sexta-feira, 3 de dezembro de 2021

MINHA ÚLTIMA AVALIAÇÃO

Como faço desde o início da carreira, em dezembro dou um pedaço de papel a cada aluno para que avaliem meu trabalho. Recomendo que essa avaliação deva ser anônima a fim de que possam expressar mais livremente seus pontos de vista sobre meus inúmeros erros e possíveis acertos também.  O resultado, embora doloroso para mim, tem sido frutuoso, pois a partir dele, eu me esforço bastante para melhorar a atividade docente. De início, essa “enquete” era feita no último dia de aula, mas devido à debandada prematura dos alunos, tive que antecipá-la.

No entanto, engana-se quem pensa ser isso vaidade. De posse dos papeizinhos preenchidos, costumo abri-los apenas quando estamos encerrando a burocracia. No silêncio de uma sala de aula deserta é que eu costumava desdobrar os pequenos “bilhetes”. Ali eu me pegava ora maravilhado com demonstrações de afeto de uns, ora terrificado com a violência verbal de outros. Agora, se me faço vidraça, é por que deveria confiar numa blindagem – mas ela não existe. As sibilantes pedradas que recebo costumam me estilhaçar. Contudo, continuo acreditando que esse trabalho faz parte de meu ofício. De todas as críticas recebidas, as que mais me incomodam são aquelas que desnudam meu comportamento discriminatório. “O professor dá atenção para uns, os inteligentes, e despreza outros”, muitos já disseram essa “mentira”, e parecia ser vã minha tentativa de mudar essa conduta tão ferina. No entanto, devo admitir, esse traço de minha personalidade extrapola o ambiente da sala de aula. Nas relações sociais sou bastante seletivo e confesso (não muito envergonhado) que essa seletividade me traz conforto.

Volto à “minha última avaliação” que dá título a esta crônica. Assim que peguei todos os papeizinhos, separei-os por classe e os pus em uma sacolinha para cumprir aquele ritual: ler quando estiver só. “Leu, professor?”, perguntavam-me curiosos alguns alunos no dia seguinte. Eles queriam que eu me manifestasse, que debatesse o assunto. No outro dia, cheguei e disse: “Hoje vou fazer uma coisa que nunca fiz em trinta anos de sala de aula”. Houve um silêncio, uma expectativa, parecia que eu anunciaria o dia do apocalipse. Chamei uma aluna à mesa e a apresentei à classe, dizendo: “Eu não li os bilhetes, mas a colega de vocês vai ler para nós. Vai ler tudo o que estiver escrito, até xingamentos, a menos que o pudor a impeça. Mas ela não vai ler o nome de alguém que resolveu assinar. Fiquem tranquilos”. 

A classe ainda estava silente, apreensiva, paralisada, quando uma aluna irrompeu, protestando: “Por que tem que ler pra todo mundo?!” “Porque quero! Não é anônimo? Qual o problema?...”, rebati. Ouvi dela ainda um pálido resmungo, mas a leitura se iniciou.

Por sorte minha, pura sorte mesmo, os bilhetes eram só elogios. Todos, sem exceção, me exaltavam e eu fiquei até embasbacado. No entanto, um aluno visivelmente incomodado mudou de carteira, indo mais à frente. Por fim, ganhou coragem e disse: “Posso pegar meu bilhete de volta? Eu queria mexer nele”. Respondi que até poderia, mas como os bilhetes são anônimos, não teria como. “Eu assinei, professor”, disse ele. A mocinha pegou o papel, que ainda não tinha sido lido, e o entregou ao rapaz. Este o trocou por outro e eu fiquei sem saber por quê.  

E assim em todas as salas: um aluno lia e todos ouvíamos atentos aquela que foi a ‘minha última avaliação’. Alvíssaras! Desta vez até fui tachado de chato, mas não xingado nem acusado de discriminação intelectual.

FILIPE

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

MARIANA

 


Você acaba de completar trinta anos! Ainda ontem uma “pirralhinha”; hoje uma sóbria senhora, porque tem a ‘idade da razão’, é esposa, é mãe. 

