sexta-feira, 30 de agosto de 2019

ENCONTRO COM O POETA


Era de manhã, eu ia para o serviço, quando, de repente, eis que cruzo com uma criatura muito fofa. Paro e a fixo por um instante, e tento pará-la. Mas ela tinha pressa e não podia ser interrompida por mim. A rua estava deserta, mas à frente havia uma avenida bastante movimentada, e era para lá que se dirigia apressadamente a desajuizada “criança”. “Por que a pressa?”, quis perguntar mas desisti. E digo logo do que se tratava: um filhotinho de gambá. 

O gambazinho queria arriscar a vida na avenida, mas não permiti. Abri o jornal e lhe fiz acenos para que voltasse, ele quis me desobedecer, mas fui enfático. Então o bichinho deu meia-volta, retornando com indisfarçável mau humor. E assim, fui conduzindo o ‘timbuzinho’ que, de vez em quando, me olhava furibundo. Contudo, manteve-se obediente num trote miúdo que fazia o corpo tremular e o rabinho oscilar, indo até o Jardim Público. Diante do meio-fio – para a diminuta criatura uma “muralha intransponível” – quis desistir, e, mais uma vez o meu jornal entrou em ação. Amedrontado, foi beirando a guia até encontrar uma fenda na qual pôde pôr as patinhas e escalar. Dali para diante, deixei que ele decidisse por si. Entrou num gramado, cruzou a passarela e se embrenhou no mato com muitas árvores. Ufa! 

Mas esse não é um “encontro com o poeta”, mas um “encontro com a poesia”! Com o poeta foi noutro dia. 

Eu voltava da escola, já bem noite, caminhando pela calçada oposta a um bar quando ouvi: “Professor, quero te dar os parabéns!” Pensei: “Não faço aniversário, não ganhei prêmios, não há por quê...” Mas, para cumprir o protocolo, cruzei a rua até a calçada onde havia umas mezinhas e ‘gente jovem reunida’. “Por que os cumprimentos?”, perguntei. O ‘Poeta’, era ele, me disse: “Gostei muito do que você escreveu.” Fiquei perplexo. Veio-me um filme antigo, de quando mandei algumas notas ao jornal contestando o “Poeta”. Num artigo, chamei-o de “extemporâneo da arcádia” – um xingamento, claro. Mas não. O Poeta referia-se a um texto que escrevi sob o título de “Carta ao Eremita”. Disse ter gostado muito e que levou o texto ao bispo diocesano. “Você já conversou com o bispo? Precisa conhecê-lo. É um dos nossos. Quando viu seu artigo, ele me disse: ‘Olha, que bom que alguém rebateu. Assim, não foi preciso que eu fizesse isso, porque ficaria muito chato’”, finalizou. 

Sem ter como retribuir a ‘mesura’, pensei em falar alguma coisa que pudesse agradar meu interlocutor. Fui com esta: “Olha, também leio seus textos, tenho um livro seu e gosto muito, viu?” Ele me pareceu meio desconcertado, mas achei que a dose foi pequena, fraca mesmo. Então aumentei a carga: “Estamos sem Príncipe dos Poetas. Paulo Bomfim morreu e a cadeira está vazia. Por que você não se candidata?” Ele me respondeu: “Depois de Olavo Bilac, Alberto de Oliveira, Guilherme de Almeida... Sabia que após a morte de Guilherme de Almeida, passaram-se anos até que alguém, no caso, Paulo Bomfim, se apresentasse?... E agora, quem vai ter a ‘cara de pau’ – e eu digo ‘cara de pau’ mesmo – de achar que pode ser ‘Príncipe dos Poetas’?” 

A conversa foi curta, mas saí impressionado com o Poeta, com quem já tive sérias divergências e, contudo, ele sempre me tratou cordialmente. Não menti. Leio suas crônicas e poemas e admiro sua intelectualidade. Como poucos, ele tem domínio da escrita e memória prodigiosa. Confesso que esse encontro me deixou arrependido de um dia já ter brigado com o Poeta. 

