quinta-feira, 7 de janeiro de 2016

DESASSOSSEGO

Gosto de ler seus textos, mas aqueles que falam de seu povo, de sua terra e não esses sobre política. Continue contando a história de suas gentes.” Ouvi, quase envergonhado, o desabafo de minha amiga e leitora, mas sinto muito por decepcioná-la ainda outra vez.

Não me apetece falar de política nem de economia, assuntos que não domino e sobre os quais não deveria meter a colher. Embora ignorante nestes e noutros assuntos, ouso pisar esse pântano de odor desagradável que me traga e me trai, e me desassossega. Também não costumo falar de política com amigos, melhor poupá-los de meus clichês. Neste espaço, porém, costumo dar vazão às minhas inquietações. E com a licença da amiga, vou prosseguir.

O meu desassossego fica por conta do recém-sepultado 2015, ano em que economia e política me deixaram aturdido. A agenda nacional foi de ódio. Nos bares e botecos, nos becos e sobrados, nas escolas e templos, nas cozinhas e nas alcovas não se falou doutra coisa que não fosse o ‘fla-flu do mal’ a que se tornou a política nacional.

O país está quebrado, sabemos. Os preços sobem e, como em tempos de guerra, há filas. Tenho presenciado algumas dessas infâmias, que são o diagnóstico dessa debacle. No supermercado há filas, principalmente no açougue e para comprar picanha. Nos caixas, mais fila, agora para pagar a picanha.

Segundo o noticiário de fim de ano, “jovens gastam 40 mil reais em uma semana na praia”. Na mesma reportagem, um empresário berra: “Urruh! A crise não vai acabar com nossa feeeeeeeeeeeeeesta!” Nos bares mais badalados também há crise. Morro de dó daquela gente, de pé, passando zap-zap, aguardando na fila o sinal verde para o chope com casquinha de siri. Assim é a vida..., fazer o quê?!

Há outras crises. Uma importante editora resolveu fechar as portas, demitir funcionários e dispensar autores e editores. Isso não é novidade. O inusitado fica por conta da forma como aconteceu. O dono fez com que todos fossem informados pela imprensa. Isso mesmo: foi pelos jornais que seus comandados souberam do infortúnio. O dito empresário também decidiu pôr à venda sua residência e “se mandar”.  O preço? “Apenas” 30 milhões de reais!

Ah, estava esquecendo do desemprego, que cresce assustadoramente! Mas, e a qualificação? Segundo pesquisas, um americano tem produtividade equivalente à de quatro brasileiros.  Não seria o momento de cada jovem brasuca levar à sério a vida, dedicando-se mais aos estudos e se profissionalizando? Procure um pedreiro, carpinteiro, encanador ou eletricista. Não os encontra e, quando os acha, custam o “olho da cara”. E também não temos técnicos!

No Brasil, conforme último levantamento do IBGE, há 6,8 milhões de jovens entre 15 e 29 anos denominados “nem, nem, nem”. Um contingente equivalente às populações somadas de duas capitais, Rio de Janeiro e Vitória, que NEM estuda, NEM trabalha, NEM procura emprego. Como o país vai sair do buraco com essa horda de vagabundos? E a culpa é da Dilma?

Mas querem o impeachment da presidenta para pôr o vice no lugar dela. Só que, segundo o Datafolha, 52% dos brasileiros não sabem quem é o vice-presidente. Que coisa doida, hein?...


FILIPE

quinta-feira, 24 de dezembro de 2015

UM SACRAMENTINO

Ele chegou leve, suave, como uma brisa. E com essa mesma leveza, permaneceu conosco por algumas horas. Veio para ouvir. Poucas são as pessoas com essa disposição e este irmão parece ter nascido para isto: dar atenção, escutar. Com certeza ele tem suas aflições, mas as retém consigo, sem que alguém lhe ofereça ao menos uma orelha para que fale.

Encontrei-me com ele de manhã, amável como sempre. Levei-o à minha escola e depois o conduzi até a casa. E me pareceu que sua única curiosidade seria a de conhecer o ranchinho, onde costumo me esconder para rabiscar minhas inquietações – como “Minhas Manhãs”, recentemente postada neste blog. Mas pareceu-me decepcionado com a aceroleira. Talvez a imaginasse grande e frondosa, mas o que se viu não passa de um arbusto. O suficiente, no entanto, para compor um retalho de natureza em estado bruto, com tronco, musgos, folhagens e asas. É essa paisagem que desanuvia as retinas e embala os delírios deste cronista insípido. Conheceu também a matilha da casa:  a curiosa Pituka, o rabugento Tokinho e o desconfiado Tiziu. Ainda que não demonstrasse intimidade, não denotou repulsa aos cães. Já está bom.