Lembro com carinho das mamadeiras no meio da noite, nas madrugadas, nas manhãs e nas tardes – todas feitas de leite com Ovomaltine. Tempos depois, veio a ‘papa-papinha’ de mandioquinha; de sobremesa, Yakult ou Danoninho, mas que você queria como antepasto. 

Lembro com saudade das manhãs preguiçosas, assistindo ao Castelo Rá-Tim-Bum na Cultura, e das tardes sonolentas, vendo Chaves no SBT, e dos fins de semana com as "fitas-cassete" da Disney, que eu pegava para você na locadora do bairro. Em tardes de sábado, costumávamos ir de trem a Santo André. As suburbanas vagas humanas comprimidas nos vagões tal qual um “formigueiro” conforme você denominava e com ele se irritava. A missa na Catedral, uma parada na banca de jornais e um passeio na livraria do shopping. Você querendo um livrinho infantil e o insensato pai dando-lhe um dicionário! 

Recordo-me de quando eu voltava da escola, noite alta e fria -- e você, pés descalços, me esperando ansiosa para tomar o chá que eu sempre trazia num copinho de plástico. Saía com o copo cheio, mas o bamboleio da caminhada fazia que derramasse uma parte na rua; ao abrir o portão, outro tanto ficava na calçada; depois teria que desviar dos afagos das cadelas Madona e Dolly, fazendo com que apenas metade chegasse até você. Dois ou três goles de chá morno já a deixavam agradecida, realizada e completa para dormir. Dali, você escalava o berço e se amoitava numa cabana de cobertores idealizada por mim para que não se resfriasse. 

Havia também as consultas e as seções de inalação no postinho. Você chorava, não queria, brigava com o inalador, mas parece que o choro fazia parte da terapêutica. 

Ah, e tinha também a creche! Eu a levava todas as manhãs, a pé, mas você queria colo. Chegando lá, você não queria entrar, mas o ‘tio Paulo’, bondoso porteiro, a convencia e você cedia. Enfim, você entrava e era recebida pela ‘tia Hélia’, a quem você detestava, não sei por quê. Certo dia, ligaram, dizendo que você estava doente e fui lá para pegá-la. Foi a única vez que entrei naquele prédio, de ambiente estranho, sem brinquedos nem paredes enfeitadas. Num cômodo havia uns colchonetes e sobre um deles estava você. Eu não disse nada, mas naquele dia compreendi as razões de seu enfado. 

À tardinha, quando ia buscá-la, eu levava uma balinha Babalu e o Pitoko que, embora de pelúcia, tinha personalidade. Genioso, o bichinho nem sempre queria papo, mas de vez em quando fazia graça também. De dentro de meu casaco, ele deixava escapar uma patinha, que você via e dizia: “Acho que estou vendo alguém aí...” Então havia um teatrinho. Eu corria com o Pitoko, dizendo que ele não queria sair do quentinho do bolso. Mas você não desistia. Corria, já um pouco brava, até arrancá-lo de mim. Aí você o acarinhava, dizendo: “Você não gosta mais da mamãe, é?... Não sente saudades de mim?! Estou chateada com você!” E, com esses afagos, você reconquistava o Pitokinho. Caminhando mais um pouco, passávamos a uns cem metros de uma sorveteria. Você olhava para lá e dizia: “Soverte, soverte, pai. Quero soverte!” Eu fingia não entender, mas você insistia. Houve vezes em que passamos lá para gelar o gogó. Mas eu dizia sempre que picolé dá dor de garganta, resfria, dá gripe... embora isso nunca a convencesse, nem a mim. 

Obrigado, Mariana, pelo ensejo. Agora é sua vez de viver essa doce saga com a Maria Eugênia.


FILIPE


sexta-feira, 5 de novembro de 2021

O PEDREIRINHO

Ele acaba de completar ‘cinquenta anos’! Ainda ontem esse mano era um rapazinho franzino, que furava buracos, amarrava ferragens, levantava muros e paredes, armava laje, cimentava, rebocava e azulejava. Com apenas dezoito anos ele ergueu a minha casa!