FILIPE

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

PEQUENAS VERGONHAS


Nossas vergonhas nem sempre são públicas e muito menos devem ser publicadas. De minha parte, já passei boas vergonhas – algumas até simpáticas. A seguir, devo citar umas três ou quatro, mas o raro leitor não terá sua curiosidade plenamente satisfeita, porque ainda tenho alguma lucidez.

Por exemplo, por um sem-número de vezes, um motorista para, interrompe minha caminhada e minha leitura, e, com um papel na mão, talvez uma nota fiscal, pergunta cheio de aflição: “Por favor, onde fica a rua Humberto Beretta?” “Rua Humberto Beretta...”, fico matutando enquanto o motorista aguarda ansioso. “Olha, eu moro aqui há pouco tempo e não conheço nada na redondeza”. Ou: “Ih, moço, eu não sou daqui!...” Mentira. Moro há dez anos neste pedaço e a Humberto Beretta fica há duas quadras de casa. [Será mesmo?...] Houve uma vez que atendi com toda convicção a um motorista. Mandei-o cruzar a cidade, seguindo sempre à direita até seu destino. Eu tinha tanta certeza e fui tão convincente, que senti até certo orgulho de minha sabedoria. Só uns passos adiante é que me dei conta de que o endereço procurado pelo desditoso motorista ficava a menos de cem metros de sua pergunta.

Outra. Na escola, sempre peguei a fila com a molecada para merendar. Mas houve um tempo que me cansei de ficar na fila. Amparado pelas minhas cãs e alegando a necessidade de me antecipar aos alunos na volta para a sala de aula, cismei de ir direto ao balcão de serviço. Fiz isso por algumas vezes até que uma merendeira recém-chegada me disse: “Professor tem que respeitar a fila!” Fiquei mais envergonhado do que chateado e dali por diante nunca mais furei fila.

Mais uma. A minha mais recente vergonha foi na igreja. Era Dia dos Padres e havia uma homenagem ao sacerdote no final da missa. Um senhor pegou um papel, empostou a voz e deitou falação. Houve uma pausa e eu pensei que já tivesse terminado. Estranhei o fato de todo mundo ficar quieto e pensei: “Que chato... Ninguém aplaude?!...” E tomei a inciativa começando a bater palmas sozinho. Me veio um calafrio, mas já era tarde e eu tentei terminar o serviço mal começado. Pus-me de pé e aplaudi com mais vigor. Somente eu, porque o homem ainda não havia terminado a leitura. No final, é claro, houve os esperados aplausos. Desenxabido, fiquei aguardando lá fora. Nisto, veio um senhor, já idoso e muito simpático, e começou a falar comigo sobre a chuva que começava e o animava com seu pomar. A chuva, dizia ele, vai aumentar a produção figos. Eu lhe disse que tenho duas figueiras que nunca deram nem flor. Ele me orientou a podar e adubar. “Ah, posso pôr o adubo ‘FCK’?”, perguntei como alguém que entende muito bem de adubos. Ele: “Bom, esse aí eu não conheço, mas ponha o ‘NPK  20 - 5 - 20’”. Somente mais tarde é que me dei conta de que não existe nada com o nome de ‘FCK’.

FILIPE

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

PATRULHEIROS


O assunto seria outro e eu nem sabia ao certo de que eu trataria na postagem de hoje. Estava propenso a falar de uma tristeza profunda que me abate nestes tempos inglórios, quando nosso horizonte tem sido cada vez mais obscurecido por alguns usurpadores – esses “seres das trevas” ora no Poder. E além disso, sendo já quase sexagenário, descobri que, a partir desta data, terei de trabalhar por mais ‘956 dias’ para requerer aposentadoria. Estou triste por essas e outras coisas, que hão de passar.