Minimalista na mesa, seu prato daria para alimentar, com sobra, um recém-nascido. Com tão pouco rango, pensei: talvez as orações lhe completem a refeição. “Meu bucho é pequeno. Como pouco, mas gosto de comer sempre”, diz para pôr fim a eventuais insistências dos anfitriões. Com isso, explica que gosta de “beliscar”. Talvez, nesse aspecto, seja o único que tenha puxado a mãe. Mamãe come pouquinho durante as refeições, mas, na surdina, sempre dá suas “beliscadas”. Contudo ainda não pude flagrá-lo em furtivas mastigadas. Ao sair, quis fazer-lhe um lanche para a viagem, e ele me orientou: “Pega um pãozinho de sal (pão francês), abre e bota uns ‘trenzinhos’ dentro, que ele fica que nem um embornalzinho, fechadinho”.

Da irmandade, é o mais sábio e também o mais econômico na prosa. Caso esteja numa rodinha em que se discuta algo, permanece atento e em silêncio. Não se lhe despertando interesse, retira-se à francesa. Instado a dar opinião, diz poucas e acertadas palavras.

Culto, grande conhecedor de teologia, não se mete a responder perguntas sobre algo que julga não dominar. “Ih, menino, sei falar sobre esse ‘trem’ não. Isso é assunto pra quem estudou.” Nas reuniões da Congregação, da qual é superior-geral, se instado a dar palpite, costuma dizer aos conselheiros: “Vamos debater a questão para decidir. Estou aqui para ouvir quem entende e aprender, porque sou apenas um ‘cura de aldeia’. Até pouco tempo, eu era capinadô de roça lá em Guiricema!”

Diferentemente de mim, não acumula nada. O que não está usando, passa para outros; se não vai ler o jornal velho, descarta; a roupa tá apertada, manda pra frente – outro usa. Dessa forma, seu guarda-roupa é enxuto, sua estante está sempre arrumadinha, a gaveta organizada. Nada semelhante a esta mesa sobre a qual me apoio – repleta de livros, jornais, sacolas com coisas..., uma bagunça! Aprendi que nossa cabeça tem a forma da mesa, do guarda-roupa ou da pia. Se está organizada, a mente também; se está bagunçada, melhor buscar tratamento. (...?!)

O Sacramentino, mais do que líder, é um “oráculo” da Congregação e também da família. Percorre milhares de milhas para debelar perrengues entre confrades ou rusgas entre membros de seu clã. Em breve, singrará o Atlântico e aportará na África. Assim, este incansável missionário segue firme no seu pastoreio. Peregrinando por terras e mares, leva a estes e a ultramarinos povos um pouco de alegria e de paz.


FILIPE

sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O SEMEADOR

“Eu sou o semeador
Vou semeando a Palavra do Senhor”

A estrofe acima é de “O Semeador”, uma das inúmeras composições de Luiz Gonzaga de Souza, o Luizinho Cristiano, que nos deixou recentemente.

Luizinho foi um importante personagem na minha história, quando da passagem da infância para adolescência. Naquele tempo, em Vilas Boas, distrito da pequena e amável Guiricema, meu pai liderou um movimento de evangelização promovendo umas tais “reuniões de equipe”. O nosso grupo era formado pelos moradores do “Córrego dos Lopes” e se estendia para além do tal “córrego”, alcançando o “Cabo Frio”, no alto da montanha, onde morava meu tio-avô Sebastião de Moura. Às vezes íamos até a “Lambança”, comunidade onde morava a família Soriano. Nossos encontros eram nas noites de quinta-feira ou nas tardes de domingo, quando se reuniam dezenas de pessoas para orações, leitura do Evangelho, café com broa e muita música. O Luizinho, com seu violão, era o principal animador. Havia outros músicos, mas este nosso amigo era especial, uma espécie de maestro, o mestre do canto e das cordas.

