sexta-feira, 15 de maio de 2015

ABELHUDO


O Velho estava aperreado. “Coinfeito!”, dizia e repetia para mim e para si enquanto examinava a tela de seu computador. Não é bem isso que ele diz quando está bravo, mas é o que sempre entendi ao longo da vida em delicados e perigosos momentos como aquele. No seu vocabulário, “coinfeito” exprime aborrecimento com alguém que fez “arte” e merece apanhar.

Eu chegava do ranchinho, quando me deparei com o Mano Véio na varanda de casa. Havia chegado naquela tarde e já estava no computador do pai, animado e proseador, enquanto páginas eram abertas e fechadas freneticamente. O pai chegou devagar e o espiou à distância, desconfiado, esticando o pescoço para tentar ver algo na tela. Olhava para mim, para o computador, para o Mano, mas não disse palavra.  Quem falou algo foi o Mano, que deu umas explicações ao Velho. Aliás, este irmão gosta de explicar as coisas e costuma ser bem-informado mesmo – justiça lhe seja feita. Mas, parece que desta vez ele falhou.

“Pai, o computador está infectado por um vírus terrível!” “Mas ele tá funcionando comigo...”  “Não, pai. Tem um vírus e vou limpá-lo para o senhor. Aqui, pai, tá vendo?... Vou dar este comando. Aí, vai aparecer aquele ícone, tá vendo? Então, eu vou inserir...  Pronto, inseri. Agora apareceu uma vassourinha, tá vendo? Esta vassourinha é que vai limpar o seu computador”. “É, tô vendo uma coisa ali, mas parece uma trincha.”  “Então, pai, parece trincha, mas é uma vassoura que varre tudo e deixa limpinho e sem vírus. Vou dar enter e é só aguardar uns minutinhos. Agora eu vou sair para o Corgo Preto. Mas é só reiniciar, que vai ficar uma beleza.”
Aqui, um pequeno parêntese: o nome do simpático arraial é Vilas Boas, embora alguns falem Corgo Preto e quase todos nós, Cor Preto.

O tempo passou, o computador não proseava e o pai me pediu socorro. “O que tá acontecendo aqui? O meu “feice” não entra de jeito nenhum!” “Ih, pai, eu não entendo desse negócio de vírus não. Ele é quem sabe, mas vou ver o que aconteceu.” Posicionei-me diante da máquina, ajeitei a cadeira, dei umas estaladas nos dedos e comecei a mexer no teclado. Havia dito que não entendia nada, mas nesse momento cheguei até mesmo a ficar metido, confesso. A modéstia seria apenas motivo para valorizar meus ‘ricos conhecimentos em computação’. Mas, como a mediocridade é mais forte do que a vaidade, não consegui resolver bulhufas. E o computador engasgou de vez, não acessando a tal da net nem por macumba braba.   Arrisquei: “Que tal a explorer?”  Bingo! A explorerfuncionou, mas muito lenta. “Ah, não. Eu quero o GoogleChrome”, reclamava um magoado papai cheio de razão.

É, a tal vassoura do Mano Véio é boa mesmo. Varreu tudo do computador, não deixando nem o “feice” do papai. Desinstalado nessa varrição, o Google Chrome fora para o lixo. E o pai teria que esperar pela sua reinstalação por longo tempo: atravessaria todo o sábado, o domingo inteiro para, somente na segunda-feira, buscar socorro num especialista de verdade. E assim se fez.

Quando pequeno, há muitos e muitos anos, ouvia mamãe gritar com seu primogênito: “Isto é pra você deixar de serabiúdo!” Eu queria saber o significado daquela palavra, mas, por razões óbvias, tinha medo de perguntar à mãe, se é que me entendem. Mas o moleque era mesmo um ‘mexilhão’: mexia em tudo, um abiúdo.