Mas, terrificado pelas notícias sempre assombrosas que brotam na tela do computador, tento espairecer, escrevendo bobagens neste blog. E assim aconteceu há duas quinzenas, quando publiquei o texto “Na Sala dos Professores” – uma crônica bem-humorada, mas que despertou inesperada fúria em alguns colegas de trabalho.

Talvez não venha ao caso, mas preciso explicar aos meus “algozes” que ‘crônica’ é algo bem diferente de ‘artigo de opinião’ ou ‘reportagem’. Por tempos considerada um gênero literário menor, de pouco prestígio, foi Rubem Braga quem deu à crônica certa nobreza. Nela, o autor não tem compromisso com a veracidade dos fatos e sua narrativa é livre, quase sempre satírica, irônica e vem lambuzada de humor. Ah, mas é preciso ter senso de humor e alguma argúcia para entrar no ‘clima’. Não tendo uma coisa nem outra, é melhor partir para o noticiário político ou para o jogo de dominó ou, quem sabe ainda, procurar uma pista de ”dança tântrica”. Prestigiada ou não, e pela sua irreverência, a crônica é meu gênero favorito, que leio vorazmente e tento rabiscar algumas.

Mas, talvez por desconhecimento e não por maldade, alguns professores não me entenderam e, de forma velada e cruel, atacaram-me impiedosamente. Tachado de antiético, ridículo e outras belezuras, fiquei estupefato. Contudo, para desgosto daqueles, outros me apoiaram, fazendo-me imerecidos elogios.

Sinal dos tempos, uma ministra, aquela que esteve num pé de goiaba, falando com Jesus, recentemente baixou instrução proibindo publicação de livros infantis em que há estórias de fadas, duendes e bruxas. Pela mente doente daquela senhora, todo o rico fabulário que coloriu a infância de inúmeras gerações deverá ser banido. Sendo assim, Pequeno Polegar, Branca de Neve, A Bela Adormecida e tantas outras eternas obras de referência deverão ir ao fogo que, espera-se não ser eterno.

Censurado ou não, devo continuar publicando minhas crônicas aqui. Convido ao raro leitor, se ainda o tenho, que as leia criticamente. Não tenho intenção de ferir ninguém e, caso alguém se sinta atingido, que use a caixa de comentários. Aproveite-a, também, para apontar meus muitos erros de Língua Pátria, e eu ficarei agradecido por tão generosa intervenção. Mas sem patrulhamento, por favor!

FILIPE

sexta-feira, 19 de julho de 2019

NA SERRA DA MUTUCA


Numa tarde ensolarada deste inverno, acompanhado de meu irmão caçula e de seu filho, fui ao lugar onde ficava a casa de Antônio Vermieiro – um caboclo que conheci já velho e escarpado pela dura lida do campo. Naquele recanto, sem luz elétrica nem água encanada, seu Antônio viveu por anos com a esposa dona Fiinha – mulher “sem leitura”, mas uma das criaturas mais argutas que já vi.

Subindo sempre, percorrendo pequeno trecho de bosque permeado por furnas de pedra, chegamos às ruínas da antiga edificação.  A casa, há tempos demolida, deixou um teimoso alicerce de pedra bruta, que insiste em delimitar o contorno de cada cômodo: a sala, onde seu Antônio ouvia um velho rádio de pilha, os quartos, uma despensa e a cozinha, que ficava um pouco abaixo do corpo da casa.  Um montinho de terra é o que sobrou do fogão a lenha onde dona Fiinha assava saborosas broas de fubá. Lembro-me de que, em certa manhã, eu tomava chimarrão e ela me ofereceu café com um pedaço daquela broa. Como não bebo café, ela me deu água com açúcar, que aceitei. A partir de então, em todas as minhas madrugadas, quando tomo água doce antes do chimarrão, eu me recordo da simpática dona Fiinha.