O violão do Luizinho era quase artesanal, tinha cavilhas de madeira e cordas emendadas. Era comum vê-lo afinando-o ao intervalo de poucas músicas, pois as tais cavilhas não sustentavam a corda na tração necessária e o “bicho” desafinava em meio a uma dedilhada. Generoso, não tinha ciúmes de seu instrumento e o deixava conosco para que pudéssemos brincar à vontade. Ah, mas será que era por isso que as cordas se arrebentavam?...

Como naqueles longínquos anos setenta não tínhamos rádio, o Luizinho era a nossa única fonte musical. Dele, ouvíamos, além das canções do padre Zezinho, músicas do cancioneiro popular como a Jovem Guarda e as sertanejas de raiz. Através dele, conheci Jacó e Jacozinho, Tonico e Tinoco, Zé Fortuna, João Pacífico, Teddy Vieira etc. Sempre após as rezas, quando as mulheres e crianças iam se dispersando, nós, a molecadinha mais graúda, ficávamos para trás a fim de ouvir o seresteiro. Pedíamos: “Canta esta...”, cantava. “Canta aquela assim: ‘lá-rá-lá-rá’”, cantava também. E assim, o nosso menestrel ia até altas horas. Incrível, ele sabia de cor centenas, senão milhares de canções. Ouvindo apenas uma vez, já memorizava para sempre. Dominava também um vasto repertório de piadas, charadas e muito mais. O Luizinho era um artista do povo e por onde passava, semeava sua alegria cantando, tocando e contando piada.

Ah, mas não era mole a vida na ditadura! O governo militar, com seu ‘milagre econômico’, não foi nada milagroso para o povo da roça. Escassez e carestia era nosso cardápio e para o amigo Luizinho as coisas não foram melhores. Recém-casado e com dificuldades, papai chegou a socorrê-lo com uma pequena lata de gordura de porco, pois não tinha como temperar a comida.

Embora sem ter estudado música, Luizinho era um virtuose. Homem de raro talento, tentou de tudo na vida. Foi lavrador, padeiro, marceneiro, mas nunca viveu de sua arte. Ultimamente, andava preocupado com uma cirurgia que faria e tentava se aposentar. Partiu, aos sessenta e cinco, deixando silêncio, saudade e uma exuberante sementeira.

Vai, Luizinho, canta para os anjos e continua a semeadura. E não  esqueças do teu violão!

NOTA: Na seção “comentários”, pus a letra da música que celebriza o nosso ‘semeador’ e que marcou uma geração de camponeses guiricemenses.


FILIPE

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

NAS GERAIS

Estava com saudade de minas gerais (com minúsculas, porque somos íntimos) e do sotaque daquela gente. Quis ver Minas com seus mineiros e seus minérios, sem mineradoras. Quis ir lá, quis olhar para suas montanhas e nutrir-me de toda aquela mineiridade. Quis rever meus pais.

No ônibus, ao embarcar, já pude sentir um pouco do que buscava. Umas pessoas conversavam sobre esta e outra viagem que fariam. “Preciso ir a “Sansdumon” visitar minha afilhada. Faz tempos que não vou praquês lado”, disse uma. O outro, que não iria a Santos Dumont, dizia não ver a hora de chegar a “Viscon Ribranco”, onde comeria “franconquiabo” e angu. Depois, esticaria até a casa de seu compadre, em Coimbra, lá no alto da serra.

Do terminal do Tietê, em São Paulo, parti com destino a Visconde do Rio Branco. Estava ansioso por chegar a Guiricema. Havia tempos que não via meus pais e queria sentir o cheiro de barro, de mato molhado; queria andar por aqueles pastos e respirar ar puro. Do meu lado sentou-se um simpático senhor e seu nome é Zezito. Soube ao me despedir, porque durante a viagem não costumo conversar. A experiência me ensinou que, se a viagem é longa, o silêncio é o melhor companheiro. Trocas de impressões são bem-vindas, mas somente ao final do percurso.

Cheguei de manhãzinha no “ninho paterno” onde papai e mamãe me aguardavam prazenteiros. Ele, como sempre, animado, sorridente; ela, também alegre e com seu proverbial “Deus te abençoe!”. Essa é a forma que mamãe encontrou para disfarçar o incômodo, quando não reconhece quem chega: talvez filho, sobrinho ou, quem sabe, um irmão. “Na dúvida, é melhor abençoar”, ela deve pensar.