Engana-se, porém, quem pensa que estou aqui a espinafrar o Mano Véio. Da irmandade, é dos mais generosos e foi graças a ele que o pai se tornou um internauta. Providenciou para o Velho um notebook, a conexão com a internet e agora já está ensinando o pai a usar antivírus.

FILIPE

sexta-feira, 1 de maio de 2015

LIRISMO E REALIDADE

LIRISMO: “Tapera de beira de estrada...”, assim começa uma música nesta fria madrugada de primeiro de maio. Enquanto faço estes rabiscos para o blog, ouço, na varanda de meus pais e ao lume trêmulo de uma lamparina, umas músicas de raiz.  A chama da lamparina vai e volta, inclina-se para cá e para lá, parecendo-se curiosa sobre o que escrevo. Mas não, são delírios meus. Essa lamparina evoca “os tempos mais antigos do passado”, quando não tínhamos luz elétrica nem água encanada e morávamos aqui, onde ainda permanecem meus velhos e queridos pais.

A chama está agora verticalmente ereta e parece ter desistido da curiosidade para se concentrar na música de Tonico e Tinoco, que tangem suas cordas no minúsculo aparelho de meu pai. Aqui, neste momento, dois mundos tão díspares se encontram: o da tecnologia digital, do século vinte e um, e o da novecentista lamparina a querosene. De permeio, este intruso que divaga.

Recordo o passado embalado pelos cantadores de alma pura, acompanhado do chimarrão, de um livro de preces e de um “Andrea Del Fuego”. Escrevo o texto num  papel de pizza – mais tarde, plasmado na tela, percorrerá o continente e cruzará o Atlântico para buscar abrigo no “feldades”, já em terras de Camões.

A alegria de estar aqui transcende a tempo e espaço, e o que é transcendente não se descreve: contempla-se, apenas. E eu continuo aqui, meio desequilibrado com o que aprecio. Ao longe, um galo também se encanta.

REALIDADE: Mas a realidade me fere e me desperta. Lá bem distante, nas bandeirantes terras de São Paulo, o estado mais rico da nação, muitos professores estão em greve. Nas escolas faltam de tudo: carteiras, cortinas, vidraças, água, vagas para alunos e, incrível: pratos e talheres. Há casos de escolas em que se usam pratos e talheres de plásticos, sem reposição ou troca, há mais de quinze anos. São utensilhos cheios de ranhuras, um abrigo para colônias de fungos e bactérias, um atentado à saúde. E o pior: alunos e professores convivem com essa precariedade, típica de um país subsaariano, como se fosse normal. É normal que o estado de São Paulo, com um terço da riqueza da Nação, ofereça escolas tão precárias?

Desculpe-me a quebra de lirismo, mas não me contive. Se quiser saber mais sobre o estado crítico em que nos encontramos, acesse um texto recém publicado em minha página do “feice” sob o título: "Por que lutamos?"

Termino este, desconfiado de que meu tempo por aqui esteja expirando. Minha mãe sempre nos disse que “tudo tem conta, peso e medida”.


FILIPE

sexta-feira, 17 de abril de 2015

DONA JACIRA


Nos longínquos anos sessenta, a casa da vovó Jacira parecia estar sempre em festa. Os netos, que já começavam a brotar feito cogumelos no começo da “estação das águas”, para lá acorriam em festiva revoada. Os tios, alguns ainda crianças, misturavam-se com a nova remessa de gente pequena para brincar de bolinha de gude, pega-pega ou subir nas centenárias mangueiras que sombreavam o antigo casarão. E a sempre ocupada dona Jacira, com panela no fogo ou lavando roupa na bica, recebia-nos com indizível alegria perguntando: “E lá?” – isto é, como está sua família?

