreita dos pacientes, engordando ainda mais o seu já rotundo patrimônio.  

O tempo no consultório foi exíguo, pois ‘cinco minutos’ é o máximo de que esse médico dispõe a quem o procura sem paga. Aliás, ali ninguém é atendido, mas ‘despachado’ por um cara que sempre prioriza as consultas particulares; os usuários do SUS ‘podem esperar’...

Papai e eu entramos, sentamo-nos e esperamos por alguns minutos o médico, que consultava o computador. Ao lado, uma estante com um único livro. Tinha na capa nome e foto daquele pastor “mala”, mas o título fiz questão de esquecer; na parede, ao fundo, um pôster gigante de um candidato a presidente com dizeres exaltando hombridade, integridade, virilidade e outros atributos do dito-cujo. Peço desculpas por me recusar a citar o nome da ‘besta-fera’. Mas fica a dica: boca-suja, defensor de torturadores, apologista do estupro etc.

O médico, que até então se entretinha com seu notebook, perguntou: ”O que foi que lhe aconteceu, seu José?” Meu pai mostrou-lhe a perna inchada e começou a descrever o desconforto que sentia. E sem se erguer da cadeira, atalhou meu velho, sentenciando: “Isso é pra ‘médico de veia’, seu José!” “Sim, nós sabemos. Já marcamos a consulta, mas o angiologista está em férias”, acudi. “Vou receitar um diurético. Até mais!” Saímos.

Médico deve clinicar com as mãos. Apenas as mãos podem afagar, abençoar... e curar. Um médico que não toca o paciente não exerce o nobre ‘ofício de Hipócrates’. Papai não foi recebido por um médico, mas por um impostor. Mais proveito teria, caso procurasse um benzedeiro.

Eu também fui levado a um hospital. Uma semana após meu pai, tive lancinantes cólicas estomacais e me arrastei até um pronto-socorro.  Antes de ser medicado, especialistas de todos os matizes – e os há numerosos em toda família – deram diagnósticos. Alguns por telefone, sem ao menos ver ou ouvir o enfermo. Veio de tudo: “pedra na vesícula”, “espinhela caída”, ‘quebranto”, “perfuração das tripas por ameba”, “flatulência”. O serviço era completo: para cada possível doença, uma terapêutica específica. Agradeci aos “especialistas” e fui ao médico.

Enquanto aguardava o atendimento, vomitando bicas numa sacolinha plástica, eu era um homem caído, desolado, vencido pela dor. Ainda assim, fui orientado a esconder o saquinho, porque ‘causaria mal-estar’ nos presentes. “Estou morrendo e tenho que me preocupar com o fastio alheio?...”, rosnei. Lá no fundo da “plateia”, um jovem colega de infortúnio quis conversar. Era um ex-aluno dizendo ter saudade de minhas “aulas de química”. Na hora, quase me curei da dor para lhe dizer que ‘nunca dei aulas de química’!

Felizmente tudo se resolveu. Papai passou pelo angiologista, que lhe deu atendimento digno. E eu me curei do que os antigos chamavam “prisão de vento”, e que se remediava com uma caneca de “barrela de cinza”. Só não ficaram resolvidos certos arroubos fascistas em hospitais.


FILIPE 

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

NAS MONTANHAS



Todos os anos, no começo do verão, procuro o frescor das montanhas para curar-me das ‘desumanas lidas’. Entre matas, bananais e cafezais, corcoveio Mantiqueira acima, deixando para trás o baixio calorento e aporto em Maria da Fé, que parece ansiosa pela minha chegada. É lá em cima, no “Teto de Minas”, que costumo me refugiar e onde passo alguns dos meus melhores dias. Mal chego, vou reto a um restaurante onde me farto de jiló frito, quiabo, frango, couve, tutu acebolado e o indefectível e crocante torresmo, que somente os mineiros sabem fazer. Há também variados doces, e muitos queijos – carregados de “sotaque”, é claro. Lá não vi pão de queijo, que ‘não é tão mineiro’ conforme se apregoa, mas tem broas de fubá.

O povo de lá, como bom mineiro, é desconfiado e tem curiosidade. Quer saber de onde vem, o que faz e o que pretende ali, mas espera pacientemente que o turista diga por si. Bem diferente de uns “caboclos” que conheço de outros verões e que encharcam de perguntação como: “Onde mora? veio sozinho? é casado? Tem quantos filhos? Essa aí é a sua primeira ou a segunda mulher? Cadê a ‘outra’? Esse carro é seu? Quanto custou? O que faz? Quanto ganha? (...)” Não, o povo a quem tenho prazer de visitar não comete tais deselegâncias. Discreto, gosta de conversar, mas sem perguntas.

Em sonolentas tardes de sol, o tempo parece correr mais devagar para aqueles montanheses. De chapéu surrado, homens rurais permanecem por longas horas nos bancos das praças ao abrigo de centenárias oliveiras, soltando fumaça de seu cigarrinho de palha, pensando na vida. Também há desses nos bares, mas em animadas rodas com os jovens, bebericando uma cachacinha, petiscando mandioca frita.
 
Mas o verão, que a todos vaporiza aqui nas ‘planícies’, torna-se suave outono na montanha. Lá as noites são frescas, quase frias, não se usam ventiladores e o edredom deve estar a postos, pois um ‘golpe de ar frio’ pode ‘constipar’ os incautos.

Ainda em noite escura, canários-da-terra já anunciam um fiapo de alvorada. Na padaria ao lado, a primeira fornada fica assada e o cheiro de pão fresco invade o ambiente, misturando-se ao canto de outros assanhados pássaros, tornando ainda mais idílico esse paraíso. Lá no horizonte, já surgem os primeiros laivos dourados celebrando a nascente manhã igualmente luminosa. Logo mais, as charretes dos leiteiros passarão com seus cavalos martelando o chão de pedra dessas ruas estreitas. E o verdureiro encostará sua caminhoneta próximo à pousada, donde sairão apressadas sacolas com legumes, verduras, frutas. A cidade, enfim, está acordando.

É domingo. Ao longe, o sino da matriz, em dolentes badaladas, chama os fiéis para a primeira missa. Um destaque da arquitetura da cidade e tombada pelo Condephaat, a igreja matriz tem estilo eclético com mesclas de neogótico. Seu interior é ricamente decorado com magníficas pinturas e soberbas colunas com motivos romanos. Ali também se encontra a imagem da negra beata Nhá Chica, ícone do devocionário católico sul-mineiro.

Mas essa terna e pacata cidade mineira exibe uma ferida incicatrizável. Em 1950, um jovem padre, filho de lavradores, foi covardemente assassinado dentro da igreja matriz. Após a missa matinal na capela da Senhora do Rosário, o sacerdote fora abordado por um estranho, com quem lutou e foi vencido. Como testemunho daquela tragédia, um dos sete projéteis disparados contra o pobre sacerdote deixou indelével marca no mármore do altar da santa.


FILIPE