Cheguei eu, depois foram chegando outros filhos. No dia seguinte, estava reunido o primeiro quinteto da prole. Desde o Mano Véio, passando pela irmã mais velha, este rabiscador, o Irmãozinho e o Sacramentino. A parte mais nova da prole, um sexteto, não pode comparecer. Naquele momento celebrativo, cavoucamos o passado e desenterramos fatos marcantes na história da família. A irmã mais velha e o Irmãozinho, ambos de fabulosa memória, deram os detalhes de coisas antigas, das quais eu nem lembrava. O Sacramentino, que naquele momento se fazia caçula, apenas ouvia e contemplava. Este irmão é assim mesmo: calado, ouvinte, o mais sábio de todos. Falamos sobre tia Badica, a turma do Julim Mendonça, Tatão Tibúrcio, Angelina e outros antigos personagens de nossas histórias, algumas alegres e outras tristes.

Na varanda, enquanto revisitávamos o passado, o Mano Véio observava de longe. Não sei por que, mas ele parece não apreciar reminiscências. Passava, às vezes de raspão, e dizia: “Aí, Felipão, quando se aposenta?”,  ou: “Aí, Felipão, dando muita aula?” Quando ia responder, era tarde. Já estava longe, mexendo numa revista, na TV ou fazendo outra coisa. O Mano parecia preocupado com uma aula que daria no dia seguinte para “quarenta diáconos”.  “Vou começar com uma pergunta sobre a diferença entre pastoral e evangelização”, disse isso mais de uma vez. Caso eu fosse um daqueles diáconos, aprenderia também a semelhança. Não sendo diácono, nem teólogo e não assistindo àquela aula, ficarei sem saber “qual é a diferença”.

Mas, o motivo da viagem foi a comemoração dos oitenta e cinco anos de meu pai, que parecia um garoto, de tão feliz. Passou o dia no “feice” respondendo às centenas de mensagens, que não paravam de chegar. À tardinha, houve oração, “parabéns pra você” e muito bolo.

Que esta festa se repita e se estenda a outros lares. Pois a vida não é para ser vivida apenas, mas continuamente celebrada.


FILIPE

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

A ESCOLA É PARA...

Recentemente a Folha de São Paulo trouxe um artigo intitulado “Reprovados em Matemática”. Apoiado numa pesquisa com público acima de 25 anos, feita em várias cidades do país e realizada por um importante instituto, o texto, assinado pelo professor gaúcho Flávio Comim, despeja uma avalanche de números desconcertantes.  Segundo o autor, um terço dos entrevistados não sabe multiplicar, 75% não compreendem frações, mais de 60% não sabem lidar com porcentagem e mais da metade não consegue fazer um bolo. Isso mesmo, 59% dos entrevistados não sabem trabalhar com uma receita de bolo, quando é preciso reduzir ou aumentar proporcionalmente seus ingredientes. Os números continuam, mas eu paro por aqui para não agastar o esquivo leitor.

O artigo do professor Comim desperta os brios de quem lida com ensino, particularmente dos professores de Matemática. Mas o problema é muito mais complexo do que se supõe. As políticas educacionais – notadamente do estado de São Paulo com a implementação da “progressão continuada” – que já eram desanimadoras, tendem a piorar. O Conselho Estadual de Educação (CEE-SP) acaba de determinar que universidades destinem 30% da grade curricular de seus cursos de licenciatura a “aulas práticas”, pois os “çábios” afirmam que aqueles cursos formam especialistas que não sabem ensinar.

 Mas, é importante ressaltar, as tais “aulas práticas” não passam de uma “metáfora do mal”. Explico. Paralelamente às matérias específicas de um curso de licenciatura, ensinam-se teorias educacionais que são fruto do “trabalho de gente desocupada”, algo de pouca ou nenhuma serventia para o formando. Há várias correntes pedagógicas, obra de uns parasitas que se divertem reinventado a cada vez mais quadrada ‘roda pedagógica’ e que se dizem “educadores”. Esses “iluminados” ganham a vida dando palestras, publicando livros (que ninguém lê), assessorando os donos do poder e aporrinhando mestres.  Faz tempos que os editais de concurso para professores da rede estadual privilegiam suas teorias em detrimento dos conteúdos específicos.