Durante boa parte da vida, aquela aguerrida mulher trabalhou duro na roça plantando milho, arroz e feijão para sustentar seus onze filhos. Meu avô Aurélio vivia sempre “esbarrado, sem expediente”, conforme se dizia de quem era desprovido de ânimos para a lida. Então, era vovó quem assumia a dianteira de tudo na casa. Cuidava dos pequenos, do roçado, do trabalho doméstico e do marido adoentado, que por muitas vezes ficaria internado no Colônia – um manicômio da cidade mineira de Barbacena, de tristes histórias. Cuidava também da mãe, minha bisavó Ritinha, uma senhorinha velhinha, doente e que logo viria a falecer. Foi papai quem lhe fez o caixão, utilizando umas tábuas que ficavam guardadas no paiol, e o forrou com um pano roxo fixado por tachinhas.

Lembro-me nostálgico dessas visitas à vovó com minha nascente família, composta de “apenas” quatro ou cinco irmãos. Os demais, ainda no “ninho da cegonha”, aguardavam ansiosos o alvorecer da vida, que lhes surgiria promissora. Para lá, mamãe nos levava animada e com gosto. Chegávamos para o almoço e ficávamos até a noitinha, quando papai aparecia para nos pegar. Chegando, a vovó lhe dava comida. Após o jantar, ele permanecia por algum tempo sentado num dos grandes bancos que havia na enorme cozinha. Com um terço na mão, o jovem pai começava a cochilar a sua sesta. De repente, dava um salto e bradava: “Mas tá tolo, sô. É só sentar, que começo a dormir... Vamos embora, Juracy, vamos!”. A vovó intervinha: “Coitados dos meninos, compadre. Lá fora, tá fazendo um frio danado, que só  veno! Deixe-os aqui e amanhã eles vão”. (Sempre gostei desta sua marca, quando exprimia espanto, preocupação ou admiração: “só cê veno”. Para os cultos, poderia ser “só você vendo”; para nós, no entanto, a singela expressão da vovó era muito mais bela). Já era tarde quando voltávamos, coisa de oito ou nove horas da noite!

Recentemente, a irmã mais velha me fez recordar um episódio prosaico, mas carregado de simbolismo. A vovó, cozinhando e nos vendo por perto, fazia uma pequena “traquinagem”. Pegava o soquete, com o qual amassava o feijão, e nos dava para lambê-lo.  Depois lavava o soquete, socava mais e repetia o gesto, pedindo para ficarmos “amoitados” atrás da porta da despensa, para que ninguém nos visse. Também, de vez em quando, ela nos presenteava com umas franguinhas – uns pintinhos “recém-desmamados”. E até uma cadelinha, de nome Bonina, ganhamos dela. Normalmente o agraciado com a franguinha era o neto mais velho, ou um aniversariante, que fazia planos mirabolantes. A partir da franguinha, viriam dezenas, centenas, talvez milhares de franguinhos, uma verdadeira fazenda de galináceos. Mas o papai, com a autoridade de provedor da família, apossava da franguinha e dos nossos planos de fazendeiro. “Aqui, ninguém é dono de nada e todos são donos de tudo!” – ouvi certa vez, submisso, essa frase lapidar.

Mas um dia a vovó Jacira separou-se do vovô Aurélio, foi embora e a festa acabou. A casa tornou-se vazia, quase fúnebre, enquanto vovô sorvia, calado e resignado, a amarga desventura.

Passaram-se os anos, meus avós envelheceram e vovó resolveu voltar à velha casa, onde vovô continuava morando – agora com um dos filhos. Ao saber da visita, ele ficou eufórico. Pegou o pequeno embornal que ficava pendurado na porta da despensa, correu à venda, comprou “quitanda” e ele mesmo preparou o café. Vovó chegou tímida, mas solene. E com modos quase aristocráticos, tomou o café em silêncio, sendo observada por ele à distância. Outras vezes ela voltaria ali a passeio, para um dia retornar de vez. Embora optasse por morar num cômodo ao lado da casa, a sua rotina se misturava à do vovô numa fraternal convivência. Conquanto não se falassem, vovó parecia nutrir por ele um carinho, ainda que residual. Dele, ela nunca me disse algo que o desabonasse. Como tínhamos muita proximidade, talvez pelo fato de ela ter assistido o meu parto, conversávamos bastante. Ouvia suas queixas, alguns segredos e quase sempre a exclamação: “Coitado do seu avô!” – àquela altura já debilitado pelo câncer que logo o levaria. Algum tempo depois, acometida pela mesma moléstia, era vovó quem iria.