Percorrendo as cercanias da antiga casa, encontramos vestígios da engenhoca que seu Antônio usava para fazer garapa de cana para seu café (o açúcar era reservado às visitas). Encontramos também o que sobrou d’uma chaleira, uma foice e algumas enxadas. Eu quis trazer comigo uma enxadinha, não apenas como recordação, mas para usá-la mesmo. Esse cacumbu, que para mim é uma relíquia, foi abençoado pelas mãos daquele montanhês, um dos últimos remanescentes dessa estirpe de bravos camponeses. Do pomar que ele cultivou, ainda restam frondosas mangueiras, um pé de cacau, limoeiros, bananeiras e um abacateiro.  

Em êxtase, meu irmão filmava, fotografava e explicava cada detalhe: “Aqui havia um chiqueiro, ali um galinheiro, lá o paiol, e estes paus eram os troncos do engenho.” Mais:  “Eu tinha um cavalinho, e o padrinho amarrou uma corda nele para tocar a engenhoca. Eu ficava montado no cavalo dando voltas enquanto ele ia pondo cana na moenda para fazer garapa”. Depois: “Cara, eu sou um Peter Pan... Sou um Peter Pan!”, citava o famoso personagem que não aceitava abandonar a infância. E a infância desse irmãozinho foi realmente fantástica junto àqueles seus padrinhos. E assim, ciscando aqui e ali, o caçula ia removendo espessas camadas de três décadas de história, revendo um passado sempre presente em sua vida. Enquanto isso, tal qual o desbravador Indiana Jones, meu sobrinho abria caminho com um machado improvisado.  

Numa de minhas ultimas visitas àquela família, encontrei dona Fiinha bastante doente. Seu Antônio, preocupado com ela porque não se alimentava, desceu até a vendinha e comprou alguns quibes para a esposa. “Eu busquei umas quibas, mas nem isso ela quis”, disse-me desacorçoado. Acamada e com doença grave, aquela mulher nunca reclamou de dores e partiu enquanto rezava. Eu soube com atraso da morte dela, e subi para visitar o amigo, que estava desolado. Lembro-me de sua expressão: reclinado e em silêncio, aquele homem olhava fixamente o chão.

Pouco tempo depois, seu Antônio seguiu sua companheira. Estava sentado, conversando com um parente, quando um estranho silêncio interrompeu o assunto. O companheiro pensou que seu Antônio cochilasse, mas não. Ele partiu tão serenamente como viveu.

FILIPE

sexta-feira, 5 de julho de 2019

NA SALA DOS PROFESSORES


Eu estava na sala dos professores e cuidava da grossa burocracia: fechamento de notas, contagem de faltas, preenchimento de fichas etc. Alguns professores corrigiam provas, outros mexiam no celular e havia quem não fazia nem uma coisa nem outra, apenas matracava falando da vida alheia – como todos gostamos de fazer, inclusive as almas mais santas.

Esse é sempre um momento mágico que vivencio a cada fim de semestre. A sensação do dever cumprido se mescla a certa frustração de não se alcançar determinados objetivos. Mas, a despeito de pequenos dissabores, o recesso que se avizinha refresca corpo e mente fatigados de tantas lousas.

Uma professora, com mais maquiagem do que beleza – melhor do que eu, sem maquiagem nem beleza – reclama do marido, que ronca a noite toda e não a deixa dormir. Por isso as olheiras. Um professor gorducho chega esbaforido, reclamando de que no pátio há três ou quatro alunos. “O que esse povo vem fazer aqui hoje, meu Deus?! Acabaram as aulas, e com esse frio...” “Vieram fazer prova de recuperação!”, responde outro. Uma professora liga o computador e põe uma música suave quando alguém pergunta: “É Bach?” “Não! É Rossini!”, corrige. Para mim poderia ser Bach, Rossini ou Puccini porque, embora eu aprecie música clássica, não consigo identificar sequer o gênero. “La Traviata, de Verdi”, exclama tonitruante um convicto professor. “Que horror! Expliquei todo dia as formas verbais particípio, gerúndio e infinitivo, mas metade da classe ainda erra... Uma aluna chegou a confundir ‘gerúndio’ com ‘girino’! Até quando vou ter que bater nisso?!”, desabafa a professora com uma pilha de provas ainda por corrigir. “Gerúndio... Acho que isso é de Português. Estou enganada?...”, pergunta alguém – que ficou sem resposta.
  