Adepto dessas “inovações”, o grupo político à frente do governo paulista há mais de vinte anos não conseguiu melhorar a qualidade do ensino por estas plagas. Tentou-se de tudo: remanejaram-se alunos e professores, ainda no final do século passado; implantou-se a famigerada “aprovação automática”; adotaram-se os discutíveis “Cadernos do Aluno”, em prejuízo do excelente livro didático distribuído pelo MEC; anunciou-se a flexibilização do currículo em nível estadual, em contraponto ao currículo nacional de responsabilidade do MEC; e, neste momento, impõe-se a segunda etapa da reestruturação, visando separar estudantes por faixa etária, fechando escolas etc.

Quem está na rede há algum tempo sabe que nenhuma das mudanças implementadas pelo governo paulista nos últimos vinte anos resultaram em melhoria do ensino. A reestruturação em curso não será positiva e a mexida nas licenciaturas, uma tragédia, porque porá “analfas” no magistério. Quem leciona sabe que o professor deve ser um especialista em sua área. Sem a competência técnica desse profissional, a escola deixa de cumprir seu inalienável papel, que é o de promover o pensamento através do ensino. Ou ..., ensinar alguém a fazer bolo.

Com a palavra o professor Renato Janine Ribeiro, o mais respeitável ministro da Educação que este país já teve: “A escola existe para desasnar as pessoas”.


FILIPE

sexta-feira, 30 de outubro de 2015

O CAPIM, A VACA E O HOMEM

Queria começar este ensaio citando números e fontes para impressionar o solitário leitor, passando-lhe a impressão de que estou bem informado. Se bem que tentei, confesso, mas não consegui. Havia guardado um recorte de jornal com uma gama de informações a respeito do tema de hoje, mas não o encontrei. Também estou com preguiça de buscar na ‘net’. Mas você verá, bravo companheiro, que os dados não lhe farão falta. Como também não lhe fará falta este texto que ora rabisco.

A população envelhece velozmente, mas parece – e isso me é cada vez mais evidente – que não nos importamos com o futuro dos futuros velhos que seremos, ou somos. Educamos nossas crianças somente para a felicidade, como se a tristeza, a frustração, a dor fossem uma anomalia da natureza. Algo que deva ser extirpado do cotidiano para que possamos ter uma juventude ainda mais feliz. Mas o que se vê por aí (e por aqui também), não passa de uma massa idiotamente hedonista, incapaz de tomar decisões, nem de se libertar da redoma paterno-materna. Como num diálogo travado entre mãe e filha, publicado recentemente num jornal: “Filha, como você vai viver quando eu morrer?” “Simples. Vou viver de sua herança!” Depois dessa, dizer o quê?...

Do ponto de vista estritamente materialista, o ser humano é uma praga. Não faz falta alguma ao planeta Terra e, pelo contrário, devasta-o sofregamente, promovendo o aquecimento, extinções, desertificação etc. Sob a ótica do ateísmo, o ser humano é inferior à vaca, que se preocupa apenas em comer capim e reproduzir; jamais em acumular, guerrear ou curtir Luan Santana. O homem seria inferior também ao capim que a vaca come, pois como todo e qualquer vegetal, o capim produz seu próprio alimento, realizando a fotossíntese. Nós humanos dependemos da vaca, que depende do capim, que não depende de ninguém. Legal isso, não?

Mas, o que temos de superior à vaca e ao capim? A vaca cuida de seu filhote, alimentando-o e o protegendo. O capim, por sua vez, não cuida de ninguém, nem de seu ‘filhote’ que, enquanto semente, tem que se virar e encontrar terreno fértil para germinar, crescer e, enfim, alimentar a vaca, que alimenta o homem. Mas, sob este ponto de vista, se a vaca é superior ao capim na sua capacidade oblativa (ela cuida do filhote), o ser humano se equipara à vaca apenas neste quesito: protege e sustenta a prole, e só. E ainda há humanos que preponderam pela força física e vigor sexual! Coitados, deixa o touro saber disso...

Mas a superioridade humana não vem nem da força física, nem da inteligência, pois a máquina nos supera aqui também. Há algo sublime e que nos faz muito especiais.

Alguém já viu um novilho cuidar da ‘dona vaca’, idosa, sem dentes e atolada no pântano? Ou do touro de perna e chifre quebrados após um duelo? Decerto que não. Apenas o ser humano, diferentemente dos animais, é capaz de dedicar sua vida em prol dos desvalidos. Talvez surjam daí os primeiros lampejos que atestam nossa filiação divina: “Somos feitos à imagem e semelhança de Deus, nosso Pai e Criador”.