Separados, vovó Jacira e vovô Aurélio passaram toda a velhice e assim partiram. Mas algo muito nobre, sublime, um raro bem-querer parecia uni-los em vida. Por isso, creio que estejam reconciliados na eternidade. 
NOTA: No alto, casa de meus avós, onde nasci.


FILIPE

sexta-feira, 3 de abril de 2015

BALAIOS

Os primeiros utensílios artesanais que conheci foram o pilão e o balaio. O primeiro é um tronco bruto de madeira, que tem uma cavidade onde se põem grãos para serem triturados por uma espécie de clava denominada mão-de-pilão. Meu pai sabia fazer os dois, mas nunca o vi fabricar pilões. Nem mesmo o nosso, de peroba, que por anos nos serviu, e que durante seu “repouso” era virado, transformando-se num confortável banquinho. Mas balaios, um tipo de cesta sem alça, vi meu pai fazer muitos. Eu mesmo o ajudava, cortando bambus, que não poderiam ser muito maduros, por resistirem à moldagem e nem muito verdes, por não terem durabilidade. Papai abria os bambus em longas tiras, descarnava-as e as entrelaçava. Em ângulo reto sobre o fundo assoalhado, dobrava os “mourões” pelos quais tecia a trama de suas paredes.

O Tatão Tibúrcio também fazia os dele, grandes e arredondados, parecendo não ter a mesma perícia de papai. Mas o Tatão utilizava taboca, uma espécie de bambu cheio de espinhos recurvos e lacerantes. Seu trabalho era mais penoso, pois teria que retirar todos os espinhos para poder construir suas cestas e balaios.

Havia uns homens da montanha, de uma região denominada Careço, e deles se diziam ser gente muito braba, mas sua fama maior era mesmo de artesãos. Seus balaios eram mais bem trabalhados, com desenhos nas laterais, um primor. Não usavam o nosso bambu nem taboca, mas taquara, que é outra espécie de bambu – mais delicado e “obediente”. Papai, de vez em quando, comprava um balaio de taquara daqueles montanheses.

Eu também me arrisquei no ofício. Por mais de uma vez cortei bambu e tentei fazer balaio, conforme via meu pai fazendo. Mas na hora de dobrar os “mourões”... Enquanto eu segurava uma ponta, a outra soltava; recuperando aquela, esta é que soltava. De repente, uma farpa adentrava minha carne, salpicando tudo de vermelho. O fim. Num ímpeto, eu chutava aquela geringonça e praguejava prometendo nunca, mas nunca mais fazer balaios. Passados alguns dias... “Acho que vou conseguir desta vez, pois todo mundo faz”. Então um bambu é cortado, rasgado em tiras, descarnado. Uma ripa é dobrada, redobrada, desdobrada e...  “Praga de bambu, praga de balaio, cortei o dedo, nunca mais mexo com essa birosca!”

Mas eu não queria falar de artesanato, nem do artesão que nunca fui, embora tentasse. Numa conversa recente com um irmão, lembrei-me das roças de nossa infância e dos balaios de milho que enchíamos durante a colheita. Eram pesados, mas eu me esforçava, enchendo-o até à boca. Num galeio, punha o balaio no ombro, mas algumas espigas mais salientes costumavam escapar e caíam. Eu abaixava até a espiga fujona para devolvê-la ao balaio já no ombro e, desequilibrando-me, caía com o balaio e esparramava a carga. Eu, pequeno e fraco – talvez ainda continue assim – trabalhava para além de minhas forças.