Olha, que tempos foram aqueles!... Era finalzinho dos anos oitenta e começo dos noventa. A inflação roía nossas economias, tornando difícil um planejamento. Mas, com o mano ao meu lado, fui em frente. Trabalhando quase sempre sozinho, ele fazia a argamassa, punha na lata e subia no andaime onde despejava a massa no caixote. Depois descia, ajeitava a masseira e retornava ao andaime com a colher de pedreiro, prumo e nível. E assim, as paredes de alvenaria foram erguidas, colunas concretadas, laje batida, telhado posto.

Por tempos, levantando muito cedo, ele atravessava parte da cidade, percorria alguns quilômetros, até chegar à obra. A comida era bem precária: arroz, feijão, carne cozida e talvez uma salada, ou nem isso. O cardápio, que eu mesmo preparava, não variava nunca. Mas ele talvez não saiba que a minha comida era ainda mais pobre. A carne eu reservava a ele, enquanto eu me virava com um ovo cozido.

O interessante é que ele nunca pediu aumento no ordenado. Combinamos um valor no começo da obra e depois as coisas foram se ajustando. Certa vez eu lhe propus pagar o valor de ‘dois sacos de cimento’ como diária. Ele se animou, dizendo que “o Chimba sempre falou que o pedreiro deve ganhar ‘dois sacos de cimento’, e que o servente pode ganhar ‘um saco’”. Fiquei contente, porque não foi preciso mais fazer muitas contas. Bastava contar os dias de trabalho e ver o preço do saco de cimento que eu pegava lá no Zé da Roleta. Então, quando eu ia acertar, ele ia nos seus guardados e pegava um pedaço de papel onde estava sua contabilidade. Nesse papel, que não por acaso era de saco de cimento, ele apontava os dias trabalhados e eu pagava.

É importante explicar uma coisa. Naquele tempo, a Votorantim monopolizava a produção de cimento e punha o preço que lhe conviesse, chegando a sonegar o produto para encarecê-lo. Mas isso mudou depois que o presidente Itamar Franco importou cimento da Grécia, fazendo o preço cair. Hoje, ainda que o cimento seja caro, o preço não se compara ao que já fora.

Mas o mano não perdia tempo mesmo. Trabalhava o dia todo e à noite ainda ia para a escola estudar aquilo que era conhecido como ‘primeiro grau’; concluído esse, fez o segundo grau. Lembro dele naquela escola, onde eu também lecionei. Nesse tempo, sua vida tinha melhorado, porque já estava trabalhando na indústria. Ele chegava timidamente e se dirigia a um professor para pegar a ficha de estudos. Não sei se por coincidência ou sorte dele, mas eu nunca o atendi.

Econômico, quase não gastava o que ganhava. Na minha memória ficou uma domingueira calça jeans que ele sempre usava. Nela tinha um desenho de um vampiro e a palavra “Vamp” alusivo a uma novela. Acho que ele tinha outras calças, mas só me lembro dele com essa.

Hoje o "pedreirinho" já não tem dessas preocupações. Estabilizado, oferece sem medir esforços todo conforto à sua família composta de esposa e três filhos – o mais velho, um futuro economista.

O que mais me impressiona nesse mano, de poucas palavras e humor cáustico, é sua sabedoria. Dentre os onze irmãos, talvez ele seja a voz mais sensata, ponderada e esperada quando surge algum impasse entre nós.

FILIPE

sexta-feira, 22 de outubro de 2021

PASSAREDO


O flagrante acima é de um jacu. Essa ave esbelta e um pouco arredia costuma me dar o agrado de uma breve visita, mas que só acontece de vez em quando. Ela deve ter suas razões, e por isso não gosta de muita prosa comigo. Quando chega, pousa no telhado, olha ao redor, caminha um pouco e pula para o abacateiro, depois voa para a mangueira e de lá segue seu destino para outras e longínquas paragens.

Moro numa região bastante arborizada onde há várias espécies de pássaros. Por aqui há sabiás, bem-te-vis, rolinhas, tico-ticos, corruíras, sanhaços, canários-da-terra, tucanos, galos-da-campina, pica-paus, joões-de-barro, maritacas, anuns, colibris, asas-brancas e um sem-número de outros pássaros que não consigo nomear.