No outro dia meu serviço já está em ordem e aguardo o fim do expediente. Pego um livro e começo a ler, mas não dá para ser na sala dos professores. Aquele burburinho de entra e sai não permite a mínima concentração. Vou para uma sala vazia e singro solitariamente aquelas páginas – doce oceano. De repente, chega alguém e sai rapidamente sem dizer palavra. Não quer me incomodar e eu fico agradecido.

Mais tarde, no fim da jornada, encontro uma colega que fez a caridade de ajudar um novato atrapalhado no preenchimento dos diários de classe.  “E aí, refez os diários dele?”, perguntei. “Sim. Daqui para frente é com ele. Eu fiz o que pude. Ensinei e pedi a ele que comprasse um caderno de caligrafia. A letra dele, coitado, é sofrível. Ele disse que comprou o caderno e já está praticando, e que sua letra vai ficar bacaninha. Vamos ver.” Essa professora estava feliz por ter praticado uma boa ação. Mas quando já nos despedíamos, e desejando ‘boas férias’, ela confidenciou: “Olha, eu quase morri de vergonha. Só eu, porque o professor ainda deu risada da situação.” “O que aconteceu de tão trágico?”, eu quis saber. Ela: “Não é que, enquanto eu dava as últimas orientações àquele professor, a sala cheia, e ele me solta um baita peido?!”

FILIPE

sexta-feira, 21 de junho de 2019

CARTA AO EREMITA


Artigo publicado no jornal amparense ‘A Tribuna’.
  
Caro eremita Vanderlei de Lima, paz e bem!

Num texto recentemente publicado neste jornal, o senhor afirma inicialmente: ”A moral católica ensina que, ao contrário de algumas ‘doutrinas errôneas’, é lícito matar alguém em defesa própria”. O senhor continua: “(...) é lícito matar quando um agressor ameaça tomar ou destruir bens de grande valor, não havendo outra maneira de pará-lo”. O senhor vai além: “(...) a legítima defesa é um direito que se torna grave dever, caso seu descumprimento possa expor o próximo a sérios perigos, inclusive de vida. Nesse caso, há que se impedir o injusto agressor, ainda que se recorra às armas, letais ou não”. E o senhor conclui: “Para se cumprir essa nobre missão de defender a vida de terceiros, há a chamada ‘graça de estado’”.

A “graça de estado” eu desconheço. Talvez seja uma espécie de salvo-conduto para matar impunemente, penso eu. Mas, com “graça” ou sem “graça”, confesso que fiquei animado, lendo esse seu ensaio tão estimulador dos meus instintos nada pacíficos. Há por aí um sem-número de perigosos gangsteres pondo em risco não a minha vida, mas a de muitos deserdados deste mundo. Todavia, o temor de me tornar um deserdado no outro mundo, além deste do qual nada herdei, é que me faz um homem contido, para não dizer acovardado. Porém, deixando de lado minhas firulas linguísticas, volto a seu texto no intuito de desenvernizá-lo.

Caro eremita, embora suas asserções sejam baseadas em trechos do Catecismo e em determinados autores católicos conservadores, elas depõem contra o Santo Magistério. A Igreja de Cristo, a quem o senhor diz servir num eremitério, tem como premissa maior a vida, e jamais a morte. Disso dão testemunho os santos mártires, que abdicaram de sua vida, doando-a. Mas se o testemunho dos nossos mártires não lhe bastam, detenha-se sobre esta passagem das Sagradas Escrituras: “Ouvistes o que foi dito: ‘Olho por olho e dente por dente!’ Eu, porém, vos digo: Não enfrenteis quem é malvado! Pelo contrário, se alguém te dá um tapa na face direita, oferece-lhe também a esquerda! Se alguém quiser abrir um processo para tomar a sua túnica, dá-lhe também o manto!” Não lhe parece bastante cristalina essa sentença encontrada no evangelho de Mateus?
  