Hoje, meu balaio não é de bambu, mas costuma ferir-me os ombros. Todo domingo vou até a igreja para pegar com meu Senhor um “balaio” vazio para, durante a semana, enchê-lo com as espigas que encontrar. No final da semana, levo de volta o balaio à igreja e apresento ao meu Senhor os frutos de minha jornada. Às vezes tenho vergonha, pois o balaio está um pouco vazio, com espigas ruins ou com impurezas. Então, peço perdão ao meu Senhor e prometo uma colheita melhor na próxima semana. Quem sabe, um dia acerto?...

O irmãozinho, a quem dedico esta crônica tendo o balaio como metáfora, também entrega o seu, que é sempre transbordante e com as melhores espigas. Preciso aprender com ele.


FILIPE

sexta-feira, 20 de março de 2015

NÓS MERECEMOS

Este texto, sem lirismo algum, ácido, é o que brota de minhas fatigadas entranhas num momento de turbulência nacional. Tenho evitado ler o noticiário, pois se há algo que me deixa nauseabundo é a tal da covardia. “Não seja cobarde!”, dissera algum poeta dos “oitocentos”, mas não se vê outra coisa nas mídias.

Talvez, com o fito de se parecer chique, inteligente, intelectualizado ou sei lá o quê, muitas pessoas praticam o hobby de achincalhar o PT e a dona Dilma. Fazem dela uma espécie de Collor, aquele espectro de suadas memórias. Mas a dona Dilma não é Collor e o PT..., bom, tá difícil falar de PT neste momento. Mas falarei daquela sofrida senhora e isso já me alivia.

Observando um gráfico do Datafolha, vê-se que a popularidade de dona Dilma vinha ascendendo mês a mês, até atingir o pico de 65% de aprovação em março de 2013. Mas um mês após, em meio aos protestos de junho daquele ano, iniciado pelo movimento Passe Livre, sua popularidade despencou para 30%. A polícia paulista, a mando do governador Alckmin, baixou o cacete na moçada, mas quem apanhou mais foi Dilma. Os protestos não eram direcionados a ela, mas havia o receio de que pudesse se reeleger. Certos grupos políticos apoiados pela mídia redirecionaram os canhões e acertaram a presidente. Segundo especialistas no assunto, nunca na história um chefe da nação teve queda tão brusca de aceitação sem um motivo que o justificasse.

Hoje, quando pego o jornal pela manhã, as manchetes são sempre desfavoráveis, negativas, um verdadeiro linchamento da presidente. Coisas do tipo: “Câmara derrota Planalto”; “Dilma é derrotada em sessão relâmpago”; “Governo é derrotado no Senado”; “Cunha derrota Dilma”; (...). Afinal, quem são os derrotados: Dilma ou a sociedade? Seria preciso explicar melhor que tipo de projeto está sendo rejeitado, mas isso não lhes interessa.

Mas as coisas vão clareando, bem devagar, mas vão. Tirante o escândalo da Petrobrás, uma coisa já bem antiga, gestada no regime militar, mas que só veio à tona devido a interesses contrariados, penso ter descoberto a causa de todo esse estardalhaço. Não falo dos pobres insatisfeitos, que vão de ônibus para São Paulo bater frigideira na Paulista e comer cachorro quente olhando para cima, admirando a beleza dos arranha-céus. Não. Eu falo é dessa corja de endinheirados rentistas, que alugam prédios de apartamentos e vivem como nababos no exterior. É essa gente maldita, com dinheiro no HSBC, que quer a dona Dilma no calabouço. E sabe por quê? Eu sei e vou contar, mas é segredo. A dona Dilma foi reeleita com o objetivo de corrigir o Fisco. Apresentará projeto de lei para taxar grandes fortunas e quer federalizar o imposto sobre herança. Em países avançados, os herdeiros chegam a pagar mais de dez vezes o que se paga desse imposto por aqui, que é estadual e com alíquota de apenas 4%. Já o imposto sobre as grandes fortunas poderá atingir 5% dos brasileiros, todos com patrimônio igual ou superior a um milhão de reais. Esse pessoal sabe disso e não quer perder. Para tanto, insufla o coitado do pobre semialfabetizado contra o governo federal, usando-o como a desgastada “bucha de canhão”.