Nas manhãs de sábado, ando pelo bairro com meu cãozinho Tokinho e vamos ouvindo o passaredo. Outro dia, num desses passeios, notei algo estranho na casa de um vizinho. O homem estava com uma vara comprida – talvez um bambu, ou sei lá o quê. Ele usava aquilo para dar golpes violentos na garagem, onde estava seu carro. De vez em quando ele abaixava e enfiava o bambu por debaixo do carro, levantava novamente e socava o bambu pra lá e pra cá. Quando me viu, parou por um momento, mas voltou ao serviço. Daí a pouco sua mulher chegou, talvez para ajudá-lo ou, quem sabe, fazê-lo desistir daquela difícil empreitada que lhe roubava as forças. E ele bate com o bambu aqui, bate ali, bate lá até quebrá-lo. Nesse momento, quando ele se abaixou para pegar o pedaço do chão é que vi o que acontecia. De súbito, um jacu passou rasante pela sua cabeça e ganhou o bosque lá embaixo. Mas foi por pouco que o homem não o acertou. Furioso, ele ainda conseguiu lançar aquele pedaço de bambu, chegando arrancar uma pena da pobre ave.

A última imagem que me ficou daquela cena – que considero “obscena”, é bom ressaltar –  foi a do homem com uma pena preta na mão e olhando na direção do bosque, à procura do jacu – agora feliz e salvo.

Durante o inverno, os passarinhos sofrem bastante. Esses pequenos seres vagueiam à procura de alimentos que são bastante escassos. Tento atendê-los com uma pitangueira, duas goiabeiras e três amoreiras. Não posso fazer mais do que isso, mas ajudo um pouco. A vizinhança, porém, não colabora. Dois anos atrás, um vizinho “removeu” árvores que o incomodavam com folhas na calçada. Cortou as árvores para vender o imóvel em seguida. Vai entender... Outro vizinho fez algo semelhante àquele. Cortou dois grandes pés de lichia, que alimentavam inúmeras famílias de maritacas, e vendeu a chácara logo depois.  

Os pássaros – essas pequenas, frágeis e dóceis criaturas – são tão necessários que, sem eles, em dois anos os insetos nos dominariam, sendo extintos todos os vertebrados não marinhos do planeta. Pelo menos foi o que ouvi há muitos anos no extinto programa Projeto Minerva da rádio MEC.

“Vinde a mim as criancinhas, mas também os passarinhos!”, talvez dissesse Cristo no dia de hoje.

FILIPE

 

sexta-feira, 8 de outubro de 2021

PERDAS

 

Cheguei ao ponto de ônibus às ‘seis horas e vinte e cinco’— como faço todos os dias, de segunda a sexta-feira. Há vezes em que o ônibus atrasa uns minutinhos, chegando às seis e meia. Dessa vez, no entanto, ele não atrasou.

Como sempre, uma senhora já está lá desde muito antes de eu chegar. Com cigarro aceso, fazendo fumaça e pensando na vida, ela me parece bastante simpática, mas de pouco assunto. Chego, dou-lhe o bom-dia e também fico em silêncio até o “cata-louco” chegar. 

De uns tempos para cá, no entanto, passamos a trocar algumas frases banais do tipo: “que frio!”, “que calor!”, “que seca!”, “que chuva!”, e nada mais do que isso. 