Mas, pelo barulho do tropel e pela densa poeira que se levanta, estamos caminhando célere para a irracionalidade. No futuro, seremos como os animaizinhos, nossos irmãos menores. Cuidaremos muito bem de nossos rebentos, mas abandonaremos os nossos genitores à sua própria (falta de) sorte. 

Seremos capim, vacum ou homo sapiens? Façamos a escolha.


FILIPE

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

NEURAS

Tá horrível a coisa aqui. Um calor insuportável, um vizinho escroto com uma bateria dos infernos e eu tentando atualizar meu blog. Se na calmaria da madrugada já não consigo grandes feitos, imagine agora, na aridez desta tarde calorenta e acrescida dos decibéis de alguém sem noção de civilidade... Mas vou tentar. Quem sabe, na companhia de uma sinfonia de Mozart, eu consiga sublimar o purgatório que me sufoca o espírito e me entorpece a alma?...

Aumento o volume do aparelho, o violino geme enquanto vou cofiando os neurônios a procura de algo. Penso que hoje, sendo feriado, facilitaria. Mas não. Amanhã, se alguém acessar o blog, ficará espantado com tanta baboseira de quem se diz professor. Calma! Professor é assim mesmo e você já teve muitos. Todos são neuróticos, não suportam barulho, nem mesmo o de uma caneta sobre a carteira. Principalmente quando a Fulana insiste no batuque, embalde os pedidos clementes para que pare, ao que responde: “Eu não consigo parar!”. Consegue.  Posta para fora com a incumbência de continuar batucando, cansou e parou de vez.

Ah, mas aquela caneta batucando na carteira seria “música suave” perante o que acontece por aqui. Uns caras metidos a roqueiros e que provavelmente – e eu torço muito para isso – nunca passarão de amadores sonhando tocar nos vespertinos da TV aberta. Boçais é o que são.

Hoje é o ‘dia do professor’. Este ser bajulado hoje, mas desrespeitado sempre, principalmente pelos governantes. Não acho que somos especiais, só acho que deveríamos ser valorizados, compreendidos, cobrados também. Mas, pelo amor de Deus, dê-nos condições físicas, psicológicas e retaguarda moral para o exercício da profissão!

A cada dia e a cada aula uma surpresa, boa ou ruim, nos aguarda. Eu teria muitas coisas boas para dizer sobre este ofício que abracei com incondicional volúpia. Mas o meu vizinho... Este me obriga a falar mal da minha profissão, da tarde, de tudo. Então vou reclamar de meu cotidiano, que muitas vezes me embebeda com fel.

Certa feita, ao entrar na sala de aula, havendo poucos alunos devido a uma chuva forte (faz tempos!), pensei: “Hoje a aula vai render, pois posso ensinar de forma individualizada. O assunto – sem querer ser pedante nem afrontar os não iniciados –  era “Números Complexos”.  Comecei falando da inconveniência do nome, da “maldade” dos matemáticos. Com um título desses, quem se animaria? ‘Complexo’ evoca complicação. Como simplificar aquilo que já se apresenta como ‘complexo’? Tentei desembaraçar as coisas, muito animado, por sinal. Uma Fulana, não muito dotada de boa vontade (alguém diria vagabunda, preguiçosa; eu não) entrava e saía da sala para cuidar de interesses outros. A certa altura, virou-se para mim, dizendo: “Eu não entendi NAAAADA!” Fiquei meio sem o que dizer e receitei reforço. Brava, deu-me instruções de que o meu papel era o de ensinar etc. E em seu socorro, veio uma das melhores da sala. Isso é que doeu. A moça, aparentemente educada e estudiosa, berrou: “Já ouvi dizer que se um aluno pergunta, o professor é obrigado a responder quantas vezes forem necessárias!” Tentei argumentar, mas a coisa foi entortando de vez. Sorte minha é que as duas não conseguiram a tão sonhada maioria na classe. Em meu socorro, um jovem disse: “Cala aí, ô! Se não aprendeu, é porque fica conversando... Presta atenção no professor e pare de reclamar!” Dei muitas graças a Deus e a esse herói improvável. Revigorado, pude bradar sem muita convicção, é claro: “Comigo, só não aprende quem não quer!” Disse e repeti, para gáudio de meu defensor, alegria da classe e desagravo face às duas contendoras.


FILIPE