Uma perguntinha só para encerrar este texto, que já me cansa. Cite dois ex-presidentes da Câmara Federal. Não lembra? Diga ao menos o nome daquele que antecedeu a Eduardo Cunha. Também não lembra? Não, não se preocupe, pois você não está com amnésia. Presidente da Câmara dos Deputados nunca teve muita importância neste país. Mas, como convém aos nossos parlamentares, quase todos envolvidos em esquemas, coube a esse cidadão representá-los com inusitado destaque. Eduardo Cunha, de origem no submundo da política carioca e investigado na operação Lava-Jato, tornou-se o “Grande Líder da República Tupiniquim”. Nós merecemos!


FILIPE

sexta-feira, 6 de março de 2015

FANTASMA PEDAGÓGICO

A mídia não divulga, mas a Secretaria Estadual da Educação de São Paulo (SEE-SP) protagoniza, já há muito tempo, algumas mazelas. Vamos a elas:

1) Se feitas as contas o governo federal gasta, a cada três anos, mais de dois bilhões de reais na substituição de livros didáticos em todas as escolas públicas do País. E o que a SEE-SP faz? Desestimula os professores de sua rede a usar o rico material do MEC, exigindo prioridade no material elaborado por ela. Na prática, empurra-nos “goela abaixo” suas apostilas, cujo conteúdo não passou pelo crivo da academia. Diferentemente destas, os preteridos livros do MEC são avaliados e aprovados pelas mais conceituadas universidades do País.

2) Todos os anos a SEE-SP aplica uma prova, denominada SARESP, a alunos concluintes de cada ciclo. Dentre outras finalidades, serve para bonificar professores e funcionários das escolas que se sobressaírem na bendita avaliação. Mas, como as disciplinas avaliadas são apenas Matemática e Português, recai sobre o lombo dos infantes professores da área a incumbência de, “sob aplausos ou vaias”, alavancar sua escola ou pinchá-la ladeira abaixo.

3) Há, neste rico estado de São Paulo, uma categoria de profissionais da educação com diploma universitário contratada em regime de semiescravidão. Esta espécie de “subprofessores”, além de privada de direitos trabalhistas, tem que cumprir quarentena (afastamento sem remuneração) após determinado período de atividade.

4) Por alguma razão, professores convocados para reuniões pedagógicas não recebem “diária”, que deveria ser depositada numa conta do Banco do Brasil (não podendo ser poupança). Quem decidiu transferir sua conta-salário para outra instituição fica alijado do benefício. E não adianta espernear, pois não verá nem cor nem cheiro desses caraminguás, que deverão voltar para o Tesouro Estadual (ou para outro lugar, onde até Deus ignora).

5) Profissionais da educação são frequentemente convocados para reuniões com gente da DE (Diretoria de Ensino, mas que para mim continua sendo “delegacia de ensino” – e com minúscula, para melhor expressar minha fúria!) Nesse departamento, salvo raríssimas e honradíssimas exceções, viceja uma colônia de parasitas, que não faz outra coisa senão tomar café, falar de novela e BBB, além espezinhar a vida de professores. Ah, as reuniões..., e para que servem? Para tentar converter professores a um inovador método de ensino-aprendizagem.