Hoje, porém, fomos um pouco além do prosaico. Eu sentia frio, mesmo com um casaco, e ela em trajes de verão.  Perguntei se fazia frio mesmo ou estava febril, e expliquei o motivo. Extraí um dente, estou com vários pontos, tomei anestésico e aquilo tudo me afetou bastante, só conseguindo dormir à noite depois de tomar dipirona.  Ela disse que não fazia muito frio, mas que não estava quente também. E disse mais. Hoje teria um dia bastante agitado. Disse que deveria sair do serviço para fazer compras etc., e que resolveria alguma coisa da família de um primo que falecera anteontem. “Seu primo faleceu? Com que idade?”, perguntei a idade, mas não o porquê (não gosto de saber a causa mortis, porque não tenho vocação para legista). Ela disse ‘sessenta e cinco’, e eu respondi que não era velho. Em seguida, ela me disse que perdeu uma sobrinha, e esta tinha 35 anos – o que me deixou bastante assustado. Dessa vez não foi preciso perguntar a idade, mas eu quis saber se o nome dela era Juliana; quase perguntei se foi covid, mas essa palavra tem causado alguns atritos e eu não queria aborrecer alguém e muito menos ser aborrecido. “Não, a Juliana é outra pessoa, e já faz dois meses que partiu; minha sobrinha era a Aline, que faleceu semana passada”. 

O ônibus apontou na curva, mas a tempo de ela ainda acrescentar algo. Disse que, há tempos, teria perdido uma irmã e a mãe, e com diferença de apenas seis meses entre uma e outra. 

Nesses ínfimos quatro minutos de prosa, foram quatro longas perdas relatadas pela minha colega passageira. Ao subir os degraus da embarcação, apenas tive tempo de dizer uma ‘platitude acaciana’ -  algo típico do ‘Conselheiro Acácio’, um personagem célebre de Eça de Queiroz: “A vida são perdas”. Ela concordou e entrou; eu entrei também. Paguei a passagem e me acomodei num banco alto perto da roleta, e ela foi para o fundo, sentando-se no banco de sempre. Nesse momento, pensei: “Ela perdeu o pai, a mãe, irmã, sobrinha, primo... E eu aqui, triste por ter perdido um dente!” 

FILIPE

sexta-feira, 24 de setembro de 2021

QUEIMADAS

Quando menino, fiz uma tremenda besteira da qual nunca me esqueço. Na época em que cometi esse “crime”, eu tinha a idade de dez ou onze anos. A história foi assim. Meu pai havia roçado nosso quintal e feito umas coivaras [um amontoado de galhos] para serem queimadas a fim de preparar o solo para o plantio. Ele é quem deveria pôr fogo nas coivaras, e não um menino, que ‘não tem juízo’. 

Antes desse malfeito, eu assistia encantado às queimadas que todos faziam naquele tempo e queria protagonizar uma cena daquelas também. Lembro de um tio, irmão caçula de minha mãe, que botou fogo num roçado no sítio da vizinha tia Badica. Ele pegou uma vara de bambu com um chumaço de pano embebido de querosene, pôs fogo nesse chumaço e semeou as chamas pelo matagal. Eu olhava com orgulho (e inveja) o meu tio: pequeno, um garoto ainda, mas tão poderoso! 

Voltando ao meu caso. Meu pai não estava em casa e eu, querendo adiantar o serviço, peguei uma caixa de fósforo, risquei um palito e tentei pôr fogo nas coivaras. O fogo começou trêmulo, desanimado, chegando a apagar. Eu tive que gastar vários palitos de fósforos para convencer o fogo que aquele era um trabalho sério. Por fim, uma pequena chama se formou. Depois outra e outra e outra, que se uniram e se animaram. Em pouco tempo as labaredas devoraram as minhas coivaras e queriam mais. Então elas começaram a lamber as beiradas do mato que cercava o roçado e, de repente, uma língua de fogo mais comprida e indisciplinada alcançou uma pequena moita de capim, já fora do meu roçado. Foi o suficiente para eu perder o controle da situação e ser dominado pelo danado do fogo. 

Desesperado, usando um pequeno balde com água para apagar o fogo, comecei a gritar, pedindo socorro. Meus irmãos eram muito pequenos e nada poderiam fazer, mas o Zé Alfredo, nosso vizinho, chegou para ajudar. A essa altura, o fogo já estava no terreno da tia Badica, transformando tudo em cinzas. Sem pressa, com muita calma, o Zé Alfredo foi controlando as chamas, até apagar completamente o fogo. Ele usava um galho de folhas verdes, com o qual abafava os focos até dar cabo de todos eles. 