Posto que movido pela sanha militarista que obscurece e assanha a nação, o nobre eremita, que me parece refratário aos ensinamentos sagrados, fica convidado a refletir sobre a luminosa frase de um militar – que não era um simples “capitão reformado”, mas um respeitado marechal.  Nas suas incursões pelo sertão, dizia Cândido Rondon aos seus comandados: “Morrer se preciso for, matar nunca!”

FILIPE

sexta-feira, 7 de junho de 2019

HONESTIDADE


“Honestidade não é favor, mas dever. Sejamos honestos em tudo!”

A frase acima foi rodapé de uma avaliação aplicada aos meus alunos nesta semana. Há tempos, venho insistindo na temática da ‘humildade’, ‘empenho’ e ‘honestidade’, que são valores fundamentais da cidadania. A aprendizagem requer humildade, o reconhecer-se ignorante num assunto. Somente assim e com muitas interrogações é que podemos nos apossar de algum conhecimento. Mas é preciso empenho. Um matemático, dono de uma plataforma digital que prepara legiões de jovens para concursos e vestibulares mundo afora, disse em entrevista, que a preparação decente de um candidato exige a resolução de ao menos dez mil exercícios. Claro que isso varia de acordo com o sujeito. Há alunos que aprendem determinado conteúdo em apenas uma aula; outros, no entanto, passam o ano sem saber sequer começar, e ainda vêm com a pergunta: “Onde vou usar isso?” Resposta: “Em lugar nenhum, porque você não aprendeu!”

Tudo bem que para aprender é preciso doses variadas de humildade e empenho. Os gênios, que são raros, estão quase dispensados desses atributos. Mas... e a honestidade? Ah, desta não se prescinde. Todos temos a obrigação moral de ser honestos. Mas honestidade não se reduz a ser ‘bom pagador’, não. Temos que ter honestidade em outros aspectos menos visíveis de nossa vida. Posso pagar o pó de café que peguei emprestado da vizinha, devolver a caneta ao colega, guardar e depois devolver os óculos da dona Maria etc. Posso até entregar religiosamente o dízimo, se religioso eu for. Contudo, talvez eu ainda não seja honesto. Explico.

Um ‘‘cidadão de bem’’ que apoia as trapaças do ‘capiroto’, tais como: desobrigação do uso de cadeirinhas  em automóveis para transportar crianças, armamento da população, desativação de radares nas rodovias, desmatamento e abertura de garimpos na  Amazônia, extinção de bolsas universitárias e corte de verbas da educação etc. etc. etc., não é ‘cidadão de bem’ coisíssima nenhuma, mas um tremendo  de um (...).

Sempre que vejo imagens de um júri, quando o tribunal está repleto de juristas, todos de ar grave, solene, ostentando valores morais e grandes saberes – uns deles quase divinos – penso: “São honestos? Será que alguém ali colou ou tentou colar na escola? Avançou sinal vermelho? Atropelou e fugiu? Escapou de multa? Sonegou impostos? Sonegou direitos sociais?...” Isso me faz lembrar um antigo conto que li na infância, em que um macaco enrolou o rabo, sentou-se em cima e começou a zombar do rabo dos colegas. Mas, infelizmente, ali não há macacos apenas zombando do rabo alheio.

Encontradiça em variados e nos mais inusitados lugares, a desonestidade é praga inextinguível. No momento devido, devo registrar neste “confessionário” alguns desses arroubos meus, dos quais sempre me penitencio.

FILIPE