Houve, no século passado, uma gente metida e desocupada desejosa de melhorar o ensino do "povo pobre e oprimido". Para tanto, cismaram de reinventar a “roda da educação”, adotando um método experimental. Esse assunto, que no final do século serviu de vomitório para gerações de estudantes e professores mais lúcidos, foi o “santo graal” para os menos iluminados. Mas, quando todos o sabíamos extinto para todo o sempre, eis que ressurge, do lodo em que estava sepultado, o fantasmagórico zumbi denominado “construtivismo”. E ele já me espreita!


FILIPE                                                                                  

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

VOLUMES MORTOS

Não, eu não conhecia “volume morto”. Conheço, desde sempre, “peso morto” – algo imprestável e que nos atravanca. Alguns “pesos mortos” obstruem o meu caminho, mas melhor não citá-los. Há também arquivo morto, uma seção onde se guardam os documentos antigos, alimento dos historiadores e de ácaros. Ângulo morto eu conheci quando ainda envergava a farda verde-oliva, e se trata de uma região escondida do campo de visão. Quando se está numa elevação no meio da mata e se avista outro morro, o vale escondido compõe o tal ângulo morto. Se há ângulo vivo, não fiquei sabendo, pois os instrutores militares não me apresentaram.

Mas o assunto de hoje deveria ser somente “volume morto”. Da primeira vez que ouvi essa palavra fiquei desconfiado, pensando ser algo ruim. Mas não. É o volume morto da Cantareira que tem matado a sede de muitos paulistas durante esta crise hídrica – ou seca, para não usar essa expressão besta, pretensamente glamorosa. Mas, quando o tal volume morto já começava a morrer, eis que o governo paulista – que não chega a ser um “peso vivo” – descobre, nas suas soturnas explorações, mais um “volumoso defunto”. Com essa nova reserva (meio barrenta, malcheirosa, mas água) e as estivais “águas de fevereiro”, o povo do novo semiárido poderá atravessar o próximo estio – que promete ser penosamente longo –, até que este rico estado resolva investir em reúso, cisternas ou dessalinização, como há tempos já fazem os israelenses.

A informação também tem o seu volume morto, algo quase inacessível. Mas para alcançá-lo, é necessário descer aos abismos, cavoucando sites, jornais impressos, televisivos e radiofônicos. Somente assim pode-se ficar sabendo pormenores do envolvimento de um grande banco (HSBC) em esquema internacional de lavagem de dinheiro. O HSBC é ligado às famílias Safra e Andrade Vieira, que, por sua vez, são ligadas aos grãos-tucanos paulistas. Aquele banco, que tem filial em Genebra, lava qualquer dinheirinho. Seja do rei de Marrocos, narcotraficantes mexicanos ou de brasileiros corruptos. E fica branquinho o danado.

Colunistas da Folha de S. Paulo, dentre os quais Vladimir Safatle e Kenneth Maxwell, informaram recentemente que mais de 500 bilhões de reais passaram pela filial suíça do HSBC num intervalo de tempo inferior a cinco meses. A notícia brotou de um furo no “casco” feito por um funcionário dedo-duro daquela instituição. Muito mais, porém, repousa nos subterrâneos do sistema financeiro internacional. Segundo pesquisadores, a corrupção consome cerca de 5% do PIB mundial. Isso significa que, a cada ano, 1,5 trilhão de dólares vão para o “volume morto” de paraísos fiscais, como o HSBC, ou para bolsos mais modestos, mas nem por isso limpos.

Ainda sobre o HSBC: O Brasil aparece como sendo o nono país que mais operou lavagem naquele banco, com milhares de brasucas envolvidos. Mas nenhum nome foi identificado na mídia, por quê? Temos competentes Ministério Público, Judiciário e TV Globo, que juntos, justa ou injustamente, desancaram uma nuvem de petistas. No entanto, um tumular silêncio cobre a plutocracia tupiniquim afundada nesse lamaçal.

Parafraseando George Orwell no clássico “A Revolução dos Bichos”: “No Brasil, todos são iguais, mas alguns são mais iguais do que os outros”. 


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