Aprendi a lição e nunca mais eu quis saber de pôr fogo em mato. Envergonhado, tive que ouvir por muito tempo a mofa de minhas vizinhas, as filhas do Antônio Moisés. “Então o fogo pulou?!”, perguntavam. “Pulou, uai!”, eu respondia, tentando mudar de assunto. 

Conto essa história aqui, que é verdadeira, para mostrar que havia uma “cultura do fogo” no meio rural. Aquelas queimadas eram feitas todos os anos no preparo do solo para a plantação, mas eram muito bem controladas. O que acontece atualmente não tem paralelo com o passado. Há um crime ambiental no campo e nas cidades. Nada justifica que desocupados ponham fogo nas margens das estradas, em terrenos urbanos e, muito menos, que incendeiem nossas matas.

FILIPE


sexta-feira, 10 de setembro de 2021

APANHANDO DE BOLSONARISTA

Quem tem a “fortuna” de conviver comigo já teve o infortúnio de perceber que sou uma pessoa pouco suportável. Talvez por isso meu círculo de amigos seja muito pequeno e sem que eu tenha pretensões de ampliá-lo. Meu cotidiano é bastante monótono e muitas vezes procuro um refúgio para, em voluntária solidão, fazer acertos e reparos em minha maculada alma. Todavia, estando com pessoas com quem tenho afinidade, costumo ficar à vontade para expor pontos de vista. Foi mais ou menos isso que me aconteceu dois dias atrás. 

De manhãzinha, assim que cheguei à escola, um pequeno grupo de colegas começou a falar sobre os malefícios causados por aquela figura abjeta alçada à presidência da República. Havia manifestações de caminhoneiros com obstrução de rodovias etc., e uma amiga estava indignada porque um familiar dela, que também é caminhoneiro, e mesmo sofrendo as agruras socioeconômicas desse desgoverno, defende o ogro. Até esse momento todos falávamos serenamente. No entanto, uma professora chega subitamente, entra na roda e dardeja: “Agora tudo é culpa do Bolsonaro! É só ele?!” Todos a olhamos assombrados, quase sem ter o que dizer, mas lancei um torpedo: “Sim, ele é um capeta!” Eu disse “capeta”, mas não deveria escrever isso  porque meu pai, que costuma ler este blog, deverá me passar um corretivo – não em defesa do ’capeta’ ops!, mas por que não devemos xingar ninguém, nem mesmo aquele ‘coisa-ruim’. 

Mas a mulher “chegou chegando”, como dizem os ‘modernos’, e dominou a banca. Dos que participavam da roda, três se calaram, restando apenas uma amiga e este infortunado, que sou eu. Dedo em riste na nossa direção, ela vociferava: “Vocês são comunistas, petistas e só querem bagunça. Nós não. Somos gente de bem, somos família. Bolsonaro é pela família.” “Sim, Bolsonaro gosta tanto, que já está na quarta família!”, ironizei. Mas a intrépida senhora estava disposta a continuar o entrevero, e tinha energia para isso. Disse (gritando) sobre o progresso que Bolsonaro teria levado ao Nordeste, agora com estradas e muitas outras coisas boas que só ele, mais ninguém, foi capaz de fazer. 

Eu estava apanhando bastante da bolsonarista e tentei me defender, agora atacando: “Você é professora e não conhece a história do Brasil?!” “Conheço, sim. Eu fiz direito, sabia?” “Ah, fez?... Mas não parece. Não sabe o que foi a ditadura militar, endeusada pelo genocida, nem o que foi a tortura, que ele defende...” “Então... você, que sabe muito, venha dar aula pra nós!” Nisso entrava o professor de história, a quem ela abordou para lhe dizer: “Olha, o sabe-tudo ali vai dar aula de história pra nós!!!” O professor não estava entendendo nada do que acontecia (sorte dele), mas ficou um tempinho ali, tentando dar pé do ocorrido. E eu, já agastado com tudo, encerrei com esta: “É um absurdo professor não conhecer a história recente do país. Que futuro terão nossos jovens?...” 

Não sei o que mais aborrece: se esse fla-flu entre “gente de bem” e “gente do bem” ou a indigência intelectual de nossos mestres. 

FILIPE